CAPÍTULO II

1645 Words
Chegamos na vila. E já ouvimos risadas dos espíritos do Perê. — Hihihihihi! Hihihihi! — Hihihihih! Ela disse que eles estavam fazendo brincadeiras estranhas. Hhihi! — Eles sussurram — Tipo a dos adultos? Hhihi! — Nossa, que estranho. Hihihi! — Isso! Hihihihihi! — E aí ela os jogou na água!! — HIHIHIHIHIHIHI!!!! — HIHIHIHIHIHIHI!!!! — HIHIHIHIHIHIHI!!!! Alik ouvindo isso fica mais bravo — Vão se f***r trapaceiros — E sai andando ainda mais rápido, parecendo que se esqueceu de mim. — Ei Alik, espera, não vamos conversar? Ele me ignora totalmente, e continua direto para casa. — PORQUE VOCÊ ESTÁ SENDO TÃO CANALHA p***a?!!! — Eu grito bem alto de raiva para ele ouvir. Quando ele olha para trás para tomar uma atitude, no mesmo momento eu ouço um grito me chamando. — IARA! — É a minha mãe — Sua garota selvagem, vem pra cá agora! — Ela vem na minha direção. Acho que meu grito chamou a atenção dela. Eu não deveria estar na floresta. Ela pega com força no meu braço — Vamos já para casa — E sai me arrastando — Eu já não falei. Que eu não quero você andando com esses caçadores. — Ai mãe. O que que tem? — Falo sentindo dor no braço. — E você tá me machucando. Ela me solta e me coloca na frente dela quase me jogando. — Sabe o que eles pensam dos monstros. Então o que acha que eles pensam da ideia de você querer ser a princesa dos monstros!!? — Ela diz sussurrando, e com um tão raivoso, que parecia que ainda estava gritando. — Vamos logo!!! Engulo seco a vontade de retrucar e reviro os olhos, só andando atrás dela sem dizer nada. Chegamos em casa – as paredes de pedra fria se erguiam iguais às das outras casas da vila, firmes e pesadas, como se tivessem brotado da montanha. O telhado de pinho rangia com o vento, soltando um cheiro amadeirado que sempre fica preso nas roupas. Empurro a porta – feita da mesma madeira das árvores que rodeiam nossa vila, o pinheiro. Áspera e manchada pelas águas das chuvas – Passo por ela e entro. A casa parece respirar diferente quando minha mãe está irritada, como se as pedras guardassem o eco da raiva dela. Minha mãe continua com a briga, aumentando ainda mais o tom e ficando furiosa à medida que vai falando comigo. — Eu não creio que você foi pro mato como uma selvagem, e com aqueles SELVAGENS! Como quer se tornar princesa assim? Olha para você! Onde estão seus sapatos? Ou espera entrar no CASTELO DE OBSIDIAN!, com esse pedaço de trapo no pé? — Mãe são sandálias. É mais confortável para andar na floresta. — Digo acuada, com medo dela gritar comigo. — Ah sim...me desculpe por não saber — Ela chega bem perto de mim olhando no meu olho — A FUTURA PRINCESA DE TODA MITTER-SKOTOUS É UMA MULAMBA SELVAGEM. OOH.. CIDADÃOS NÃO FIQUEM ENOJADOS NEM ASSUSTADOS, É O JEITO DELA.. — Então sussurra — ..Ser.. uma.. porca.. humana.. do.. MATO! — Ela arregala os olhos com tanta fúria que parece que vão saltar ou explodir. — Desculpa mamãe. — Abaixo a cabeça em medo e submissão. — Então vá se trocar, imediatamente. — Ela se vira em um movimento seco, num gesto que deixa claro que, quando olhar de novo, espera que eu não esteja mais ali. Vou para o meu quarto encolhida, com o choro preso na garganta e os olhos lacrimejando. Meu corpo treme, e tudo que eu queria era parar ali mesmo e desabar. Passo pela cortina — de linho verde e grosso — que separa meu quarto do resto da casa, funcionando como uma porta. Me jogo direto na cama — feita de palha seca coberta por um forro de linho e sustentada por uma estrutura de pinho. — Enfio o rosto na almofada — recheada com penas de galinha e lã velha — e solto todo o choro que estava entalado. Eu só queria gritar. Meus pensamentos começam a se misturar e fico totalmente magoada e triste pelo Alik, lembrando que ele me tratou tão m*l. Não entendo porque ele é assim comigo, eu gosto tanto dele. Homens são horríveis, vou chorar o dia inteiro. — Toc, toc...posso entrar? — Meu pai passa pela cortina, e entra no meu quarto — Oi filha. Sua mãe contou que estava na floresta. — Pai...o quarto não tem porta. Não precisa “bater”. — Eu falo com o rosto no travesseiro, não querendo levantar e conversar. — Sabe que não pode ficar andando com caçadores, eles... — Ele se senta na cama. Interrompo. — Eu sei, eu sei, a mamãe acabou de quase me m***r, não precisa fazer isso também. — Falo cansada. — Filha...sabe que ela só quer te ajudar, do jeito dela, mas sempre