Capítulo 10
Henry narrando
Fala, mulherada. Me chamo Henry, o famoso Henry da Rocinha. Tenho 30 anos. Meu pai se chama Henrique, minha mãe se chama Rayssa. Minha mãe é linda. Eu estava morando no exterior até ontem; meu pai mandou me buscar às pressas, porque vai passar o comando pra mim. Ele era dono da Rocinha e da facção Comando.
Há um mês, meu pai descobriu que está com arteriosclerose nas duas pernas. Sobrou pra mim.
Eu tinha uma mina lá, linda, mas nunca me apaixonei por ela. Apesar de ela ser gente boa, me tratava com carinho, dizia que me amava… nunca acreditei nela. Fiquei sabendo que ela me traía com um cara da faculdade. Era muito patricinha pro meu gosto, ela não iria aguentar ser mulher de chefe. O bagulho é muito doido. Nunca peguei ela com ninguém, mas, se pego, ia ser sem massagem. Tem mais ou menos um mês que não transo com ela.
Não senti mais vontade de me relacionar com ela. Aí ficamos como amigos. Ela também não pedia pra t*****r, então era verdade mesmo: eu estava levando bolada nas costas.
Agora cá estou eu, esperando meu pai chegar da boca para podermos conversar. Minha mãe já está planejando uma festança pro dia da coroação do papai, aqui. Minha mãe gosta muito de fazer festa, e vai ser muito boa. Essa festa vai reunir vários aliados. Estou ansioso pra chegar o dia, será daqui a um mês.
Até então, meu pai vai me explicando tudo o que eu tenho que fazer na boca. Eu já aprendi atirar com todos os tipos de arma, as estratégias do morro. Tem um mapa todo da comunidade, os esconderijos das armas em lugares estratégicos, pra quando houver invasão sabermos pra onde ir e o que usar.
Não gosto muito de apego com mulheres. É um pente rala e acabou. Esse negócio de romantismo não é comigo. Fiquei dois anos com uma mina e ela não me deu valor. No final, soube que ela me traía. Aqui, no morro, ela já teria descido de ralo, mas onde eu morava não dava pra fazer nada, simplesmente tive que vir embora, por causa do problema de saúde do meu pai.
Não sei onde será a festa da facção, mas creio que não vai ser no morro. Vai ser em um dos sítios que o comando tem. Nunca fui em posse de nenhum deles, mas sei que as festas são muito bonitomas. Conheço todos por fotos. Meu pai, quando os casais vão entrando, ele bate fotos, e em muitas destas rfotos que estou vendo cada vez os caras estão com uma mulher diferente. Então esses daí não servem pro meu hall de amizade.
Eu acho que o homem, quando casa, tem que ser fiel à sua esposa, não fazer bagunça igual tenho visto na facção. Isso aí não pode existir. Meu pai até aceita, não sei se ele faz o mesmo com a minha mãe, mas não é legal as mulheres serem humilhadas por mulheres que não têm boa conduta. Eles as chamam de marmitas. Eu acho isso humilhante, mas, se elas aceitam, tudo bem. Eu só não vou aceitar se eu descobrir que meu pai faz a mesma coisa com a minha mãe.
Soube que tem chefe de morro que humilha suas esposas por causa de mulheres que não valem a pena. Se meu pai ainda não deu um jeito nisso, é porque talvez ele tenha a mesma conduta. Em algumas festas 9s donos de morro levam mulheres que não são as deles, tudo bem, mas agora eu estou aqui, e minha mãe jamais será humilhada.
Tô vendo aqui que o chefe da Tijuca o tál de gato também, faz a mesma coisa com a esposa. Não conheço ninguém, não sabia que o Gato era casado, mas tudo bem. Dizem que ele é um cara violento. A esposa dele passa o maos pedaço com ele, não tem fotos dela aqui. Ele nunca vai às festas do comando com uma mulher certa, sempre tá diversificando.
Vou lá conversar com meu pai, porque quero saber direitinho. Ele me deu várias coisas pra eu estudar, principalmente os vídeos do morro, mas eu quero saber da conduta de cada um. Porque eu quero aliados fiéis. Se eles não são fiéis às esposas deles, como vão ser fiéis ao comando? Então eu tenho que saber quem é quem.
