Adam Black POV
Tenho um restaurante para gerir.
E um dia demasiado cheio para aturar disparates.
Já não me bastava um dos empregados de mesa ter-se despedido de repente — sem aviso, sem respeito, simplesmente “vou seguir outro caminho”, como se isto fosse um programa de televisão. Agora tinha de contratar um substituto. E, como cereja no topo do bolo, hoje mesmo chegava o tal estagiário. Ou melhor, “aprendiz”.
Uma bela perda do meu tempo.
Eu sei, racionalmente, que quem está a começar merece uma oportunidade. Mas porquê aqui? Porquê no meu restaurante? Podiam perfeitamente ir desperdiçar o tempo de outro chef qualquer, num sítio onde a pressão não fosse constante e a exigência não estivesse colada às paredes.
Aqui, não há margem para erros.
O Mateus Grayson — o meu sócio — achou que seria uma ideia “brilhante” criar um concurso. “Descoberta de novos talentos”, disse ele. “Boa promoção para o restaurante.” Mão de obra qualificada e barata, claro. Como se eu fosse cair nessa. Um estagiário.
E como se não bastasse, o concurso foi internacional. Uma daquelas ideias “visionárias” lançadas nas redes sociais por uma agência de marketing — para atrair atenção, claro.
Mais visibilidade, mais alcance, mais logística para me dar dores de cabeça.
O que é que isto acrescentava?
Nada.
Perda de tempo. Dores de cabeça.
Abri o computador para rever a ficha do estagiário que ia chegar.
Jordan Parker.
Sem foto. Claro. Erro no ficheiro ou alguém simplesmente esqueceu a imagem. E, claro, ninguém corrigiu. Ótimo começo. Incompetência no primeiro clique.
Suspirei.
Odeio pessoas incompetentes.
E odeio atrasos.
Olhei para o relógio. Já devia ter chegado a empregada de mesa que contratei para cobrir a vaga. Nada. Nem sinal. Isto começa bem.
É pedir muito querer uma equipa que chegue a horas e saiba fazer o mínimo sem eu ter de supervisionar tudo?
Estava prestes a chamar a Clara Moreau, a minha chefe de sala, quando o telemóvel vibrou com uma notificação do intercomunicador da entrada.
Alguém tinha acabado de chegar.
Ainda faltava mais de uma hora para a chegada do estagiário. Só podia ser a nova empregada de mesa.
Começamos bem — a pontualidade já era opcional, pelos vistos.
Excelente. Já estava com vontade de a despedir antes mesmo de começar.
Dirigi-me para a entrada com passos firmes, a conter o tom de voz para não começar a gritar antes do tempo. Vi Clara a conversar com uma mulher jovem — demasiado jovem. Vinte e poucos anos, talvez. Bem-apresentada, pelo menos isso. Bonita, apesar dos óculos cobrirem metade da cara.
Ótimo. Uma empregada que precisa de óculos para ver.
Cabelos castanhos presos num r**o-de-cavalo apressado, mas funcional.
Assim que me viram, Clara apontou na minha direção e a rapariga começou a aproximar-se.
“Olá! Eu sou a…” — começou ela, antes de tropeçar no próprio pé.
Por instinto, avancei para a segurar, mas só senti um puxão na manga da camisa.
Ela caiu mesmo assim — de joelhos, estatelada no chão com um “Ouch” abafado — e levou consigo parte da minha camisa.
Fiquei parado. Olhei para baixo.
A manga estava rasgada. Esgaçada. Um buraco no tecido deixava parte do meu ombro à mostra.
Ela levantou-se num ápice, vermelha até às orelhas, olhos arregalados.
“Ai meu Deus… eu… rasguei… a sua… camisa?!” — gaguejou, horrorizada.
“Parece que sim.” — respondi, seco.
“Posso pagar uma nova! Quer dizer, posso tentar…”
Atirei-lhe a farda de empregada de mesa que tinha na mão.
“Pode começar a fazer o que foi contratada para fazer.”
“Mas eu…”
Não me interessava. Nem um pouco. Já tinha perdido demasiados minutos com aquilo.
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Jordan POV
Estava ali, de farda nas mãos, com a cara a ferver de vergonha e a sensação claríssima de que tinha acabado de arruinar tudo — e ainda nem tinha posto um pé na cozinha.
Estava nervosa. O coração batia tão alto que quase abafava os meus pensamentos. Quando avancei para o cumprimentar e me apresentar, não sei bem como — magia n***a, talvez? — tropecei no meu próprio pé. Clássico. Ele estendeu o braço para me segurar, mas o meu talento para o caos já tinha entrado em ação.
Em vez de me equilibrar, agarrei a camisa dele — só a camisa — e fui parar ao chão, de joelhos. E com a minha cara virada… para o centro dele. O centro.
Merda. Que vergonha.
Senti-me corar dos tornozelos às orelhas. Para onde raio eu estava a olhar?! Levantei-me no segundo seguinte, antes que ele se apercebesse do ângulo embaraçoso da situação.
E foi aí que reparei na camisa dele. Rasgada. Um rasgão no ombro. Claramente de marca. Branca, imaculada… ou melhor, tinha sido. Agora era só uma lembrança do seu antigo esplendor e uma representação fiel do estado da minha autoestima.
“Ai meu Deus… eu… rasguei… a sua camisa?!” — ouvi-me dizer num tom que não parecia meu. Um meio-agudo apavorado. Um “desculpa” disfarçado de grito interno.
“Parece que sim.” — respondeu ele, com a emoção de uma pedra.
“Posso pagar uma nova! Quer dizer… posso tentar…” — balbuciei, sem saber se me ria, chorava ou cavava um buraco ali mesmo.
Ele ignorou-me com a elegância de um lorde irritado e atirou-me uma farda para as mãos.
“Pode começar a fazer o que foi contratada para fazer.”
Era mais bonito do que nas fotos. E ainda mais insuportável do que aquilo que já diziam — o que, sinceramente, era um feito. Tive esperança que fosse exagero, mas parece-me que não.
“Mas eu…” Tentei desculpar-me outra vez, mas ele já se tinha virado de costas, a caminhar em direção à sala principal com o passo de quem já esgotou a paciência para o ano inteiro. Nem um olhar para trás. Como se eu fosse só mais uma nódoa no seu avental mental.
Só então olhei com mais atenção para a farda. Não era de cozinha. Era de empregada de mesa.
“Ele está sempre assim. Não é contigo. É… com toda a gente.” — disse a mulher que me tinha recebido. Li o nome bordado na farda dela: Clara Moreau. Não parecia particularmente calorosa, mas também não me gritava — o que, naquele momento, já era um alívio.
“Veste a farda, está bem? Vou mostrar-te as mesas da tua zona.”
“Mesas?” — perguntei, confusa. — “Vou ter que servir mesas?”
Aquilo era algum tipo de praxe? Era um teste? Um ritual de iniciação?
“Foi para isso que foste contratada.” — disse ela, como se fosse óbvio. A mesma coisa que o chef tinha acabado de dizer. Ui? Foi?!
Enquanto tentava processar tudo, dei por mim com a farda vestida, a seguir a Clara pelo restaurante, e a tentar apanhar metade das instruções que ela disparava como uma metralhadora.
Oh. Meu. Deus.
Isto tinha todos os ingredientes para correr m*l.
E eu? Era o desastre à espera de acontecer.