Miranda Steel
O salão da presidência ainda está cheio quando ele termina o recado.
A voz de Adrian Gray ecoa firme, controlada, sem elevar o tom, sem agressividade alguma. Ainda assim, cada palavra pesa. Não é o que ele diz, é como diz. Objetivo. Preciso. Cortante sem precisar ser rude.
Eu estou em pé, alguns passos atrás. Postura profissional. Rosto neutro. Mas por dentro, sinto como se tivesse sido empurrada para o centro do salão e deixada ali, exposta.
Porque eu sei.
Eu sei que aquilo não é só para eles.
É para mim.
Quando ele finaliza, o silêncio dura apenas um segundo, o suficiente para o desconforto se espalhar. Logo depois, as pessoas começam a se mover. Cadeiras arrastam, passos retomam o ritmo, conversas surgem em murmúrios baixos. Cada um volta ao seu papel, à sua função, como se nada tivesse acontecido.
Mas eu continuo parada por mais um instante.
Tenho a estranha sensação de estar sendo observada.
Não olho para os lados. Não procuro confirmar. Apenas sinto. Um peso invisível em mim, como se alguém estivesse analisando cada micro reação minha. O modo como respiro.
Engulo em seco.
Quando finalmente me viro, caminho até à minha sala com passos firmes demais para quem está tentando parecer natural. Assim que entro, fecho a porta com cuidado excessivo, como se qualquer ruído mais alto denunciasse o que estou sentindo.
Vou direto ao filtro de água. Encho o copo até a borda e bebo em goles longos, quase desesperados. A água desce fria, mas não acalma completamente o nó que se formou no meu estômago desde o salão.
Respiro fundo.
Uma vez.
Duas.
— Você consegue... — Murmuro para mim mesma.
Pego o tablet em cima da mesa e abro a agenda do dia. Os compromissos estão ali, organizados, claros, sem espaço para erro. Mesmo assim, sinto o coração acelerar. Hoje não é um dia comum. Nada desde que cheguei aqui tem sido comum.
E então lembro.
Do e-mail.
Assim que cheguei cedo, antes mesmo de ligar o computador da sala da presidência, enviei a mensagem para a filial de Washington. Pedi à antiga secretária de Adrian informações sobre como ele gosta do ambiente de trabalho. Não foi uma pergunta simples. Foi quase um pedido de socorro silencioso.
Por sorte ou misericórdia corporativa, ela respondeu.
Uma lista longa. Detalhada. Minuciosa.
Preferências de organização, horários em que não gosta de ser interrompido, a ordem exata de como os documentos devem ser apresentados, como ele gosta que a agenda seja estruturada, o nível de antecedência com que espera relatórios, o tipo de linguagem que considera profissional.
E o café.
O café veio descrito com uma precisão quase absurda.
Foi assim que descobri.
Pouco açúcar.
Uma pequena colher de creme.
Temperatura alta.
Nada de copo descartável.
Guardei essa informação como se fosse ouro.
Levanto da cadeira, ajeito a postura e sigo para a sala dele.
Bato duas vezes.
— Com licença.
A voz sai firme. Melhor do que me sinto.
Entro com o tablet já aberto e a agenda visível. Ele está sentado atrás da mesa, o laptop aberto, a atenção dividida entre a tela e alguns documentos físicos.
— Pode falar, Miranda.
Começo pela reunião com a equipe do financeiro. Cito os horários, os nomes, o objetivo. Ele faz um aceno quase imperceptível com a cabeça. Depois menciono as planilhas enviadas, explico que há documentos que precisam ser assinados para anexação oficial. Em seguida, a visita ao setor de gestão de projetos.
Enquanto falo, ele acompanha no laptop, digitando. É como se estivesse reconstruindo a mesma agenda que eu apresento, ponto por ponto, testando se os dados coincidem.
Não digo nada.
Seguimos assim por alguns minutos. Ajustamos horários. Ele muda a prioridade de uma reunião, adiciona outra. Pede para antecipar um relatório. Tudo com naturalidade.
Normal.
E então começam os pedidos.
Nada exagerado. Nada fora do comum. Mas o tempo… o tempo é sempre curto e as horas da manhã são nessa forma:
— Preciso dos relatórios do último trimestre revisados. — Diz, sem me olhar.
Anoto.
— E os documentos do contrato inicial com a Orion Tech.
Anoto.
