Noah era um alfa jovem que fazia parte do grupo de caça, sua mãe era uma das betas que cuidava da cabana central e seu pai era um dos alfas que faziam a segurança da aldeia, não era um alfa privilegiado e adorava ficar flertando com algumas ômegas pela aldeia.
Noah adorava tirar a paciência de Aria e ela vivia bufando o quanto odiava o alfa, na minha opinião? Era pura birra de crianças.
— O que o menino Noah fez agora? — Minha mãe perguntou enquanto colocava um pedaço de bolo em um prato para minha irmã.
— Além de ser um chato? Ficou afastando todo alfa que chegava perto de mim. — Ela bufa.
— Sabe o que isso me parece? — Talia a olha. — Me parece amor.
— Eca! — Aria quase cospe o bolo. — Se a Deusa ouvir minhas orações, ela não vai me juntar com um alfa mulherengo e que nem status tem.
— Está mais preocupada com status? — Perguntei.
— Bom, me juntar a um alfa com um cargo importante na aldeia, vai fazer com que as pessoas esqueçam da sua condição. — Ela fala dando de ombros.
— O que? — Minha mãe questiona.
— É mãe! As pessoas vão parar de pensar que somos amaldiçoados e se eu me juntar com um alfa qualquer, é capaz da nossa reputação piorar!
— Aria, a Deusa junta os casais por amor e não interesses. — Digo, já sentindo o bolo se formar em minha garganta. — É por isso que anda fugindo de suas obrigações?
— Eu não nasci para ficar limpando a cabana, esfregando peles ou enfiando minhas mãos na terra ou no galinheiro. — Ela diz e seu tom se torna um pouco arrogante. — Não quero ser somente a irmã da defeituosa da alcateia.
— CHEGA! — Minha mãe grita calando Aria. — Vá para seu quarto Aria, está de castigo!
— De castigo por falar a verdade?
— Por agir como uma egoísta e mimada! Vai ficar de castigo até o festival! — Minha mãe bate com a mão na mesa.
Aria levanta da mesa com a feição brava, andou batendo os pés no chão até o quarto e bateu a porta de madeira que jurei que ia quebrar aos pedaços, por ser uma cabana simples e um pouco velha, algumas coisas estavam quase quebrando.
Eu já estava acostumada com palavras dirigidas a mim desta forma, mas nunca imaginei que um dia as ouviria vindo da minha própria irmã e ao olhar para o rosto de minha mãe, pude ver a decepção em seus olhos.
— Mamãe, está tudo bem. — Digo tentando amenizar o clima horrível que se instalou no ambiente.
— Não está nada bem, Lia. — Ela diz com a voz chorosa e Talia levanta para pegar um copo de água. — Sua irmã não deveria falar desta forma.
— Aqui dona Agatha, tome um pouco de água. — Talia a entrega o copo recebendo um leve sorriso em agradecimento. — Sabem que eu não gosto de fazer certos comentários ou fofocar coisas fúteis da aldeia, mas Aria anda recebendo fama de arrogante.
— Como assim? — Pergunto.
— Ela faz comentários crueis dos betas que trabalham nas cabanas centrais e creio que seja por isso que Noah está a irritando mais que o normal. — Talia explica. — Além de estar flertando com os alfas de cargo importante.
— Pela lua, ela nem deveria ficar tão perto dos alfas dias antes da apresentação. — Minha mãe suspira. — E fazendo comentários maldosos? Que a Deusa me ajude.
— Espero que a Deusa atenda os pedidos dela. — Digo fazendo Talia e minha mãe me olharem confusas. — Por mais c***l e egoísta que ela tenha se tornado, é melhor ter o que quer, pois ao contrário ela pode ser envergonhada ao ser devolvida.
— Verdade, se ela não souber cuidar da própria cabana o alfa pode a devolver e em último caso o líder pode a rebaixar para trabalhar junto das betas. — Talia diz.
— E creio que isso seja mais vergonhoso que ser minha irmã. — Digo me levantando.
— Lia… — Minha mãe tenta falar algo.
— Está tudo bem, mãe. — Dou um sorriso para convencê— la. — Estou acostumada com certas palavras e ela ainda é uma filhote que não sabe o que diz.
— Assim que seu pai chegar iremos conversar sobre isso. — Minha mãe diz.
— Sabe que não vai mudar nada, afinal o papai está sonhando que uma das filhas se conecte a um alfa. — Digo me levantando da mesa. — E sabemos que quem a mimou foi ele, não vai ser surpresa se ele somente passar a mão pela cabeça dela.
— Espero que essa semana passe rápido então. — Minha mãe suspira passando as mãos no rosto.
Não demora muito para Talia se despedir de minha mãe e decido a acompanhar até a frente da minha cabana, minha amiga me dá um abraço que me passa uma sensação de conforto. As palavras de Aria machucaram, como lâminas no meu corpo, jamais imaginei que minha própria irmã teria esses pensamentos e era doloroso pensar que ela não se tornava diferente de várias pessoas da aldeia.
Mas ver a dor nos olhos da minha mãe foi o mais doloroso para mim e por mais que eu soubesse o quanto meu pai me amasse, ele nunca teria pulso firme com Aria. Aposto que o máximo que ele iria fazer é conversar com a minha irmã e dizer que está decepcionado, mas não a tiraria do castigo, afinal sempre que minha mãe nos dava limites, ele não tirava .
Decido deixar meus pensamentos de lado e entro na cabana para pegar meu arco e flecha, precisava organizar meus pensamentos e ficar um pouco sozinha. Então com tudo em mãos, entro na floresta, caminhando calmamente e sem pressa alguma. Gostava de passar um tempo na floresta, tudo era calmo e ter o contato com a natureza me fazia sentir ainda mais minha loba dentro de mim. Decido, então, caminhar até a cachoeira e caso não escutasse ninguém por perto poderia até dar um mergulho.
Durante o caminho vou aproveitando para pegar algumas frutas, as colocando na bolsa de pano que carregava em meu ombro e não demora muito para chegar até o lago, caminho até a beira e então me sento na pedra que havia ali, mergulhando apenas meus pés na água.