164-Esperar e confiar

1117 Words
Miranda Steel Eu ainda estou parada na copa quando finalmente consigo respirar de verdade. O meu corpo inteiro treme, como se eu tivesse acabado de fugir de algo muito maior do que eu. As minhas mãos estão geladas, apesar do café quente que me queimou minutos atrás. O cheiro ainda está no ar: café derramado, nervosismo, desastre. — Dona Vilma… — Começo, com a voz falhando. — Eu… eu derrubei café quente no novo chefe. Ela arregala os olhos no mesmo instante. — No filho do dono? — Pergunta, chocada. Eu apenas balanço a cabeça, sentindo a garganta apertar. — No corredor. Eu estava com pressa… virei rápido demais… e aconteceu. Por um segundo, ela fica em silêncio. Dá para ver o impacto da informação. Depois, respira fundo, como alguém que já viu muita coisa na vida. — Senta aqui, menina. — Ela diz, puxando uma cadeira. — Antes que você caia dura no chão. Ela vai até a pia, pega um copo de plástico e enche de água. Me entrega com cuidado, como se eu fosse feita de vidro. — Bebe devagar. Eu obedeço. A água desce fria, ajudando a acalmar um pouco o fogo dentro de mim. — Essas coisas acontecem. — Ela diz, com a voz firme, mas gentil. — Incidente não escolhe hora, nem pessoa. Não foi porque você quis e não foi descuido por maldade. Foi um acidente. Eu escuto, mas minha mente não aceita tão fácil. A imagem dele passa pela minha cabeça repetidas vezes. O olhar duro. A irritação. A palavra louca ecoando como um carimbo na minha testa. Isso nunca ocorreu comigo antes. — Ele vai me demitir... — Eu murmuro, quase sem voz. — E-eu não posso perder esse emprego. Dona Vilma se aproxima mais. — Olha pra mim. — Ela pede. Eu levanto os olhos. — Ninguém é mandado embora por um acidente desses. Ainda mais você. Todo mundo aqui sabe o quanto você trabalha... se acalma, querida. Eu queria acreditar. Queria mesmo. Mas o medo não some. Ele se espalha pelo peitö como um nó apertado demais. Fico aqui sentada por alguns minutos, respirando, tentando juntar os pedaços. Até que me forço a levantar. — Eu preciso voltar. — Digo. — Tenho trabalho. — Vai, mas vai com calma. — Ela responde. — E qualquer coisa, me chama. — Obrigada… de verdade. Quando saio da copa, sinto como se estivesse caminhando sobre um campo minado. Volto para a minha sala e tento retomar a rotina. Tento. Já que não vou participar da reunião, preciso voltar aos outros compromissos. Abro o e-mail e releio cada mensagem como se estivesse procurando uma armadilha escondida entre as palavras. Respondo tudo com extremo cuidado, revisando três, quatro vezes antes de apertar “enviar”. O telefone toca. O meu coração quase salta pela boca. Atendo. — Secretaria da presidência, boa tarde. É apenas um pedido simples. Desligo e respiro fundo, tentando acalmar o ritmo acelerado do meu peito. Mas cada toque seguinte faz o mesmo efeito. Meu corpo reage como se fosse uma sentença. Quando preciso sair para buscar documentos, caminho pelos corredores sentindo olhares que talvez nem existam. Tenho a sensação constante de que estão cochichando, de que sabem, de que comentam. “Foi ela.” “Aquela ali.” “A secretária que derramou café no novo CEO.” Não sei se é real ou se é a minha culpa falando mais alto. Ninguém comenta nada. Ninguém pergunta nada. E isso é pior. O silêncio vira um tipo de tortura. Horas depois, quando já estou exausta de segurar o próprio nervosismo, Jonas aparece na porta da minha sala. O meu corpo inteiro se enrijece. — Miranda? — Ele chama, com um tom leve demais para o que eu esperava. — Sim? — Posso entrar? — Claro. Ele fecha a porta atrás de si e encosta na mesa, cruzando os braços. — Não precisa ficar preocupada... relaxa. Eu o encaro, sem entender. — O Adrian já entendeu que foi um acidente. Eu falei de você para ele e aos poucos, ele vai ver. O meu peitö afunda… e depois sobe, como se alguém tivesse retirado um peso enorme de cima de mim. — Ele… ele entendeu? — Pergunto, ainda sem acreditar. — Sim. — Jonas sorri de leve. — Eu expliquei. E, sinceramente, essas coisas acontecem. Poderia ser e ali... Um suspiro escapa de mim antes que eu consiga segurar. — Obrigada. — Digo, com sinceridade. — Eu estava muito nervosa. — Só preciso te fazer um alerta... — Ele continua, agora um pouco mais sério. — Hoje você estava quase correndo pelos corredores. Eu sei que o dia foi pesado, mas isso não é ético nem seguro. Nem pra você e nem pra ninguém... tenha mais cuidado. — Eu sei. — Respondo rápido. — Não vai se repetir. Desculpa. — Eu sei que você é dedicada. — Ele diz. — Só tenha mais atenção. E relaxe... não foi o fim do mundo. — Vou ter. Ele sorri novamente. — Amanhã você passa a trabalhar diretamente com o Adrian. Eu retorno para a diretoria e você começa com ele. O meu estômago se contrai de leve. — Boa sorte. — Ele acrescenta. — Você é uma boa moça, Miranda. — Obrigada por tudo… pela paciência. Ele acena, pede licença e sai. Quando fico sozinha, me permito respirar de verdade pela primeira vez no dia. O resto da tarde passa devagar e sem novos sustos. Quando finalmente chega a hora de ir embora, confiro tudo duas vezes. Computador desligado. Agenda organizada. Nada pendente. No caminho para casa, eu relaxo um pouco no transporte e tento esquecer o que houve. E aqui, paro no mercado. Tenho pouco dinheiro, então escolho com cuidado. Pão. Leite. Algumas frutas. Macarrão instantâneo sendo vários. Chá. O básico. Enquanto passo pelo caixa, penso que sobrevivo praticamente com o pagamento do segundo emprego. O salário de secretária ajuda com quinhentos dólares a mais para completar o aluguel e as outras contas básicas. O resto… já tem destino certo. Sobrevivência. Não gasto mais nada além do necessário e queria ver se consigo mais alguma coisa. Já ouvi tanto que dá pra ganhar algo na internet, mas não faço ideia. Chego em casa carregando as sacolas, deixo tudo perto da pia e vou guardando aos poucos. O meu corpo dói como se tivesse apanhado. Dores na nuca, costas, nas pernas, na cabeça. Sento na cama, tiro os sapatos e encaro o vazio por alguns segundos. Preciso de um banho e de um dia inteiro de sono. — Amanhã… — Murmuro para mim mesma. — Que amanhã seja um dia bom. Por favor... É tudo o que eu peço.
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