Gael Acordei com vozes. Não era briga de verdade, não daquelas que a gente aprende a reconhecer desde criança. Era discussão pesada, daquelas que vêm do fundo da casa, abafada pelas paredes, mas que chega no quarto igual água infiltrando. Meus pais. Discutindo. Meu primeiro reflexo foi virar na cama, esfregar o olho, tentar entender que horas eram. A luz entrava forte pela janela, sol já alto. Tarde. Dormi demais. Aí as vozes ficaram mais claras. — É culpa sua, Ben! — a voz da minha mãe saiu mais aguda que o normal. — Você que deixou ela se envolver com aquele marginal! — Eu não deixei nada, Keyla. A Maya já é grande. Fez as escolhas dela. — Escolhas? Ela é uma menina, Ben! Vinte anos! E você, com todo esse poder, com todo esse morro, não fez nada! — O que eu ia fazer? Amarrar el