Chegando na boca, encontrei uma mina saindo da sala do sub do morro. A mina era gata demais. Dei duas batidas na sala do meu pai, ele mandou entrar.
Já cheguei sentando no sofá em frente ao meu pai.
— p***a, pai, vi uma mina gata saindo da sala do Mandala. Caraca, o coroa ainda manda bem assim?
— Filho, sei não, mas vejo as marmitas no maior desespero por causa dele. Elas saem na mão mesmo. Outro dia tive que sair de casa pra apartar briga de marmitas.
— Pai, o senhor não faz a mesma coisa com a minha mãe, não, né?
— Que é isso, filho? Eu não sou dado a esse tipo de coisa, não. Apesar de sua mãe ter muito ciúme, eu não faço essas coisas. Sou um cara de família, prefiro minha família do que viver em confusão pelo morro. Seu tio Mandala nunca quis casar por causa disso, porque ele é pipa avoada. Se ele se casar, vai viver pra uma mulher só. O cara já tá com quarenta e oito anos e continua na mesma bagunça, na mesma p*****a.
— Mas entre eu e sua mãe sempre foi amor. Eu nunca traí. Já armaram pra cima de mim, até foto fake fizeram minha com uma mina. Sua mãe ficou dois meses longe de mim, saiu do morro, ficou escondida em algum lugar. Descobri onde era e fui buscar ela e você, porque um amigo meu me contou que a esposa dele estava conversando com ela no mensagem do celular. Aí ele pegou a localização e me mandou, e eu fui lá buscar ela. Provei que era armação. A mina que fez isso foi de ralo, porque brincou com meu casamento. Foi uma mina que eu namorei antes da sua mãe, ela era marmita. Achou que eu ia deixar sua mãe pra ficar com ela. Você já tinha cinco aninhos, e ela levou você embora. Você não lembra disso, meu filho?
— Lembro não, pai. Mas, se o senhor tá dizendo, eu acredito.
— Nunca faça um negócio desses com a mulher que você escolher como esposa.
Mas tem que ter certeza se é isso mesmo que você quer, porque, de repente, você se casa com uma mulher que não é gente boa, acaba se arrependendo, e aí começam as traições e as confusões na vida de vocês. Tem que pensar bem antes de fazer. Porque depois que você tiver um filho, a criança vai sofrer, então tem que ver tudo isso antes de se casar: se ela é a pessoa certa pra você, se ela vai suprir as suas necessidades de marido, se vai ser uma boa mãe, uma boa dona de casa. Tudo tem que ser visto antes.
Porque dono de morro não pode vacilar. Ele é o exemplo. Se ele vacilar, o exemplo não vai ser bom, aí o morro vira bagunça. Se você estiver casado e começar a botar marmita na boca, sair com elas no baile, isso repercute no seu mandato. Aí começam a procurar defeito pra te tirarem da cadeira principal.
Porque eu sou o chefe direto, minha hierarquia é maior do que a de todos os chefes. Tem seis cadeiras, e a primeira cadeira sempre foi a sua. Então você tem que ficar ligado pra ninguém tomar o seu lugar por má conduta. Você tem que ser um cara organizado, fazer tudo pelo certo pra ganhar a confiança dos seus vapores.
Outra coisa: tem que fazer o pagamento certo. Não deixe faltar nenhum dia pra pagar a molecada, porque senão qualquer dinheiro que oferecerem pra atrair você, eles vão aceitar. Então anda pelo certo, paga direitinho. Não deixa entrar homem que abusa de mulher, não deixa as marmitas interferirem na sua vida. Sei que você é homem, e enquanto você não arrumar uma mulher certa, vai ter sempre alguém pra se aliviar, mas escolha também a marmita certa.
É isso que eu tenho pra te falar, meu filho. Porque atirador bom você é, bom lutador, bom estrategista, bom economista
— fez Administração na faculdade. Então você tá com tudo em cima. Agora é só pôr em prática.