Russo
O morro do Ben nunca pareceu tão pequeno quanto hoje.
Eu já subi essas ladeiras outras vezes. Pra negociar carga, pra alinhar rota, pra fazer aquela política de morro que todo mundo finge que é amizade mas por trás é só negócio. Sempre foi tranquilo. Respeito de um lado, respeito do outro.
Hoje não.
Hoje eu subi com o sangue fervendo.
A moto cortava as vielas, o vento batendo na cara, cada curva era um tiro no peito. Eu vinha rápido demais, passando reto onde devia reduzir, fazendo os cria do Ben olharem torto. Mas eu não tava nem aí. A Glock na cintura pesava, mas o peso maior era o vazio que a Maya deixou no meu quarto.
Aquele quarto vazio.
A cama desarrumada do jeito que ela deixava pós sexo, o cheiro dela no travesseiro, o batom esquecido no criado-mudo, a blusa dela pendurada na cadeira. Tudo ali. Só ela não.
E eu sabia.
Sabia que ela não ia voltar sozinha. Que eu tinha que ir buscar. Que eu tinha que botar a cara no morro do pai dela e perguntar onde tava o que era meu.
Porque ela é minha.
Sempre foi.
E não tem muro de morro que segure o que é meu.
—
Quando cheguei no QG, o movimento parou.
Os cria do Ben tavam espalhados, uns encostados nas paredes, outros sentados nas mesas, todos com aquela postura de quem tá sempre pronto. Mas quando me viram subir a rampa, os corpos fecharam. Mão na cintura. Olhar de desconfiança.
Desci da moto devagar, tirei o capacete, deixei pendurado no guidão. Meu rosto tava exposto. Minha cara. Meu nome tatuado na sobrancelha. Eles sabiam quem eu era. Sabiam por que eu tava ali.
O Juninho tinha ficado lá embaixo com a minha moto e mais dois caras. Eu vim sozinho até a porta. Deixei eles lá.
Entrei.
O Ben tava no fundo da sala, sentado atrás da mesa, uma caneca de café na mão. Quando me viu, não levantou. Não fez cara de surpresa. Só ficou lá, me olhando com aquela cara de paisagem que ele faz quando quer esconder o jogo.
O clima tava pesado. Os cria dele tudo de dedo no gatilho, alguns já com a mão no coldre. Um movimento errado e aquilo virava cena de filme.
Mas eu não tava nem aí.
Atravessei a sala devagar, passando pelos olhares, sentindo o peso de cada um. Parei na frente da mesa dele.
— Onde ela tá, Ben?
Minha voz saiu como um rosnado. Nem parecia minha. Era mais baixa, mais grossa, mais animal.
Ele não respondeu.
Só me encarou. A caneca subiu devagar até a boca. Ele tomou um gole, pousou, limpou a boca com as costas da mão.
— Russo — ele falou, a voz calma demais. — Você tá no meu morro. No meu QG. Podia ter vindo conversar, alinhar as parada. Mas tu chega assim, de moto, armado, entrando no meu QG como se aqui fosse extensão do teu morro?
— Eu vim buscar a Maya.
— A Maya não tá aqui.
— Eu sei que não tá. Por isso tô perguntando onde ela tá.
Ele se levantou devagar. Mesmo sentado, o Ben é grande. De pé, ele preenche o espaço. Mas eu não recuei.
— Você sabe o que aconteceu com ela? — ele perguntou. A voz tava diferente agora. Mais pesada. — Você sabe por que ela não tá mais aqui?
Eu sabia.
Sabia da marca no rosto dela. Sabia do medo nos olhos dela. Sabia do tapa.
Engoli seco.
— Foi um acidente.
— Acidente? — A voz dele subiu um tom. — Tu bateu na minha filha e chama de acidente?
— Eu tava alterado. Cheirei demais, bebi, perdi a cabeça...
