Capítulo Sete: Cerejas.

1245 Words
Ao sair de nossa casa, vejo todas as cabanas iluminadas e enfeitadas deixando a aldeia bonita, todas as famílias já estavam indo para o centro da aldeia, onde ficava o altar para a Deusa e onde acontecia todos os rituais da alcateia. Aria caminha entre meu pai e minha mãe, enquanto eu estava um pouco mais atrás e mesmo assim, conseguia sentir o olhar de algumas pessoas em mim. Mas os ignorei, afinal como meu pai já havia falado, eu estava ali pela Deusa e não deveria dar importância para os olhares, brincadeiras de m*l gosto ou cochichos. Ao chegar no centro da aldeia, o grande altar com uma estátua de um lobo branco feito de pedra, representando a Deusa, estava com muitas oferendas em volta. Em um canto mais afastado, era possível ver alfas e betas em uma grande fogueira, assando carnes das caças para o grande banquete, do lado contrário era possível ver algumas mesas espalhadas para as famílias poderem se sentar, à mesa maior era da família do Alfa líder e havia uma enorme mesa onde seria colocado as comidas. Todos estavam agitados e ansiosos para o início do ritual, até mesmo o bruxo da aldeia estava ali a espera dos líderes da alcatéia para poder iniciar os rituais. Argoth era um bruxo que se juntou à alcatéia quando era pequeno e foi cuidado por um casal de betas, com o tempo foi aprendendo a usar seus poderes e a ajudar na aldeia, fazendo dele uma das pessoas importantes da alcateia e foi ele que viu em cartas sobre a minha situação. Argoth foi muito querido em me explicar o que estava acontecendo e ajudou a me acalmar, assim como os líderes, ele foi muito cuidadoso comigo e é uma das pessoas que não faz comentários maldosos ao meu respeito. Era engraçado que algumas pessoas não davam importância alguma, já outras faziam questão de falar sobre minha situação a cada segundo. Voltando para o festival, caminho até o altar da Deusa para deixar minha oferenda ali e volto pra o lado de minha mãe, já que eu não iria participar do ritual, era melhor ficar perto dos meus pais e aproveitar o que eu conseguir da festa. — As suas oferendas sempre são as mais bonitas. — Ouço a voz de Talia e a vejo parando ao meu lado. — Não é pra tanto! — Digo. — Você também capricha nas suas. — Claro que eu capricho, mas sempre é a sua oferenda que o ômega líder comenta. — Ela diz e faz um biquinho para fingir que estava triste. — O ômega líder, o quê? — Me viro para ela um pouco confusa. — Ah! Você não sabia disso? Todo ano ele fala o quanto suas oferendas são lindas e caprichosas. — Talia me explica. — Os ômegas morrem de inveja. — Ele só é educado e gentil. — Falo tentando não me sentir nervosa sobre isso. — Minha filha, se fosse por isso, ele iria elogiar outros ômegas também. — Minha mãe diz, já que estava prestando atenção na conversa. — Ele tem afeição por você, foi muito atencioso na noite da sua apresentação e sempre procura saber se você está bem. — Como assim, mãe? — Bom, sempre que ele me vê pela aldeia ou quando estou na feira, ele me pergunta se você está bem. — Ela diz dando os ombros. — Como você está sempre perto da nossa cabana ou na floresta, ele não vê muito você. — Ele deve ter dó. — Aria diz, com os braços cruzados. — Ele deve pensar que Lia é uma coitadinha, como ele é o ômega líder, ele precisa agir como se isso importasse para ele. — Aria! Tenha modos! — Minha mãe diz. — E não fale assim do nosso líder! — Não posso mais falar a verdade? — Ela se vira e me encara. — Nunca se perguntou que essas pessoas que ainda falam com você, só se aproximam por pena? — Aria, você fala tanto sobre sua irmã ser sozinha, mas onde estão suas amigas? — Talia pergunta. — Quem quer ser amiga de alguém que tem uma irmã defeituosa? — Aria diz ácida. — Chega, Aria! — Meu pai diz. — Quero você em silêncio! Meu pai se põe entre ela e minha mãe, deixando Aria ainda mais afastada de mim, respiro fundo para não demonstrar o quanto fiquei afetada com o que acabei de escutar. — Lia. — Talia segura meu braço. — Não dê importância para o que sua irmã diz. — Estou bem, Talia. — Digo suspirando. — Não precisa se preocupar. — Claro que me preocupo, você é minha melhor amiga. — Ela faz com que eu olhe nos olhos. — As pessoas que se preocupam com você, gostam de ti por você ser gentil e ser uma boa pessoa. — Ela segura minha mão. — Sinto muito que sua própria irmã pense coisas tão crueis. — Obrigada por ser uma boa amiga para mim. — Digo a ela. — Mas acho que está na hora de você ficar perto dos líderes. — Ah! Sim! — Ela olha para o local onde os líderes estavam se arrumando. — Sinto que Dako está quase chegando. — Bom, então é melhor ir logo para o seu lugar! — Digo e olho para a Lua que brilhava no alto, estava quase chegando na posição necessária para o ritual. Talia então me abraça e vai até seu lugar designado, como Dako tinha uma posição importante na alcateia, ela deveria estar perto dos líderes, vejo que Stela estava com sua avó e logo ficou ao lado de Talia. Após todos se posicionarem em seus lugares, uma música começa a ser tocada, violinos, tambores e gaitas começaram a tocar, anunciando não só o início do ritual, mas também, a chegada de Kento, o futuro líder da alcateia. As ômegas que iriam ser apresentadas se posicionam em frente a estátua da Deusa, algumas tentam ficar na ponta dos pés para poder ver Kento, até que ele é visto, arrancando suspiros das jovens ômegas e consigo ver minha irmã ajeitar sua roupa, tentando ganhar a atenção do alfa. Meus pensamentos nublam quando meus olhos encontram a imagem de Kento, ele estava diferente de quando o vi pela última vez, ele não era mais o pequeno alfa magrelo que pegava minhas bonecas e saía correndo pela aldeia, ele e Dako adoravam esconder as minhas bonecas e a de Talia por todo lugar, porém eu era boa em achar todas. Mas anos se passaram e agora ele tinha se tornado um alfa adulto e muito bonito, ele abraça seus pais e então para ao lado do alfa líder, este que começa o ritual. Neste momento, percebo que minha respiração começa a ficar um pouco pesada, era como se eu não conseguisse respirar, sinto meu corpo começar a suar e minha garganta fechar. — Lia? Está bem? — Ouço minha mãe perguntar. Consigo ver Talia me encarando confusa, meu olhar se encontra com os do ômega líder e vejo ele sair de seu lugar para vir em minha direção. — Lia? Você está muito pálida! — O ômega líder diz. Antes que eu consiga falar algo, um rosnado é ouvido por todo o espaço, todos param e olham para onde o rosnado veio e então consigo ver Kento com os olhos vermelhos me encarando. — Cerejas — Ele diz. — Encontrei você, ômega.
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