Pensamento Khadija.
Nova York City
Hospital 🏥
A noite. 20:30 PM.
Término o plantão, indo embora.
Passo pela porteira. Aceno pro porteiro, até dou boa noite, mas o senhor de meia idade nem responde de volta.
Vou caminhando até a estação de metrô, para voltar para casa. Conforme ando pelas ruas escuras, começo a olhar para trás uma vez e outra, sentindo um pressentimento r**m.
Aumento os meus passos, ao perceber que estou sendo seguida. Não é só uma pessoa, mas três jovens adolescentes eles começam vim atrás de mim, e começo a correr quando ouço "olha ali a terrorista".
Eles pegam pedaços de madeiras, e um dos garotos toma a minha frente.
Sou empurrada contra a parede.
— Me soltem!— num olhar de desespero, imploro.— O que vão fazer comigo?— a minha voz de medo se alarma.— Por favor, por favor, não me machuquem!
Daí um dos desconhecidos puxa o meu hijab da cabeça a força, e o outro começa deferir nas minhas pernas um objeto de madeira, havendo tanta raiva nos olhos do americano.
Eles começam a me agredir brutalmente, por conta da minha cultura. E eu só não sou violentada no lugar, porque eu consigo arrumar forças para correr e na hora vai passando o carro da viatura.
Eu até grito por socorro, mas o carro da polícia segue adiante, e a esperança que tenho de não sofrer um abuso é fugir.
Vou correndo às pressas, de volta pro hospital.
Quando me aproximo do local, meus passos começam a cambalear, e o meu corpo vai perdendo forças.
A abaya que uso está rasgada. E o pior, o que fizeram comigo é uma coisa que uma mulher muçulmana se envergonha, eles tiraram o meu véu.
Na minha religião, somos ensinadas a nos mostrar apenas pro marido. Eu me sinto tão invadida com meu cabelo amostra.
O porteiro que até então me ignora todas as vezes que o cumprimento, acaba tendo a compaixão de sair do seu lugar na entrada do hospital e vir me ajudar, pelo estado no qual eu me encontro.
O agradeço com um shukran ao porteiro, quando me ajuda.
Eu entro pelos corredores do hospital, machucada, conformo me locomovo de vagar, vejo um borrão. As lágrimas se formam em meus olhos, o terror me invade psicologicamente por ter sido covardemente atacada.
— Venha comigo.— uma das enfermeiras se solidariza em me atender.— Qual o seu nome? O que aconteceu?
— Me chamo Khadija, eu trabalho nesse hospital, sou resistente. — explico, e a mulher de cabelo preso ouve.— Fui agredida por três adolescentes, eles começaram a me chamar de terrorista e me bater. O fato de eu ser uma muçulmana, traz ódio nessas pessoas.
Conto, aos soluços.
A enfermeira transmite um olhar solidário, um olhar de pena.
— Doutora, quem é o médico responsável por você?
— O médico?— sussurro, e meus olhos se erguem desesperados.— Não chama o dr. Richard — a imploro.— Não quero incomodá-lo.
— Tá falando de mim, muçulmana?— ele aparece, de repente.– Você não incomoda.
Escuto o tom da voz arrogante, que me causa arrepios, toda vez que escuto.
Me encolho inteira, com olhar abaixado pro chão, me sinto tão constrangida que me veja nesse estado deplorável.
— Deixa ela comigo, Mary.— ele diz, e a enfermeira se afasta de mim.— Vou cuidar da minha residente.
— Como quiser, doutor.
A mulher se vai, e fico no corredor parada, cabisbaixa. Minha respiração está ofegante, o pavor está no fundo das minhas íris.
– O que aconteceu com você?— assim que meu chefe estende a mão para me checar, me afastou, dando passos para trás.— Foi tão grave assim, muçulmana, para te deixar traumatizada?
Seus olhos grandes me analisam, estou com meus ombros sendo exibidos, pela minha vestimenta está rasgada.
Meu cabelo está bagunçado.
Levanto o olhar de choro, encarando-o.
Daí, abaixo novamente a cabeça em silêncio.
O médico que só sabe menosprezar os outros, faz uma coisa, que me surpreende.
— Se cobre.— ele retira o jaleco que usa.
E logo, o próprio circula o jaleco branco em volta do meu corpo descoberto.

Pela primeira vez, consigo vê um pouco de humanidade no rosto desse médico.
— Onde fica a sua casa?— dr. Richard pergunta, e meus olhos reagem.— Vou te dar uma carona.