— Perdeu a cabeça? — Ele deu um passo pra frente. — Tu perde a cabeça comigo, c*****o! Tu perde a cabeça com quem te enfrenta! Mas com a Maya? Com minha filha?
Os cria dele se mexeram atrás de mim. Eu ouvi o barulho de coldre abrindo. Minha mão foi pra cintura também, por instinto.
— Ben — falei, tentando manter o controle — eu não vim brigar contigo. Não vim arrumar treta. Eu vim buscar a Maya. Ela é minha mulher. Eu errei, mas vou consertar.
— Consertar? — Ele riu, mas não tinha graça nenhuma. — Tu bateu nela, Russo. Ela chegou aqui tremendo, chorando, com marca de tapa na cara. E tu quer consertar?
— Eu sei que errei.
— Errou? Tu quase matou ela de medo. Ela fugiu de você. Fugiu como se tivesse escapando da morte.
A frase bateu no meu peito igual um murro.
Fugiu como se tivesse escapando da morte.
Ela tinha medo de mim.
Medo real. Medo de morrer.
— Onde ela tá, Ben? — perguntei de novo, a voz falhando um pouco.
— Eu não sei.
— Como não sabe?
— Ela sumiu. Acordou cedo, saiu de casa, não voltou mais.
— Mentira. Tu é o pai dela. Tu sabe onde ela tá.
— Eu tô te falando, Russo — ele falou, e dessa vez a voz dele tava diferente. Mais cansada. — Eu não sei onde ela tá. Não atende o celular. Não responde mensagem. Sumiu, cara.
Olhei nos olhos dele.
Ele não tava mentindo.
O pai mais temido do morro, tava me olhando com uma verdade que doía.
Ele não sabia onde a filha tava.
E isso me destruiu mais do que qualquer mentira.
—
— Vamo na sua casa — falei.
— O quê?
— Vamo na casa dela. Ver se deixou alguma coisa. Ver se a mãe dela sabe de algo.
Ele me olhou, hesitou uns segundos.
— Tu nunca foi na minha casa, Russo...
— Eu sei. Tô pedindo namoral pra ir.
Ele ficou em silêncio um tempo. Depois pegou o radinho.
— Galera, fica tranquilo. Eu e o Russo vamos lá em casa. Ninguém faz nada.
O rádio chiou.
— Entendido, chefe.
Ele passou por mim, foi na frente.
Eu segui.
—
A casa do Ben era grande. Dois andares, muro alto, portão de ferro. Mas por dentro era casa de família. Foto na parede, sofá arrumado, cheiro de café. Casa de mãe.
A dona Keyla tava na cozinha quando a gente entrou.
Ela olhou pro Ben, depois pra mim, e o rosto dela fechou na hora.
— O que ele tá fazendo aqui? — a voz dela saiu dura.
— Veio procurar a Maya — Ben respondeu.
— Procurar? — Ela veio pra sala, as mãos no avental. — Depois do que ele fez, ele vem procurar?
— Dona Keyla — comecei.
— Não. — Ela levantou a mão. — Tu não vem com esse papo não. Eu sei o que tu fez com a minha filha. Tu não vai chegar aqui na minha casa e querer que eu te faça sala.
— Eu só quero saber onde ela tá.
— E acha que a gente vai te falar? Pra tu ir atrás dela, bater de novo? Matar?
— Eu não vou...
— Tu já bateu! — Ela gritou. — Tu já fez ela fugir! O que mais tu quer fazer?
Eu fiquei ali, parado, levando cada palavra. Porque ela tava certa. Toda certa.
— Dona Keyla — falei mais baixo — eu errei. Eu sei que errei. Mas eu amo a Maya. E eu preciso saber se ela tá bem. Só isso.
Ela me olhou. Os olhos dela tavam marejados, mas a raiva ainda ardia.
— Ela não tá aqui — falou, mais calma agora. — Ela saiu de manhã, como se fosse pra faculdade. Não levou mala, não levou roupa, nada. A gente nem viu ela sair pela porta. Depois não voltou mais.
