Capítulo 3: Cacos

1214 Words
Adam POV Tinha de começar a preparar o serviço do almoço. A empregada, pelo menos, tinha chegado — apesar do atraso. Agora era o raio do estagiário que também estava atrasado. Era um complô? Mas, bem sinceramente, talvez fosse melhor assim. As bancadas estavam limpas, as estações organizadas, e o relógio contava os minutos até à primeira comanda. “Lorenzo, preciso dos vegetais da estação lavados e cortados à Julienne. E revê o mise en place da estação quatro — aquilo parecia uma feira ontem.” — disse, sem tirar os olhos do bloco de notas. Lorenzo Vidal era o meu subchefe. Não posso dizer que tenha sido a minha primeira escolha, mas mostrou-se capaz — e isso, para mim, era o mais importante. E estava aqui. Nesta cidade pequena de onde todos fugiam, mas onde eu voltei. Lorenzo assentiu com aquele sorriso controlado. Não éramos amigos. Mas funcionávamos bem como equipa. Patrão e empregado, como deve ser. Sem mais relações, sem confianças desnecessárias. “Já tratei disso, chef. E acrescentei ervas frescas ao molho base, como discutimos na última reunião.” Como discutimos. Adorava lembrar-me disso. Adorava parecer diligente, atento, eficiente. O relógio passou das doze. O calor aumentava. E não era só do fogão. Os primeiros pedidos começaram a chegar à cozinha. Clara fazia bem o trabalho dela — precisa, silenciosa, sempre no tempo certo. A cozinha ganhou vida, e o som do metal contra madeira, frigideiras a chiar e ordens rápidas entrelaçava-se numa sinfonia que só fazia sentido ali. Por um momento, quase esqueci o raio do estagiário. Quase. Ainda não tinha dado sinal de vida. E a empregada nova? Não era suposto já estar a vir buscar os pratos? Nem sei o nome dela. Mas também, se tivesse aparecido a horas, talvez já tivesse tratado desses detalhes. Foi então que se ouviu o estrondo. Vidro a partir. Um grito abafado. Depois silêncio. Aquele tipo de silêncio que só acontece quando toda a gente à volta percebe que alguma coisa correu muito m*l. Levantei os olhos. Lorenzo parou o que estava a fazer, mas não se mexeu. Claro. Porquê meter-se, se pode observar à distância? “O que é que foi isto?” — perguntei, já a dirigir-me para a porta da cozinha. Saí pela porta de vaivém. Dois passos bastaram para ver o caos. Cacos no chão. Um copo tombado. Uma cliente com água no colo. E, no meio de tudo, a empregada nova — olhos esbugalhados atrás dos óculos, a agarrar uma bandeja vazia como se ainda fosse possível salvar alguma coisa. Claro. Só me faltava mais esta hoje. . . . Jordan POV Juro que a culpa não foi minha. Eu tentei. Eu realmente tentei. Mesmo que o desastre já estivesse a rondar o ambiente, tipo nuvem n***a a aproximar-se. Estava a fazer diligentemente o meu trabalho — ou a ser praxada, vá. Porque, tecnicamente, devia estar na cozinha… não ali, a equilibrar bebidas como se fosse artista de circo. Anotei os pedidos, entreguei-os à Clara, respirei fundo… e comecei a servir as bebidas. Para não correr riscos, levei o mínimo possível. Dois copos, primeiro. Uma garrafa a seguir. Tudo bem alinhado na bandeja, equilibrado com o cuidado de quem transporta nitroglicerina. Mas não. Clara achou que eu estava a perder tempo e empurrou-me para fora com uma bandeja cheia. Copos, garrafas, gelo, tudo o que a mesa tinha pedido — um arsenal líquido prestes a explodir. Consegui chegar à mesa. Milagre. Inclinei-me devagar, pronta para começar a distribuir as bebidas. E foi então que a cliente — impaciente ou talvez a tentar ajudar — decidiu que podia ela mesma tirar a garrafa da bandeja. Erro fatal. Senti o peso mudar, a bandeja oscilar. Tentei compensar. Falhei. Dois copos escorregaram. Um caiu direto no chão. O segundo bateu na borda da mesa e ricocheteou. A cliente deu um salto e, no susto, entornou a garrafa com agua… por cima dela própria. Ouvi o “AAAH!” dela antes mesmo do que restava na bandeja cair ao chão. O som estridente de tudo a partir encheu a sala. Água. Cacos. Caos. Blusa molhada. Expressão de horror. Eu, congelada. Bandeja vazia nas mãos. Boca entreaberta. Pés colados ao chão. Lindo. Maravilhoso. Primeiro dia épico. Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali parada, a olhar para a confusão como quem assiste a um acidente em câmara lenta. Congelada. Culpada. Com vontade de evaporar. Depois, lá consegui mexer-me. “Desculpa... peço imensas desculpas… desculpa...” — comecei a murmurar, em loop, enquanto me baixava para apanhar os cacos. “Oh, meu Deus…” Peguei na bandeja e comecei a colocar nela os pedaços maiores, tentando ignorar os olhares à minha volta — ou os julgamentos silenciosos que quase se ouviam. E foi então que, no meu campo de visão periférica… surgiram uns sapatos. Pretos. Impecavelmente engraxados. E eu soube. Antes mesmo de levantar os olhos, eu soube. O Chef. Adam Black. Com cara de quem estava prestes a transformar o meu primeiro dia… no meu último. Sem dizer uma palavra, puxou-me pelo braço — com força suficiente para me fazer levantar, mas não o suficiente para me partir um osso — e enfiou-me uma vassoura e uma pá nas mãos. Fiquei ali, a olhar para os objetos, sem saber o que fazer. Como se fossem armas alienígenas. Ah. Certo. Os cacos. Era para os cacos. Por um momento, o olhar dele bloqueou qualquer pensamento inteligente no meu cérebro. Só restou o modo pânico. E o som do meu coração a bater tipo tambor de escola de samba. Antes sequer de começar a juntar os cacos com a vassoura, ouvi a voz dele — seca, irritada, roçando os meus ouvidos como uma ameaça sussurrada: “Quando terminares... cozinha.” Arrepiei-me. Merda. Ia definitivamente ser despedida. …Mas bem, pelo menos ia conseguir entrar na cozinha antes disso. Sempre era alguma coisa. Vi-o a afastar-se em direção à mesa, onde pediu desculpa aos clientes em meu nome — com um tom tão controlado que até soou profissional. E ainda ofereceu o almoço, por conta da casa. Acho que os clientes sentiram pena de mim… ou talvez fosse do olhar assassino que ele me lançou. A cliente — a mesma que tinha decidido brincar às empregadas de mesa — também interveio. Disse que só estava a tentar ajudar, que não devia ter pegado na garrafa, e pediu desculpa… a ele. Não a mim. A ele. Claro. Porque, obviamente, ele é a vítima aqui. Mas acham que isso serviu para apaziguar a fera? Não. Não serviu. O olhar que ele me lançou antes de voltar para a cozinha deixava isso bem claro. Bom… perdida por cem, perdida por mil. Se era para ser despedida, então ele também ia ouvir das boas. Estava ali para estagiar na cozinha — na cozinha — não para ser praxada como empregada de mesa, só porque, pelos vistos, a dele estava a faltar. E já que era para ser despedida... ao menos que fosse com barulho. Varri os últimos cacos com a vassoura e a pá, suspirando, derrotada. Ok… mais barulho do que loiça a partir vai ser difícil — mas nunca se sabe. Eu só queria uma oportunidade na cozinha… não um lugar no Hall da Fama das trapalhadas.
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