MAYA - CICATRIZES E ESPERANÇAS

2188 Words
Maya Acordei com cheiro de café. Era cheiro de café fresco, forte, misturado com pão na chapa. Aquele cheiro de casa. De cuidado. De alguém pensando na gente antes de a gente acordar. Fiquei na cama uns segundos, confusa. O teto não era o meu. A parede não era a minha. A cama não era a minha. Aí veio tudo de volta. O tapa. A fuga. O Edy. O apartamento em Copacabana. Eu tô viva. E tô segura. Levantei devagar, com cuidado. A barriga ainda não aparece, mas eu já sinto o peso da responsabilidade. Não é físico. É uma presença. Uma coisa viva ali dentro que me lembra o tempo todo: você não tá sozinha. Nunca mais vai estar. Escovei os dentes, passei água no rosto, penteei o cabelo com os dedos mesmo. Respirei fundo e fui pra cozinha. O Edy tava de costas pra mim, sem camisa, mexendo na frigideira. O corpo dele era diferente do Russo. Menos tatuado, mais marcado por outras coisas. As costas eram largas, fortes, e tinham marcas que eu levei segundos pra associar. Marcas de tiro. Duas. Uma perto do ombro direito, outra mais embaixo, perto da costela. Cicatrizes antigas, daquelas que não somem nunca. Fiquei olhando, processando. Esse cara já levou tiro. Mais de um. E tava ali, na minha frente, fazendo pão na chapa pra mim. Ele resmungou baixo. — Mas que p***a! Sacudiu a mão, levou os dedos à boca. — Se queimou? — perguntei, me aproximando. — Quer ajuda? Ele pulou. Literalmente pulou, virou o corpo rápido, a mão no peito. — p***a, Maya! — ele soltou, rindo sem graça. — Tu parece fantasma, mulher. Não faz barulho andando não? — Desculpa — ri também. — Tô leve hoje. Ele me olhou de cima a baixo. O sorriso continuou, mas o olhar mudou. Não era olhar de maldade, não era olhar de interesse. Era... avaliação. Como se ele tivesse checando se eu tava inteira. — Bom dia — ele falou, o sorriso abrindo. — Bom dia. — Não queimei não. Só encostei na frigideira rapidão. Nada grave. Ele apontou pra frigideira no fogo, os pães já dourados. — Te acordei? — O cheiro me acordou — confessei, sentando na cadeira da cozinha pequena. — Tô com fome. Senti um vazio na barriga. Não era só fome. Era a gravidez pedindo comida. Minha mãe sempre falava que quando ela tava grávida de mim e do Gael, acordava de madrugada com vontade de comer coisas estranhas. Acho que meu corpo tava começando a cobrar. Edy se virou, pegou os pães da frigideira, colocou num prato. Trouxe pra mesa, na minha frente. Depois voltou pro fogão. — Senta aí, pô. Tô terminando esse pão e a gente já come. Dormiu bem? — Dormi bem, sim. — Apertei o pão, senti a manteiga derretendo. — Fazia dias que eu não me sentia segura. Ele riu. Não era riso de deboche. Era riso aliviado. — Que bom. — Pegou o bule, serviu café na minha caneca. — Eu já adocei o café, não sei como você gosta. Quer leite? — Não. Assim tá ótimo. Dei uma mordida no pão. Tava perfeito. Crocante por fora, macio por dentro, a manteiga derretendo na medida certa. Engoli e já queria outro. Edy ficou me olhando, parado perto do fogão. Os braços cruzados, um sorriso bobo no rosto. — Você tá grávida — ele falou, como se tivesse lembrado de repente. Levantou da cadeira. — Será que um mingau de aveia não seria melhor? Ele já tava indo pros armários, puxando leite, aveia, açúcar e colocando no balcão. — Como não pensei nisso antes? Pão com café não é muito saudável. Você tem que se alimentar bem. Nutriente, proteína, essas parada. Bebê precisa crescer forte. — Não precisa, Edy — falei, já levantando. — Deixa que eu faço. — Você fica sentada. — Ele agarrou os ingredientes antes de mim, colocou no balcão. — Deixa que eu preparo. A voz dele saiu autoritária, mas o tom era divertido. Tipo irmão mais velho mandando, mas sem grosseria. — Mas... — Senta, Maya. — Ele me olhou de lado. — Tu correu igual atleta olímpica, passou o dia chorando e agora quer fazer mingau? Fica