— Traga também os registros antigos de desempenho do sistema anterior. Não os resumos. Os registros.
O meu estômago aperta.
Ele continua. Um pedido em cima do outro. Documentos antigos. Informações que ninguém solicita há meses. Coisas que exigem busca, autorização, deslocamento. E é a manhã toda que eu fico para lá e para cá.
Eu me sinto sendo observada o tempo todo.
Testada.
Não há grosseria. Não há arrogância. Apenas uma calma afiada que me obriga a ser perfeita.
Quando chega a hora do almoço, crio coragem.
— Senhor Gray… o senhor pretende sair para almoçar ou devo providenciar algo?
Ele finalmente ergue o olhar.
— Vou sair.
O alívio quase me faz suspirar alto demais. Pelo menos, eu terei uma hora pra mim.
Mas, antes de pegar o blazer, ele me chama.
— Preciso dos registros do projeto inicial da empresa. O primeiro produto.
Meu corpo enrijece.
— O senhor quer os registros do projeto G4206?
Ele para.
Me encara.
— Você sabe o código do projeto?
Assinto.
— Sei todos! Há tempos ninguém mexe nesses registros. — Acrescento, com cuidado.
— Vou precisar deles. Quero tudo na minha mesa quando eu voltar do almoço.
Ele pega o blazer, passa por mim e sai.
Fico parada por um segundo. Engulo em seco e engulo a vontade de surtar.
Depois, olho o relógio.
Eu conheço o projeto. Sei exatamente onde estão os registros. Sei também que ficam em outro setor, longe do andar da presidência. Documentação privada. Preciso falar com o supervisor.
E isso vai tomar todo o meu horário de almoço.
Desço os andares rapidamente, tentando não correr sobre os saltos. O estômago já começa a reclamar. O cansaço pesa nas pernas. Passo pelos corredores como se estivesse atrasada para salvar algo muito maior do que uma simples pasta.
Quando chego ao setor, vejo o supervisor saindo.
Ainda bem!
— Senhor Marcos! — Chamo, quase ofegante. — Preciso dos registros do projeto G4206.
Ele me encara como se eu tivesse pedido algo absurdo.
— Motivo?
— Solicitação do senhor Gray. É urgênte!
Ele suspira, olha o relógio.
— Estou indo almoçar agora.
— Por favor... — Digo, sem conseguir esconder o desespero. — É importante. Ele quer os registros quando voltar.
Ele me observa por alguns segundos.
Então tira as chaves do bolso e as coloca na minha mão.
— Boa sorte procurando. Eu tenho um compromisso agora.
E vai embora.
Fico ali, parada, encarando a porta fechada.
— Sério? — Murmuro. — É sério isso?
É, é bem sério!
Entro na sala de arquivos.
O tempo passa rápido demais. Gavetas. Pastas. Prateleiras altas. Números. Datas. Os meus braços começam a doer. O estômago ronca alto o suficiente para me irritar. E aqui, o tempo passa mais rápido do que eu possa imaginar e fico frustrada a cada segundo.
Trinta e sete minutos depois, encontro.
Pego a pasta enorme, pesada, quase ridícula de tão grande.
Pela primeira vez desde que cheguei aqui, eu odeio alguém.
— Eu te odeio... — Sussurro, pensando no supervisor, enquanto caminho de volta. — Não custava nada ter procurado. Dois minutos. Em dois minutos ele acharia...
Quero xingar, mas nem isso eu consigo.
Quando chegam até mim e pedem algo, eu sempre faço. Sempre!
Subo os andares com dificuldade.
Quando chego à presidência, coloco a pasta na mesa de Adrian com cuidado. Não digo nada. Não fico. Saio antes que minha raiva apareça no rosto.
Vou direto à copa, me sirvo de água e tento lembrar se tenho barrinhas de cereais hoje. Não lembro!
Então sinto o cheiro.
Lasanha.
Viro devagar e vejo o recipiente dentro do micro-ondas sendo aquecido. Dona Vilma entra logo depois e sorrir ao me ver.
— Trouxe lasanha para nós duas hoje. Vai querer, não é? E tem suco de maracujá!
Estou ouvindo isso mesmo?
A vontade de chorar vem forte. E antes que eu consiga pensar, abraço Dona Vilma com força. Aqui, nesse abraço simples, o dia pesa um pouco menos.
Ela é um anjo!