Dois dias se passaram voando e como foi pedido pelo meu pai, não ajudei em nenhuma tarefa de casa e isso resultou em escutar os resmungos de Aria o tempo todo, não sei como minha mãe foi paciente durante esse curto tempo e conseguiu passar as tarefas sem brigar com Aria.
Hoje, finalmente, era o dia do festival e a aldeia se concentrava nos preparativos da grande festa, ainda mais que o futuro líder iria chegar hoje, os ômegas que iriam ser apresentados ficavam em suas cabanas preparando suas oferendas para a Deusa, bandeiras com frutas e cestas de belíssimas flores eram os mais comuns. Porém hoje também dava início a grande temporada, pois os casais que se formariam essa noite, não ficariam logo de cara e se casariam hoje, não mesmo, durante a semana os alfas deveriam fazer o seu cortejo e merecer o ômega que a Deusa estava lhe entregando, pois os ômegas deveriam ser tratados com cuidado e respeito, já que somos responsáveis pela fertilidade da alcateia.
Hoje era um dos dias que eu gostaria de ficar escondida não floresta, mas por ser ômega, era minha obrigação participar da preparação do festival e também, deveria ser cuidada neste dia, a partir de hoje até a semana acabar, ninguém da aldeia poderia falar algo desrespeitoso sobre mim. Era contra a lei fazer qualquer coisa que afetasse os ômegas, pois a Deusa poderia castigar toda a alcateia por isso e ninguém gostaria de arriscar isso. E também, os líderes eram contra qualquer ato desrespeitoso contra ômegas, lembro que na minha apresentação o próprio ômega líder me acolheu em um abraço quentinho, ele me falava que estava tudo bem e que eu não deveria dar atenção aos comentários, o alfa líder deixou claro que não queria ouvir nada do que falavam e não queria que me atacassem, mas infelizmente, as pessoas davam um jeito de ser c***l sem que o alda líder soubesse.
Eu era grata pelas poucas pessoas que não me julgavam por algo que não era do meu controle, eu não culpava a Deusa por ter me feito assim, se era algo que eu deveria passar, então tudo bem.
Estava na cozinha preparando minha oferenda para a Deusa, já que todo ômega deveria fazer, preparei uma cesta com frutas e algumas flores. Estava ficando muito bonito e então decidi colocar pequenas cerejas espelhadas, gostava de colocá-las nas minhas oferendas por ser o meu cheiro, mesmo que eu não consiga sentir mais.
— Lia, meu amor, não vai se arrumar para o festival? — Meu pai entra na cozinha, ele já está vestido com as vestes tradicionais escuras, a calça preta era justa em suas pernas e a camisa em um tom de cinza mais escuro, era com gola em corte V deixando um pouco deu peitoral aparecendo e os braços pintados com a tinta preta com os símbolos de alfas.
— Ah, não vou me arrumar tanto, já que só vou assistir. — Falei.
— Filha, você não precisa se arrumar para a apresentação, mas sim, para a Deusa. — Ele segura minha mão para que eu pare de mexer ainda mais na cesta. — Você sempre fez oferendas lindas.
— Obrigada, pai. — Dou um sorriso ao sentir seu carinho em minhas mãos.
— Sua mãe preparou um vestido para você. — Ele diz como se fosse um segredo. — Vá para o seu quarto se arrumar e dê a honra ao seu pai de levar as ômegas mais bonitas da alcateia para o festival.
Dou risada junto dele. — Certo, pai. — Balanço a cabeça concordando. — Vou me esforçar para ficar bem bonita.
—Ah! Não precisa se esforçar tanto, você puxou a beleza de sua mãe. — Ele faz um carinho em meu rosto. — Sabe filha, eu sei que deixei muito a desejar nesses dois anos como pai, sinto que de certa forma, fiquei distante. — Ele suspira. — Mas eu tenho muito orgulho de ter você como minha filha, não importa o que dizem por aí ou o que sua irmã diz, você sempre vai ter esse alfa velho aqui pra cuidar de você.
— Obrigada pai. — Dou um abraço nele. — Eu amo você.
— Eu amo você. — Diz dando um beijo em minha testa. — Agora vá se preparar para o festival.
Sentindo minha loba ronronando com o carinho que meu pai me deu agora, deixo minha cesta pronta na mesa e vou para meu quarto, em cima da cama havia um vestido branco com detalhes em dourado, era lindo. Meu olhar vai para a mesinha ao lado da cama e vejo as margaridas brancas ali. Percebo que minha mãe deixou minha banheira cheia com água quente, pego a barra de sabão com cheiro de camomila e então começo a me lavar, cuidando para não molhar meu cabelo já que havia lavado mais cedo.
Após terminar meu banho, me sequei bem e então passei um pouco de óleo de essência para minha pele ficar cheirosa, já que meu cheiro natural era quase inexistente. Antes de colocar o vestido, decidi então arrumar meu cabelo, deixando uma parte presa em tranças e o resto solto, com as margaridas entrelaçadas no cabelo.
Em meu rosto, decidi passar um pouco do pigmento dourado para desenhar uma linha fina nos olhos, perto dos cílios, destacando meus olhos e um pigmento avermelhado na boca. Por fim, coloco o vestido com cuidado para não bagunçar nada e ao me ver no pequeno espelho em meu quarto, fico feliz com o resultado.
Ouço batidas na porta e ao pedir que quem está batendo entre, vejo minha mãe me admirar com lágrimas nos olhos.
— Mamãe está chorando?
— Ah, minha filha, você está tão bonita. — Ela diz fungando.
— Seus olhos estão inchados, estava chorando antes? — Pergunto preocupada.
— Ela chorou enquanto arrumava meu cabelo. — Ouço a voz de Aria vindo do corredor.
— Ah mamãe, não chore! — Digo limpando suas lágrimas.
— Me emociono ao ver vocês arrumadas para o festival. — Ela diz parando de chorar.
— Arrf, vamos logo. — Aria diz revirando os olhos. — Finalmente meu castigo acabou.
— Ela quer tanto se livrar de nós. — Minha mãe diz baixinho quando Aria some pelo corredor.
— Não diga isso. — Falei enquanto segurava sua mão. — Vamos aproveitar o festival, sim? Pelo que ouvi, a festa esse ano não tem horário para acabar.
— Ah! Espero que seu pai não entre na garrafa de vinho.
— E eu espero que você não entre na garrafa de licor! — Meu pai grita da sala.
— Esqueço que alfas tem a audição apurada. — Ela revira os olhos.
Então nos preparamos para sair, ao respirar fundo sinto minha loba agitada, não sei definir o motivo, mas só esperava que a noite terminasse bem. Enfim, seja o que a Deusa quiser!