CONHECENDO ANA PAULA

1579 Words
Capítulo 7 Ana Paula narrando Vou me apresentar para vocês e contar um pouco da minha história até hoje. Tenho 21 anos, meu nome é Ana Paula Joabe, sou filha de Dona Letícia. Não conheço meu pai, sempre moramos eu e minha mãe. Soube que ela tem um filho, mas não foi ela que me disse. Uma vez, uma vizinha, Dona Leda, com raiva dela por ela ter me batido à toa, me contou que, se meu irmão estivesse aqui, minha mãe não faria isso comigo, porque ele é bem mais velho e hoje é dono do morro. Sempre soube disso, mas me calei. Aos 15 anos, parei de estudar para ajudar minha mãe a vender fruta na feira. Nós saíamos quatro horas da manhã, íamos para o CEASA pegar fruta para vender. Minha mãe tem uma Fiorino velha, mas ainda anda, e nós ali sempre fazendo o nosso corre. Até que um dia eu conheci o RB. Ele sempre foi o sub do morro e amigo do Gato. Eles me apresentaram o gerente JP, preto, bonito, dava gosto de ver, dentes branquinhos, sorriso largo, folgado, parecia gente boa. Um dia, no baile, comecei a namorar com ele, e ele sempre me levava em casa quando o baile acabava. Ele nunca deixou eu ir para casa sozinha, como não deixa até hoje. Minha mãe me viu chegando do baile com ele. E ela, ao invés de brigar comigo, que é o certo de toda mãe, simplesmente sorriu e falou: — É desse jeito que eu te quero. Você tem que saber escolher o que você quer. Ele não é o patente mais alta, mas pelo menos já pode sustentar você e sustentar a mim. Aquilo me deu um desconforto. Logo a minha mãe falar daquele jeito. Começamos a nos envolver intimamente. Ele foi o meu primeiro, e foi maravilhoso. Foi assim que me apaixonei por ele, uma paixão tão grande que eu fiquei cega. Sempre saíamos, e eu dormia na casa dele. Quando eu fiz 17 anos, ele foi na minha casa pedir minha mãe para namorar comigo. Antes mesmo de ele perguntar, minha mãe já falou que deixava. Só faltou juntar minhas coisas e me levar pra casa dele. Ele fez uma amizade muito grande com a minha mãe. Ela não é velha, minha mãe é nova. Nós duas juntas parecemos duas irmãs: temos o mesmo corpo, somos loiras e amigas. Ou éramos. Não sei por quê, mas quando eu resolvo fugir dele, ela liga pra ele e avisa, e ele vem atrás de mim, me pega e me bate. Mas tudo bem, já tinha tempo que eu parei de tentar fugir. Então, nós estávamos nos dando muito bem, até que apareceram essas quatro marmitas, carne nova no morro, e percebi que ele mudou. Começou a faltar aos nossos encontros, marcava e não vinha, e às vezes eu ficava esperando. Até que um dia fui na casa dele. A casa estava no escuro, então ele não estava em casa. Eu sabia onde aquelas mulheres moravam. Fui pelo cantinho, pra ninguém me ver passar vergonha, que é pior. Quando cheguei na frente da casa de uma delas, a moto dele estava lá. Eu sentei no chão e fiquei esperando pra ver a hora que ele ia sair de lá. Ele saiu às quatro e meia da manhã. Ela ainda trouxe ele na porta, enrolada numa toalha. Quando ela entrou e ele montou na moto, eu levantei. Ele me viu e perguntou: — O que você tá fazendo aí? — Eu que te pergunto o que você tá fazendo aí na casa de uma prostituta. Você não tem vergonha? Marcou comigo, eu fiquei lá esperando igual uma boba, e você não apareceu. Agora vejo você saindo da casa dessa mulher. Tudo bem, fica com ela. Eu vou pra minha casa. Não precisa mais me procurar. Desci o morro rápido. Ele não veio atrás de mim. Ficou mais ou menos quinze dias sem me procurar. Pensei: estou livre. Sofri muito, mas não liguei, porque eu queria me ver livre dele. Já estava com ele há dois anos, e de vez em quando eu ficava sabendo que ele estava com outra mulher. Nunca tinha visto, foi a primeira vez que vi. Certo domingo, fui na lanchonete do Seu Manel, comprei um açaí e fiquei esperando o troco. Quando virei, a moto dele parou com a mulher na garupa. Eu abaixei a cabeça, tamanho foi o susto que levei. Não sabia que ele ainda mexia tanto comigo. Saí pelo cantinho. Ele me viu, me olhou com frieza, como se nunca tivesse me conhecido. A mulher ficou toda empinada. Outro dia, voltava da feira com a minha mãe. Ela subiu direto e mandou que eu pegasse uma quentinha. Fui