160-A tensão continua

1206 Words
Miranda Steel A notícia não sai da minha cabeça. Mesmo sentada diante do computador e com a tela cheia de planilhas abertas, o meu pensamento insiste em voltar para o mesmo ponto: Adrian Gray. Filho do dono. Novo CEO da filial. Meu futuro chefe. É estranho perceber que, apesar de trabalhar aqui há meses, eu nunca vi nada sobre ele. Nenhuma matéria interna, nenhum destaque nos murais digitais da empresa, nenhuma apresentação formal. Conheço os produtos, os projetos, os códigos, os relatórios financeiros. Sei o nome de praticamente todo mundo que ocupa cargos importantes. Mas sobre ele… nada. Tenho a sensação vaga de já ter visto uma foto sua em algum lugar. Talvez na internet. Talvez em algum documento antigo da empresa. Um rosto que passou rápido demais para fixar na memória. Não sei dizer. E isso me incomoda mais do que eu gostaria de admitir. Mas não posso me dar ao luxo de pensar nisso agora. O que realmente me preocupa é o meu trabalho. Torço para que nada mude. E, se mudar, que seja para melhor. Não quero sair do lugar onde estou. Não quero ser rebaixada. Não quero ouvir que as minhas funções serão reduzidas ou, pior, que não precisam mais de mim. Existe sempre a possibilidade de ele chegar com uma equipe pronta, pessoas de confiança, e simplesmente remodelar tudo do jeito dele. Isso acontece. Eu sei que acontece. Respiro fundo e tento me apegar às palavras do Jonas. Ele disse que garantiu a minha permanência. Disse que sou eu quem resolve tudo. Que cuido de tudo. Preciso acreditar nisso. Preciso. A manhã avança devagar, mas cheia. Planilhas para revisar, contratos para conferir, documentos para organizar. Hoje também é dia de preencher os pedidos de materiais de escritório: papel, canetas, cartuchos de impressora, coisas pequenas que mantêm o lugar funcionando. É nesse tipo de detalhe que eu me concentro quando a minha cabeça ameaça sair do controle. Trabalho é território seguro. Com o passar do tempo, fica claro que a notícia já circulou. Os corredores estão diferentes. Cochichos baixos, olhares curiosos, perguntas que não são feitas diretamente. As pessoas fingem normalidade, mas ninguém está realmente focado. Quando caminho pelo andar da presidência, ouvindo o som ritmado do meu salto no piso impecável, a recepcionista me chama. — Miranda... — Diz ela, inclinando um pouco o corpo sobre o balcão. — O que você acha desse novo chefe que está vindo? Paro por um segundo e a encaro com educação. — Não tenho muito o que achar ainda... — Respondo. — Só espero que tudo continue funcionando bem. Ela faz uma careta leve, como se estivesse esperando algo mais dramático. Eu sei que ela não gosta de mim. Eu não sou o tipo de pessoa que fica conversando nos cantos, ou que sai espalhando algo e muito menos chego com interesse em saber de alguma coisa. Eu apenas chego, trabalho e vou embora. A minha cabeça não cabe esse jeito que ela e as outras têm. — Ah, mudanças sempre acontecem. — Comenta. — Mas geralmente recepcionistas não são muito afetadas. Agora… secretárias… Ela deixa a frase no ar, carregada de insinuação. Sinto um aperto no estômago, mas mantenho o rosto neutro. Eu sabia que em algum momento viria alguma provocação. — Com licença. — Digo apenas, com um pequeno sorriso profissional. Não fico para ouvir mais nada. Não discuto. Não vale a pena. Aprendi cedo que ouvir especulação só aumenta o medo e eu já tenho o suficiente. Sigo até a sala de reuniões para preparar o espaço. Esse lugar tem de tudo: gente sem noçãö, gente arrogante, gente que se acha melhor do que todo mundo. Mas também existem pessoas boas. Gente simples, educada, que faz o trabalho acontecer sem precisar de palco. E uma delas acaba de entrar. — Bom dia, minha filha. — Diz a senhora Vilma, empurrando o carrinho de limpeza com calma. — Bom dia, dona Vilma. — Respondo, aliviada ao vê-la. Ela sorri, aquele sorriso fácil que sempre parece sincero. Dona Vilma é querida por muitos, mas ela sabe bem os carinhos que são reais. Ela não se engana com ninguém e não tem quem tente passar a perna nela. — Como você está hoje? — Bem… — Penso por um instante. — Só um pouco preocupada. Ela ergue as sobrancelhas, curiosa. — É por causa do novo chefe? Assinto, surpresa. — Como a senhora já sabe? Vilma solta uma risada baixa, divertida. — As recepcionistas são mais rápidas que a internet. — Diz. — O trabalho delas é espalhar fofoca. Não consigo evitar o sorriso que surge nos meus lábios. — Faz sentido. Enquanto ela limpa a sala com movimentos tranquilos, conversamos um pouco. Nada profundo. Nada pesado. Só palavras leves, suficientes para aliviar a tensão no meu peitö. Quando ela termina, eu organizo a mesa: papéis alinhados, canetas no lugar, café pronto, água, tudo exatamente como precisa estar. Gosto de deixar tudo impecável. Na hora certa, as pessoas começam a chegar. Uma a uma. Cumprimentos rápidos, laptops sendo abertos, cadeiras arrastadas. Quando Jonas entra, eu já estou no meu lugar com tablet em mãos, postura firme. Ele não demora a ir direto ao ponto. — Como alguns de vocês já devem saber, Adrian Gray estará assumindo o comando desta filial. — Anuncia. Um murmúrio contido percorre a sala. — Podem ocorrer algumas mudanças mínimas na forma como certos processos são conduzidos. — Ele continua. — Os erros recentes no sistema e em alguns documentos foram mais do que suficientes para o senhor Gray tomar essa decisão. O meu estômago se revira levemente, mas mantenho a atenção. — Adrian é extremamente capacitado. — Jonas diz. — E tem a mesma visão estratégica do pai. Isso, a longo prazo, só tende a melhorar o nosso desempenho. Eu gostei muito dessa mudança e peço que vocês comecem a se preparar. A reunião segue com análises, números, projeções. Anoto tudo com cuidado, como sempre. Quando termina, cada um volta para sua rotina e eu faço o mesmo. Mais e-mails. Mais arquivos. Mais organização. Quando o horário do almoço chega, tenho uma hora livre. Decido ir para casa. É perto, rápido e mais econômico. Pego o transporte público e, durante o trajeto curto, penso no que vou comer. Nada muito elaborado. Eu preciso fazer compras no mercado, mas só vou conseguir quando receber o meu pagamento. Quando chego, largo a bolsa no sofá e vou direto para a cozinha. Abro os armários. Pão. Geleia. Pasta de amendoim. Um pouco de leite. — Perfeito. — Murmuro. Esse será o meu almoço. Simples, rápido e suficiente. Como em silêncio, sentada à pequena mesa, pensando no restante do dia. Depois de comer, começo a preparar as minhas coisas para o segundo trabalho. E isso… isso é culpa da minha mãe. Por causa dela, eu tenho me dividido em duas e não sei por quanto tempo isso vai se arrastar. E o principal, não sei por quanto tempo eu vou suportar. Guardo tudo com cuidado, confiro horários, ajeito a bolsa outra vez. Em breve, preciso voltar para a empresa. Respiro fundo. E bem aqui, já vou me organizando para mais tarde e já penso que hoje eu receba algo do pagamento da semana.
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