Adrian Gray
Ainda estou parado próximo ao balcão de check-in quando confiro o relógio pela terceira vez em menos de dois minutos. Tenho tempo. Mais tempo do que gostaria, na verdade. Já resolvi tudo o que precisava: documentos conferidos, malas despachadas, acesso ao lounge liberado. Tudo organizado. Tudo sob controle.
Menos a minha cabeça.
O aeroporto está movimentado, vozes se misturam, anúncios ecoam pelos alto-falantes, mas eu estou em uma bolha silenciosa, observando pessoas indo e vindo com destinos, histórias e urgências que não são as minhas. Hoje, eu sou quem vai embora.
Meu celular vibra na mão.
Rocco: Cheguei. Onde você está?
Um canto da minha boca se ergue antes mesmo de eu perceber. Digito rápido.
Eu: Área de embarque internacional. Perto do café. Ainda tenho um tempo.
Bloqueio a tela e me apoio de lado na coluna, respirando fundo. Parte de mim esperava que ele se atrasasse ou que algo desse errado. Não por falta de vontade de vê-lo, mas porque despedidas sempre me parecem definitivas demais, mesmo quando não são.
Minutos depois, reconheço Rocco de longe. É impossível não reconhecer. Ele vem caminhando com aquele ar confiante de quem nunca passou despercebido em lugar nenhum. O que me chama atenção, no entanto, não é ele, é a sacola em sua mão.
Franzo a testa instintivamente.
— Você veio correndo, não veio? — Pergunto assim que ele se aproxima.
Rocco abre um sorriso largo, daquele que só ele sabe dar, e para bem na minha frente.
— Ainda bem que deu tempo.
Antes que eu diga qualquer coisa, ele me puxa para um abraço forte, sincero, daqueles que apertam. O tipo de abraço de despedida. Demoro um segundo a retribuir, mas quando faço, percebo o quanto precisava disso.
— Obrigado por vir. — Digo, com a voz mais baixa do que planejava.
Ele se afasta apenas o suficiente para me encarar.
— Eu não perderia isso por nada, Adrian. Você sabe disso.
E eu sei.
— Senhor Gray! — Rocco cumprimenta o meu pai.
Apesar de todas as loucuras que já atravessamos juntos, de decisões erradas, noites intermináveis, conflitos que quase nos colocaram em lados opostos… Rocco é família. O tipo de irmão que a vida escolhe, não o sangue.
Ele estende a sacola na minha direção.
— Cassie e Maggie prepararam isso pra você.
Olho para dentro e reconheço o cheiro antes mesmo de ver. Biscoitos caseiros. Aqueles mesmos que Cassie insiste em fazer sempre que quer demonstrar carinho, e que Maggie ajuda roubando pedaços da massa antes de assar.
Já vi isso antes.
Sorrio de verdade agora.
— Diz a elas que eu vou sentir falta disso. — Digo, fechando a sacola com cuidado. — E obrigado. De verdade.
Rocco apenas assente, como se soubesse que certas coisas não precisam ser verbalizadas.
Sentamos ali por um tempo, falando sobre coisas banais. Rimos de histórias antigas, comentamos negócios, pessoas em comum, planos que talvez nunca saiam do papel. O tempo passa rápido demais e lento demais ao mesmo tempo.
— Só falta o Igor. — Ele comenta, olhando em volta.
— Ele deve estar preso em alguma reunião interminável pelo mundo. — Respondo. — Ou deve estar procurando a Érika. Mas, ele já sabe.
Rocco ri.
Depois de alguns minutos, ele muda levemente o tom.
— E seu pai? Como ele está? — Ele pergunta quando o meu pai se distancia.
— Melhor do que nunca. — Respondo. — Teimoso como sempre, mas bem. Só… não gostou muito da ideia de me ver ir mesmo tendo pedido.
— Imagino.
— Ele sabe que é por uma boa causa. Mas dá pra ver o pesar nos olhos.
Rocco me encara com atenção.
— Aproveita esse tempo, Adrian. De verdade. Um lugar novo, uma rotina diferente… ficar longe um pouco das loucuras daqui vai te fazer bem.
Assinto devagar.
— Eu também acho.
O aviso de embarque soa pelos alto-falantes. Meu voo.
Levanto, ajeito o casaco no ombro. Rocco faz o mesmo.
— Vai dar tudo certo. — Ele diz, batendo de leve no meu braço. — Avisa quando chegar.
Eu aceno e depois, vem o meu pai.
Nos despedimos aqui. Sem dramatizações excessivas. Sem promessas vazias. Apenas um último olhar cúmplice antes de eu seguir.
Não olho para trás.
Caminho em direção ao portão de embarque com a sensação estranha de estar fechando uma porta e abrindo outra ao mesmo tempo. O voo tem pouco mais de seis horas. Tempo suficiente para reorganizar pensamentos, revisar planos e, talvez, dormir. Ou não.
{ . . . }
Horas depois, piso em solo firme novamente.
Sou recebido por funcionários da empresa assim que desembarco. Tudo acontece de forma eficiente, quase automática. Cumprimentos formais, sorrisos treinados, ajuda com as malas.
— Olá, senhor. As demais bagagens já estão no apartamento. — Um deles informa.
— Obrigado. — Respondo.
Confiro as horas no relógio. Mais cedo do que imaginei. E, surpreendentemente, não me sinto cansado.
— Pode me levar direto à empresa. — Digo ao motorista quando entramos no carro.
Ele parece satisfeito com a decisão.
— Vai gostar da cidade, senhor. Tem muita coisa boa para conhecer.
— Fico feliz em ouvir isso. — Respondo. — Estou animado.
O carro segue pelas ruas enquanto observo tudo pela janela. Prédios imponentes, pessoas apressadas, um ritmo diferente do que estou acostumado, mas não hostil. Apenas… novo.
Minutos depois, o prédio da empresa surge à frente. Imponente. Impecável.
Sou recebido pelo chefe da segurança, que me cumprimenta com respeito imediato e peço para não me anunciarem ainda. Quero entrar sozinho e assim é feito. Subo os degraus, atravesso a entrada principal e sinto o clima do lugar. Organização, seriedade, um certo peso no ar que só grandes empresas carregam.
Não olho muito para as pessoas. Aprendi cedo que isso é um convite para ser cercado.
Entro no elevador e observo os números subirem. Quando as portas se abrem no andar executivo, caminho pelo corredor amplo, analisando tudo com atenção. Alguns olhares curiosos, discretos. Eles sabem quem eu sou.
Viro o corredor.
E então acontece.
Um impacto forte contra o meu peitö e um líquido quente se espalha pela minha camisa.
— Droga! Que merdä... — Exclamo, sentindo a ardência imediata.
— Meu Deus, me desculpa! Desculpa mesmo!
A mulher à minha frente está claramente apavorada. Os olhos arregalados, as mãos tremendo enquanto tenta inutilmente conter o estrago. O café escorre e a minha camisa está arruinada.
Olho para ela, tentando me conter. Depois, olho para o crachá preso à blusa dela.
Miranda. Miranda Steel!
Respiro fundo sem acreditar numa merdä dessas.
Cheguei com o pé esquerdo.