4-Um presente surpresa

1615 Words
Cassie Diaz Liora me conduz pelos corredores silenciosos da mansão com aquela calma que só ela tem, como se todas as portas se abrissem naturalmente para a sua presença. Ando atrás dela, ainda com a pele quente do sol, a respiração controlada e o corpo levemente dolorido, mas curiosa. Adoro quando chegam peças novas. Quando ela para diante da porta de metal que sempre vi fechada, sinto meu estômago contrair. Essa sala… é quase que proibida. Ninguém entra sem a Liora e ela não chama ninguém. Sempre vi de longe, indestrutível, vigiada, inacessível. Uma chave digital pisca em azul quando Liora aproxima o dedo. Em seguida, ela digita algo no painel que nem consigo acompanhar. A porta desliza para o lado com um som suave, quase elegante demais para o aço pesado que parece se mover. Meu coração salta no peitö. Por um segundo, fico parada na soleira, sem saber se fico ou entro. Liora me olha por cima do ombro, apenas arqueia uma sobrancelha, e eu finalmente avanço. — Entre, minha querida. — Diz ela, como se a minha hesitação fosse infantil. Dou dois passos e… meu queixo quase cai. A sala é um paraíso de tecidos, cores, brilhos e formas. Fileiras e mais fileiras de cabides organizados por cor, textura, estilo. Tops brilhantes, saias de couro, vestidos curtos, longos, colados, esvoaçantes. Há rendas, seda, cetim, vinil, paetês, metalizados. Saltos… dezenas deles. Todos impecáveis, brilhosos, de marcas que eu só vejo nos clientes, não tanto nas mulheres. — Caramba... quanta coisa. — Sussurro, sem conseguir evitar. Minhas mãos automaticamente se esticam e tocam um tecido frio de seda azul. Ele escorre entre meus dedos como água. — Tudo isso… deve ter custado uma fortuna. — É o que eu acho. É visível que são roupas diferentes. — Custou. — Liora responde, simples, como quem comenta sobre comprar pão. — Não trabalho com coisas baratas. E eu invisto bem no meu negócio. Ela anda pela sala como uma curadora de arte. E eu fico atrás, admirando tudo com olhos arregalados. Narro mentalmente o que já sei, porque dentro dessas paredes todos sabemos o preço de tudo, mesmo que ninguém fale diretamente: Do que eu ganho nas noites, Liora fica com 70%. Isso mesmo, setenta por cento. Ela dá cama, roupas, comida de excelência, produtos caríssimos para pele e cabelo, além de manter uma academia privada e uma nutricionista. A mansão é abastecida com tudo do melhor. Já vi as contas de café da manhã e quase cai para trás. Coisas que eu nem sei pronunciar. Tudo orgânico, importado, fresco. Fora que, tem nossos exames de rotina, vitaminas e muito mais. E mesmo assim… olhar para essa sala me faz sentir pequena. Tudo aqui é luxo. O tipo de luxo que não existe no mundo real. Só nesse universo que Liora construiu e governa. — Na próxima noite... — Ela diz, pegando um vestido preto com lantejoulas minúsculas. — Quero todas impecáveis. Não aceito menos. — Eu… — Começo, mas meus olhos param em um vestido específico. Vermelho. Um vermelho profundo, sedutor e impossível de ignorar. Curto, justo, com alças finas. O decote tem uma sustentação perfeita e as camadas do tecido descem pelo quadril de um jeito que sei que aumenta os glúteos, define a cintura, molda o corpo. É lindo. É ousado. É perigoso só de olhar. Tem que ter postura e coragem para usar. Eu me aproximo sem controle, como se fosse puxada. Passo os dedos pelo tecido e sinto um arrepio subir pelo meu braço. — Ah… — Liora sorri, vendo. — Esse chamou sua atenção. Só consigo acenar com a cabeça. — Experimente. — Ela ordena com leveza. — Se servir… é seu. Meu coração acelera numa alegria quase infantil. Já estou tirando minha roupa antes de pensar duas vezes. Bem aqui mesmo, sem vergonha alguma. Liora fica atrás, observando cada movimento com aquele olhar calculado de quem sabe reconhecer uma peça feita para alguém. Pego o vestido com cuidado, deslizo o tecido pelo meu corpo. Ele se molda a mim com facilidade impressionante. Sinto o material frio, confortável, apertando delicadamente minha pele. Viro as costas para Liora, e ela sobe o zíper com firmeza. E então… olho para o espelho. Uau! O vestido abraça minha cintura, levanta meu bustö, alonga minhas pernas. Sou… outra. Isso aqui com um salto ficará um pecado. Sou uma versão poderosa e perigosa de mim mesma. Dou uma volta devagar e mäl reconheço a menina que fui um dia. — Ficou perfeito. — Liora constata, aproximando-se. — E-eu me apaixonei... é lindo! — Digo baixinho, o sorriso brotando sem que eu consiga segurar. — É seu. — Ela diz, direta. — Para a próxima noite. Eu me viro para