querendo o seu bem. — Ele faz uma leve virada de olho como se até ele não gostasse desse jeito explosivo dela. Tiro o rosto do travesseiro. — É, mas às vezes não parece, sabia. Principalmente quando ela começa a me chamar de selvagem. — Ela podia só não ser uma ditadora e me falar o que ela quer de mim. Eu estou cansada disso — Coloco o rosto de volta no travesseiro e volto a chorar. — Ei, filha… — ele diz baixinho. A mão dele é posta em minhas costas, firme, enquanto a outra passa devagar pelo meu cabelo. — Acho que você não tá triste só pela sua mãe… Ele se inclina um pouco, tentando encontrar meu olhar. — Quer me contar o que foi? A mão dele continua ali, fazendo carinho, como se estivesse tentando me acalmar sem pressa. — Se alguém fez alguma coisa com você… — Ele respira fundo — Você pode me contar. Eu tô aqui. Ele aperta de leve meu ombro, para mostrar que está ali. — Eu não vou deixar ninguém te machucar. — Não, tá tudo bem pai. — Dou um leve sorriso que ele não pode ver, porque gosto quando ele fica meio protetor. — Então, o que houve? Me levanto devagar e me aproximo dele. Ele me puxa para um abraço. Por um instante, tudo fica quieto. Me sinto acolhida e segura. Fecho meus olhos e deixo meu corpo ceder nesse abraço. — Eu não entendo… — minha voz sai abafada — por que homens são tão canalhas?. Podiam ser todos como você. Ele solta um riso baixo, sem humor. — Como sabe que não sou um canalha? — Você é? — Olho para ele, com olhos inchados de choro e brilhantes de lágrimas. Ele hesita por um segundo. — Eu sou seu pai, jamais seria canalha… com você. Não parece uma resposta certa. — Mas os outros… — Ele continua, desviando o olhar — que gostam de mulheres, gostam de coisas simples… — Como? — Gostam de mulheres… doces… ah. Querem… — Objetos de prazer? — Donzelas! Queremos… ah. Eles gostam de salvar, se sentirem necessários. — Já devia imaginar. — Reviro os olhos — Ele só quer que eu seja uma donzelinha fraca e i*****l. Só porque quero ser princesa?. Eu não preciso que um homem e nem ninguém me salve. Fico com raiva só de imaginar que o Alik me vê como uma garotinha frágil. — Não há problema em precisar de ajuda filha, e nem de um herói. Ele desencosta, mas sem tirar seu braço em volta de mim. Me olha nos olhos. Suspira, passando a mão no rosto. — Alguém que lute por você. — Eu mesma posso lutar por mim. — Cerro os olhos e o encaro. — Você pode ser forte e corajosa, mas, você quer ser princesa, não uma lutadora, muito menos uma cavaleira. Não consegue nem correr na floresta sem se sujar que dirá erguer uma espada. Ele finalmente fica sério, e com um olhar caído de preocupação. — Precisa ser uma donzela, filha, para que alguém queria te proteger lá fora. Ou aqueles monstros vão matá-la! Eu o empurro para o lado, levanto da cama e o olho brava sem acreditar que ele pensa do mesmo jeito que minha mãe. — Pensei que quisesse me apoiar! Que acreditasse em mim! — Filh.... — NÃO! Não importa o que você ache, eu não vou ser uma donzela indefesa. Se tiver que empunhar uma espada, eu vou empunhar. Se eu tiver que lutar, EU…VOU...LUTAR! — Eu só... — Sai do meu quarto!! — Eu aponto o dedo para a cortina e viro o rosto de lado para ele. — Está bem filha. — Ele se levanta de cabeça baixa, de um jeito calmo e magoado. E sai pela cortina sem olhar para trás. Eu não acredito nisso. Como ele pode pensar assim? Será que todos realmente pensam assim? Pensam isso do meu sonho? Eu só quero dormir para não precisar chorar. Volto para cama e me deito novamente. Encosto a cabeça de lado no travesseiro e puxo minha coberta — de linho grosso, pesada, áspera, mas capaz de segurar até o vento forte da madrugada. A textura pinica minha pele, mas é quente, é minha. Fecho meus olhos. Minha cabeça está tão pesada, tão cheia, que parece afundar dentro do travesseiro. O mundo vai ficando distante... e a dor no peito se mistura com um cansaço profundo. Como se eu estivesse sendo puxada para dentro de um mar cheio de pesadelos no fundo, e me afundando. Vou atrás de um feixe de luz como uma bolha de ar que eu preciso agarrar, um suspiro que eu preciso dar. Vejo uma mão surgindo no escuro. Uma mão feita de pequenas estrelas, com unhas afiadas brilhando como lâminas de luz. Ela se estende em minha direção. Eu tento alcançá-la. Tento segurá-la. Mas não sei se ela quer me salvar... ...ou me levar.
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