pegar as quentinhas, e quem estava lá também comprando uma quentinha? Ela, a mulher que estava de caso com meu ex-namorado. Ela debochou da minha cara, riu de mim e ainda falou: — Quem manda você ser magrela? Tem que ser assim, ó, gostosa igual a mim. Por isso que ele não te quis, te trocou por mim. Aquilo me deu uma raiva. Peguei a comida quente que estava na minha mão, joguei tudo em cima dela e bati muito nela. Senti quando alguma coisa me pegou pelo cabelo e me jogou tão longe que bati com a cabeça e caí no chão. Tentei levantar, mas a cabeça estava rodando. Vi quando ele pegou ela no colo, botou na frente da moto e subiu o morro. Eu fiquei caída no chão. Cheguei em casa e falei com a minha mãe o porquê de ele não aparecer mais na nossa casa. Minha mãe, ao invés de ficar do meu lado, me vendo toda machucada, veio na minha cara e me deu um tapa. O dente que já estava mole caiu, e ela disse: — Você não tem condição de segurar nem um homem. Você é muito burra. Subi para o meu quarto. Minha cabeça estava sangrando. Tomei um banho, fiz um curativo, troquei de roupa, botei um vestido preto, peguei uma mochila, enchi de roupa, joguei nas costas e peguei o dinheiro que eu guardo no armário. Desci. Quando eu desci, minha mãe perguntou: — Você vai aonde? — Estou indo embora do morro. Vou te mandar meu endereço depois. Agora eu não sei pra onde estou indo, vou ver se consigo um lugar pra ficar. Mas eu sabia pra onde estava indo. Eu ia procurar meu irmão. Ele se chama Digão. Minha mãe pensa que eu não sei, mas eu sei. Eu ia pra lá, e lá é um morro aliado, então ele não iria subir. Só que, quando minha mãe me viu fechar o portão, ligou pra ele e disse: minha filha estava indo embora por sua causa. Ele perguntou onde eu estava. Minha mãe contou que eu tinha acabado de sair. Quando eu já estava dentro do Uber, senti aquele braço forte me puxando e mandou o Uber correr. Ele me trouxe de volta, me levou para um canto na subida do morro, um beco sem saída, e ali me bateu muito. Disse pra mim: — Se você pensar ou sonhar em sair de perto de mim, eu vou destruir a sua cara. Assim, estou com ele até hoje, debaixo de ameaça. Não o amo mais, porque sou muito humilhada por essas mulheres nojentas. Agora estou com pena das minhas amigas. Eu apresentei elas a esses homens que não valem nada, e agora estamos no mesmo barco. Vou conversar com elas longe da minha mãe. Elas vão ter que me ajudar. Saí de casa para conversar com minhas amigas. Amanda ainda estava no hospital. Conversei com ela e falei: — Eles estão em Cabo Frio. Elas perguntaram quem falou isso pra mim. Eu disse: — Eu sei porque peguei a localização dele. Botei um rastreador no celular do JP. Ele não sabe. Toda conversa dele eu escuto, porque ouço através do clone que fiz do celular dele. Sei que ele está em Cabo Frio. Então falei: — Vamos fazer o seguinte: vamos arrumar nossas coisas e fugir. Ou vamos pegar o dinheiro que eles nos dão, que eu falei pra vocês guardarem, não gastar. Amanda falou que tinha vinte e dois mil. Daiane falou que estava com vinte e dois também. Só eu estava com trinta mil. Juntando tudo, dava pra gente comprar um barraco na comunidade onde mora meu irmão. Ficamos na nossa. Pegamos o nosso dinheiro e descemos o morro de madrugada. Daiane tirou Amanda do hospital, mesmo ela sem poder andar muito, e descemos pela contenção. Quando já estávamos depois da saída do morro, pra não termos que pegar Uber ali na frente, escutamos o ronco de motos. Olhamos pra trás e lá estavam RB, JP e o Gato, cada um com uma mulher na garupa. Pararam na nossa frente e mandaram as mulheres descerem. O olhar deles pra nós era um olhar matador, e ele disse: — Sobe na moto agora e vamos pra casa. Daiane chorou na hora. Eu já não tenho lágrimas. Minha amiga Amanda subiu sem dizer nada, só as lágrimas descendo no rosto. Na subida do morro, cada uma foi pra sua casa. Eu sei que levei uma surra muito grande. Fui parar no postinho. Estou aqui agora, muito machucada, esperando minha mãe trazer uma roupa pra mim, porque ele rasgou a minha roupa todinha no meio da rua. Isso não é vida pra ninguém.
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