ela, agradecida de verdade. — É sério? De verdade? — Ela acena. — Obrigada, Liora. Eu… eu vou usar. Com certeza. Estou… animada. — Nenhuma outra ficará poderosa nele como você. — Eu acho impressionante essa visão que ela tem de mim. — Vai ter uma fila de homens para você. — Ela comenta com um sorriso de canto. — E isso é bom. Você merece! Passamos quase duas horas aqui ou mais. Eu nem vejo. Nós conversamos, rimos, separamos peças. Ela deixa que eu escolha algumas coisas que gosto: dois tops, uma saia dourada, outro vestido azul. O clima é leve, gostoso, quase familiar. Parece um raro momento de paz no nosso mundo de fachadas. Eu gosto da madame Liora. Ela realmente me dá algo que as outras não tem. Quando finalmente saímos da sala, estou leve. Animada. Com uma energia nova. As roupas ficam lá ainda, mas escondidas para não haver confusões. Vou direto para a academia da mansão. É meu santuário. Subo na esteira, coloco a música no máximo. Algo com batidas fortes que empurram meu corpo para frente e começo a correr. O suor desce rápido, os músculos queimam de forma boa. Em poucos minutos, minha respiração está pesada, minhas pernas pesam, mas eu estou aqui, firme. Nem vejo o tempo passar e começo a pensar se faço outra coisa. Até que algumas mulheres entram. O ar muda. O clima fica pesado. É nessa hora que Liora aparece na porta, séria. — Cassie, venha comigo. Agora! — Diz ela. Séria e de rosto fechado. Meu coração dispara. Pego a toalha, desligo a esteira e vou atrás dela, enxugando o suor da testa e notando os olhares tensos. — O que aconteceu? — Pergunto, mas ela não responde. Andamos pelos corredores silenciosos até o escritório dela. Quando entramos, sinto a tensão no ar. Liora fecha a porta e aponta para a mesa. — Chegou algo para você! Eu paro. Não sei se devo sorrir, ficar assustada ou curiosa. Nunca foi de chagar nada pra mim. Em cima da mesa há uma sacola preta. Grande. Sem qualquer detalhe. Minimalista e misteriosa. Me aproximo devagar sem saber o que pensar. — Pode abrir. — Diz Liora, cruzando os braços. Meus dedos desfazem lentamente o laço superior. O coração parece bater no meu pescoço. Dentro da sacola… há uma caixa de veludo preto. Olho para a Liora e ela ergue uma sobrancelha, instigando. Abro a caixa e o meu ar some. Dentro dela… um colar com um par de brincos. Brilham tanto que quase ofuscam meus olhos. As pedras refletem a luz da sala com pequenos raios brancos, frios, perfeitos. Os brincos são grandes, delicados ao mesmo tempo. O colar… é uma corrente de prata com pedrinhas em toda sua extensão. — É… — Eu não consigo terminar. — Diamantes. — Liora completa, aproximando-se. — Pedras verdadeiras. Sem sombra de dúvida. Eu conheço uma joia. Minha boca fica seca. — E-eu estou... confusa. — Sussurro novamente. Ela pega o cartão que estava no fundo da sacola e lê. — Do seu Governador. Cinco anos. — Repete, olhando pra mim com aquele sorriso orgulhoso. E então me atinge. Cinco anos. Cinco anos desde a noite em que o conheci. Desde o primeiro toque. Desde o primeiro envolvimento. Desde a primeira vez que ele me escolheu… e voltou… e voltou… e nunca deixou de voltar. Cinco anos desde que minha vida virou o que é. Sinto as pernas fracas. Me sento na cadeira sem perceber. Seguro o colar com cuidado, quase com medo de quebrá-lo. — Cassie… — Liora diz com orgulho sincero. — Nenhuma outra aqui recebeu algo assim. E de alguém como ele? É… surpreendente. Deve ter custado muito dinheiro... e eu estou impressionada com isso. Você o fisgou! Eu fico aqui, olhando as joias. A luz rebate nas pedras e me cega. Nunca imaginei que um homem… um cliente… fosse me dar algo tão caro. Tão pessoal. Tão… significativo. Mesmo ocupado com a vida que tem, ele reservou um tempo e vontade para me dar algo assim. Que loucura! Sinto uma onda estranha dentro de mim. Orgulho. Vaidade. Poder. Ego. Tudo junto. — Você é uma favorita. — Liora afirma. — E agora, de alguém muito importante. Eu sorrio. Sorriso lento, verdadeiro. — Acho que… sim. — É mais que “sim”. — Ela responde. — É um marco, Cassie. Meus dedos tremem enquanto toco o colar. Uma parte de mim quer chorar, outra quer gritar, outra quer rir. Mas a que vence é a que quer… vencer. Que quer se sentir por cima. Que quer se lembrar de que eu ainda sou desejada. De que eu ainda sou Cassie Diaz: a mais procurada da casa. As joias brilham e eu sinto meu ego inflar, preenchendo o vazio que a rejeição da noite anterior abriu. Nem penso mais nisso aqui. E, pela primeira vez desde ontem… eu me sinto inteira de novo.
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