aí. Descansa. Eu me rendi. Sentei, peguei a caneca, tomei um gole de café. Olhei ele trabalhando na cozinha. Mexia o mingau com calma, provava, ajustava o açúcar. — Você cozinha bem — comentei. — Minha vó me ensinou. — Ele não virou pra falar. — Morreu quando eu tinha quinze. Desde então, cozinhar virou memória. — Sinto muito. — Faz tempo. — Ele desligou o fogo, jogou canela por cima. — Já passou. Ele trouxe a tigela de mingau, colocou na minha frente, com uma colher. Ajeitou como se fosse prato de restaurante. — Tá prontinho, princesa — ele disse, meio brincando. — Obrigada, Edy. Comi. Tava bom. Não tava perfeito igual o pão, mas tava gostoso. Quente, doce no ponto, a aveia cremosa. Comi devagar, sentindo cada colherada. Quando foi na metade, olhei pra ele. — Você não vai comer? — Já comi. Tô satisfeito. — Mentira. Ele riu. — Vou fazer mais pão. Fica tranquila. Enquanto ele preparava, o silêncio ficou leve. Não era daqueles silêncios pesados, que a gente sente falta de palavras. Era silêncio de quem tá bem junto. De quem não precisa encher de conversa. — Edy — chamei, depois de um tempo. — Fala. — As marcas nas suas costas... Ele parou de mexer o pão. Não virou, nem falou nada. — É de tiro, né? Ele ficou um segundo parado. Depois voltou a mexer a frigideira, mas mais devagar. — É. — Como foi? Ele suspirou. Virou o pão, esperou dourar, tirou. Colocou no prato, trouxe pra mesa, sentou na minha frente. — Qual delas? — perguntou. — As duas. Ele passou a mão no rosto. — A primeira foi com dezoito. Moleque, bobo, querendo provar pros mais velhos que era homem. Entrei num corre que não devia, tomei um tiro nas costas fugindo. Quase morri. Minha mãe ficou uma semana no hospital comigo, sem dormir. Chorava toda noite quando achava que eu tava dormindo. — E a segunda? Ele olhou pro nada. — A segunda foi com vinte e dois. Já tava no corre do Jogador. Teve uma invasão, os cara do morro vizinho tentaram tomar a boca. Eu tava na linha de frente, tomei um tiro que atravessou a costela, saiu quase no peito. Fiquei três meses me recuperando. — E não largou? Ele me olhou. — Largar o quê? — A vida do crime. Ele riu sem graça. — O que mais eu ia fazer? Estudar? Arrumar emprego de carteira assinada? — Ele balançou a cabeça. — No morro, as opção são poucas. E quando você já tem nome, já tem histórico, não tem como sair. O morro não solta. — E você? Quer sair? Ele ficou em silêncio. — Às vezes penso. Mas pra onde? Não soube responder. Terminei o mingau, empurrei a tigela pro meio da mesa. Peguei a caneca de café de novo. — Por que você me ajudou, Edy? Ele me olhou. — Já falei. Mulher não merece apanhar. — Mas não é só isso. Você tá arriscando tudo. Sua vida no morro, sua posição com o Jogador. Tudo. Por mim. Ele baixou a cabeça. — Maya, no baile do Jogador, quando eu vi você chorando no corredor... aquilo mexeu comigo. Eu vi você ali, toda arrumada, toda linda, e o cara te tratando igual lixo. Eu pensei: se fosse minha irmã, se fosse minha mãe... eu ia querer que alguém fizesse alguma coisa. — E ninguém fez. — Ninguém. Por isso eu fiz. Fiquei olhando pra ele. — Você é uma boa pessoa, Edy. Ele riu. — Longe disso. Já fiz muita merda. Mas com mulher, nunca. Nunca bati. Nunca ameacei. Nunca forcei. Isso é coisa de covarde. A frase doeu. Porque eu amei um covarde. Ainda amava, mesmo depois de tudo. — Você ainda ama ele? — Edy perguntou, como se tivesse lido meu pensamento. Não respondi na hora. Olhei pro fundo da caneca. — Eu não sei. Parte de mim quer odiar ele. Parte de mim ainda quer voltar. É doentio, né? — É. — Ele falou sem julgamento. — Mas é o que você sente. — Eu tô grávida dele, Edy. Como é que eu vou criar um filho sabendo que o pai queria matar a gente? — Ele não sabia da gravidez, né? — Não. Mas bateu mesmo sem saber. Ameaçou mesmo sem saber. Se soubesse... — Não terminei. Edy ficou em