Camille
Os sons abafados da Rocinha penetravam as paredes do escritório de Draco, criando um pano de fundo constante de ruídos e sussurros. Eu estava sentada em uma das cadeiras diante da mesa dele, observando a maneira como ele segurava o celular com a mão firme e os olhos fixos no que parecia ser uma mensagem importante. Draco era sempre assim, controlado, atento a tudo, um verdadeiro estrategista, mas eu sabia que hoje seria diferente. Hoje, ele veria que eu era mais do que uma presença enigmática. Eu podia contribuir para o que ele mais prezava: poder e controle.
Ele desligou o celular e me olhou com a mesma intensidade de sempre, tentando, como de costume, me decifrar. Eu sabia que ele ainda estava com um pé atrás em relação a mim, sempre suspeitando das minhas intenções. Era parte do jogo que eu estava disposta a jogar, mas agora eu estava pronta para mostrar uma nova carta na manga.
— Você pediu para vir aqui. Tem algo a dizer? — Draco finalmente quebrou o silêncio, sua voz rouca e controlada.
Eu cruzei as pernas lentamente e o encarei, mantendo meu olhar firme no dele. — Não sou apenas alguém que se mistura nas sombras, Draco. Eu posso te ajudar a fazer mais do que manter o controle. Posso te ajudar a expandi-lo.
Ele arqueou uma sobrancelha, claramente intrigado, mas manteve seu silêncio, me dando a liberdade de continuar. Respirei fundo, planejando cada palavra com cuidado. Não era o momento para rodeios. Eu tinha que ser direta, precisa, e, acima de tudo, mostrar que não estava apenas jogando um blefe.
— Sei que você está lidando com uma nova ameaça. A gangue do Souza tem se tornado um problema, especialmente com suas recentes alianças na Zona Norte. Eles estão fortalecendo suas operações, e, se nada for feito, isso pode te afetar diretamente.
Draco não moveu um músculo, mas eu vi o brilho em seus olhos mudar. Era um pequeno sinal de que ele estava prestando atenção. Continuei, com minha voz firme e calculada.
— A força deles está crescendo porque estão atuando em áreas em que você ainda não está presente. Eles controlam pontos de tráfico que poderiam ser seus. Se você deixá-los crescer mais, vão acabar atraindo aliados que antes estavam do seu lado. Mas há uma maneira de neutralizar isso, e é isso que eu vim te mostrar.
Agora, ele se inclinou um pouco para frente, apoiando os cotovelos na mesa, claramente interessado. Eu puxei um mapa da mochila que trouxe e o abri sobre a mesa. Era um mapa da Rocinha e dos territórios circundantes, com pontos marcados em vermelho, representando os locais onde a gangue de Souza estava estabelecendo bases.
— Se você quiser cortar o avanço deles, precisa fazer mais do que revidar. Precisa eliminar os aliados que eles estão tentando atrair antes mesmo que as alianças sejam firmadas. Os pequenos chefes que ainda estão indecisos entre se unir a você ou ao Souza. — Apontei para as áreas específicas no mapa. — Estes são os pontos vulneráveis. Se conseguir oferecer a eles proteção e um pedaço maior do mercado, vai atraí-los para o seu lado antes que Souza possa fazer isso.
Draco ficou em silêncio por um momento, seus olhos fixos no mapa e depois voltaram para mim. Havia algo em seu olhar agora, algo que ia além da simples desconfiança. Ele estava considerando a ideia, e isso era o que eu queria.
— E como você sugere que façamos isso? — Ele perguntou, sua voz baixa e controlada, mas com um interesse genuíno.
Eu sabia que esse era o momento de mostrar o meu valor.
— Primeiro, você precisa enviar uma mensagem clara. Ataques cirúrgicos nesses pontos fracos, sem grandes exibições de força, mas o suficiente para que eles entendam que o Souza não pode oferecer a segurança que você pode. Então, você chega com uma oferta: dinheiro, armas e proteção, mas só para aqueles que estão dispostos a seguir as suas regras. Um ataque direto ao Souza não vai funcionar a longo prazo. Mas desmantelar a base de poder dele, fazendo com que seus aliados o abandonem? Isso sim vai garantir sua vitória.
Os olhos de Draco cintilaram, e eu sabia que ele estava me escutando, absorvendo cada detalhe. Era um plano ousado, mas não impossível, e, mais do que isso, era um plano que mostrava a ele que eu não era apenas uma mulher bonita em busca de atenção. Eu era uma peça importante, alguém com quem ele poderia contar, se quisesse.
— Você parece entender muito bem o jogo, Camille. — Ele se recostou na cadeira, um leve sorriso surgindo em seus lábios, o que me fez sentir uma pontada de satisfação. — Mas me diga, o que você ganha com isso?
Eu sorri de volta, lentamente, sabendo que essa pergunta viria. Draco era inteligente. Ele sabia que ninguém oferecia algo sem esperar alguma coisa em troca.
— Eu ganho poder, Draco. Estar ao lado de alguém que sabe o que faz, que pode alcançar o topo. Quero ser mais do que uma figura à margem. Eu posso te ajudar, e em troca, quero fazer parte do futuro que você está construindo.
Ele me observou em silêncio, seus olhos escuros avaliando cada centímetro de mim. Havia tensão no ar, mas uma tensão diferente agora. Não era mais desconfiança. Era fascínio. Ele sabia que eu era uma aliada valiosa, alguém que poderia ser útil, mas, ao mesmo tempo, não podia deixar de questionar meus motivos.
— Você é mais perigosa do que eu pensava. — Ele murmurou, com um brilho de aprovação em seus olhos.
— Talvez. — Respondi, inclinando-me um pouco mais para frente, encarando-o diretamente. — Mas se eu for, é porque esse é o único jeito de sobreviver. E, juntos, Draco, podemos fazer mais do que sobreviver. Podemos dominar.
O silêncio que se seguiu foi carregado, mas havia algo diferente nele agora. Draco sabia que eu estava jogando um jogo arriscado, mas ele também sabia que, com alguém como eu ao seu lado, poderia expandir seu território e consolidar seu poder de uma forma que ele não conseguia sozinho. Eu era o que faltava no quebra-cabeça.
Finalmente, ele se levantou, circulando a mesa e parando ao meu lado. Sua presença era avassaladora, e eu podia sentir o calor da tensão entre nós crescendo.
— Vamos ver se seu plano é tão bom quanto você acredita. — Ele murmurou, sua voz baixa e carregada de intenção.
Eu me levantei também, encarando-o de frente, sem recuar um centímetro.
— Veremos, Draco. Veremos.