silêncio. — Você acha que ele vai continuar atrás de mim? — perguntei. — Acho que sim. — E quando ele me encontrar? Ele me olhou. Os olhos intensos, sérios. — Ele não vai te encontrar. — Mas se ele encontrar, Edy... — Não vai. — Edy... — Escuta, Maya. — Ele se inclinou na cadeira. — O Russo é o dono do morro. Tem poder, tem homem, tem grana. Mas ele não é Deus. Não pode tudo. E enquanto você tiver comigo, ele não te acha. Eu juro. — Por que você tá fazendo isso? — Porque eu acredito que todo mundo merece uma segunda chance. Você merece. E seu bebê merece crescer seguro, sem medo. Levei a mão na barriga. Instintivamente. Aquele gesto que já tava virando rotina. — Ele não sabe que eu tô grávida — falei baixo. — Ninguém sabe. Só meu irmão. — Gael? — É. Ele me ajudou nos primeiros dias. Queria que eu fosse pra casa de parente no interior. Mas aí eu cedi ao Russo e você apareceu. — E você não quer ir pro interior? — Não sei. — Olhei pela janela. O mar, azul, imenso. — Talvez fique por aqui. Pelo menos até decidir. — Pode ficar o tempo que quiser. — E você? O que o Jogador vai dizer quando souber? Ele deu de ombros. — Jogador é parceiro. Falei que preciso de um tempo, ele me liberou. Quando ele souber do motivo, vai me entender e com certeza ele vai ficar do meu lado. Ele tem os mesmos pensamentos que eu... — Você pretende contar? — Quando você se sentir segura. Até lá, fica só entre nós. Olhei pra ele. Pra esse homem que eu m*l conhecia, que tava arriscando tudo por mim. Cicatrizes de bala nas costas, olhar cansado, mas coração gigante. — Obrigada, Edy. Não sei como vou te pagar por tudo isso que você tá fazendo por mim. — Não precisa pagar, Maya. Só fica viva. Fica bem. O resto a gente resolve com o tempo. Terminei o café. Ele levantou, pegou os pratos, levou pra pia. — Hoje vou sair — ele falou enquanto lavava a louça. — Comprar umas coisas pro apartamento. Roupas pra você. — Não precisa. — Sei que você ia dizer que não precisa. Mas eu quero. E você precisa sim de roupas, não pegou nada antes de vir. — Edy... — E vou ver se descubro alguma coisa sobre os movimentos do Russo. Se ele tá atrás, se acalmou, se... — Se ele tá vivo? Edy parou, virou. — Você quer saber? Pensei. Queria? Parte de mim queria. Parte de mim não. — Não. Melhor não. Ele assentiu. — Vou comprar um chip novo pro seu celular também. Assim você pode ligar pro seu irmão, pra sua mãe. Mas sem dar localização, Maya. Pra sua segurança. — Eles devem estar bem preocupados, né? — Certeza. Mas se ligar agora, o Russo pode estar por perto ainda e te rastrear. — Será que ele faria isso? — Ele é dono de morro, Maya. Ele faz isso e muito mais. Fiquei em silêncio. — Então você me espera quietinha. Até eu voltar com o chip novo. — Tá bom. Ele terminou de lavar, secou as mãos, pegou a chave do bolso. — Vou ali. Tem comida na geladeira, TV na sala, sofá. Fica tranquila. — Vai demorar? — Acho que umas duas horas. No máximo. Ele foi pro quarto, voltou com uma camiseta. Vestiu, passou a mão no cabelo, pegou a carteira. Na porta, ele virou. — Maya. — Oi? — Tá tudo bem. Você tá segura. Não vai acontecer nada. Sorri. Fraco, mas verdadeiro. — Sei. — Confia em mim. — Ele disse piscando pra mim. — Confio. Ele abriu a porta. — Edy. — Fala. — Cuidado aí fora. Ele sorriu. — Sempre. Fechou a porta. Ouvi o barulho da chave girando, os passos no corredor, o elevador abrindo e fechando. Silêncio. Fiquei na cozinha, olhando pela janela. O mar brilhava lá embaixo, o sol já alto, a cidade acordando. Longe do morro. Longe do barulho de tiro. Longe dele. Passei a mão na barriga de novo. — A gente vai ficar bem — falei baixo. — Eu prometo. Mas no fundo, eu sabia que nenhuma promessa era garantia. A única certeza é que eu tava viva. E enquanto eu tivesse fôlego, esse bebê não ia conhecer o medo que eu conheci. 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