— Ela não falou nada? Nenhum recado?
— Nada. Não sei onde ela está, mesmo se soubesse jamais te diria.
— Tem certeza que ela não ligou? Não mandou mensagem?
Ela balançou a cabeça.
— Eu liguei. O celular dela tá desligado.
Desligado.
Ela desligou o celular.
Ela não queria ser encontrada. Não queria que ninguém achasse ela.
— E você, Russo? — a Keyla perguntou. — Porque tu fez ela sumir assim? A minha filha te ama, você devia ter dado valor enquanto tinha ela aos seus pés.
Eu não consegui responder.
O que eu fiz? Bati nela. Ameacei. Fiz ela correr. Fiz ela ter medo de mim.
Fiz ela fugir.
— Eu vou embora — falei, virando as costas.
— Russo — Ben chamou.
Parei.
— Eu não sei onde ela tá. Mas se descobrir... vou proteger ela.
Olhei pra ele.
— Eu sei.
Saí.
—
O caminho de volta pro meu morro foi um inferno particular.
A moto cortava o vento, mas não levava nada. O pensamento vinha mais rápido que a velocidade. Eu via o rosto dela, o medo nos olhos dela, a marca do tapa. Via ela correndo. Via ela fugindo de mim.
Cheguei em casa.
Subi as escadas.
Entrei no quarto.
Silêncio.
O silêncio me deu um soco.
Olhei pro canto onde ela guardava a bolsa. Vazio. Olhei pro criado-mudo onde ela deixava o batom. Vazio. Olhei pro travesseiro do lado da cama. O lugar dela. Vazio.
Eu joguei o capacete na parede. O plástico estourou, espalhou pedaço no chão. Não foi suficiente. Peguei o copo na mesa, arremessei. Peguei a cadeira, arremessei.
Parei na frente do espelho.
O que eu vi foi um i****a.
Não era o Russo. Não era o dono do morro. Não era o cara que manda, que resolve, que mete medo. Era só um o****o.
Um o****o que bateu na única mulher que amou ele de verdade.
— p***a! — gritei, e o soco veio.
A mão direita acertou minha própria cabeça. Doeu. Doeu bom. Dei outro. Outro. O osso da testa ardeu, a visão embaçou um segundo, mas eu continuei.
— Como tu é burro, Russo! — falei pro espelho, me xingando. — Que merda tu tem na cabeça, cara?
Outro soco.
O sangue escorreu. Não sei se cortou a sobrancelha, se abriu a testa. Não importava.
— Ela te amava, seu desgraçado! Ela olhava pra você como se você fosse alguém! E você fez o quê? Bateu nela! Ameaçou! Fez ela correr apavorada!
Ajoelhei no chão. Os cacos de vidro do copo que eu quebrei furaram meu joelho. Eu nem senti.
A tatuagem no peito ardia. Eu olhei pra ela. "Maya". O nome dela escrito ali, perto do coração, como se fosse guardar ela pra sempre.
Mas ela não tava aqui.
E eu tinha sido o culpado.
Eu tatuei o nome dela no peito. Fui lá, no Gugu, pedi pra ele escrever o nome da mulher que eu amava. E no dia seguinte, afastei ela. Afastei a única pessoa nesse mundo que me olhava sem medo. A única que me amava de verdade por trás dessa máscara de dono de morro.
Eu perdi a Maya.
E o pior é saber que o culpado sou eu.
Fiquei ali, no chão do quarto, entre cacos e sangue, olhando pro nada. O silêncio voltou. Mas agora era pior. Porque antes o silêncio era só a ausência dela. Agora o silêncio era a minha culpa ecoando.
Peguei o celular. Abri a conversa com ela.
📲 Maya: por favor não faz isso Nick.
A última mensagem.
Ela me chamou pelo nome. Pela p***a do meu nome de verdade. Como quem implora. Como quem tem medo.
E eu fui lá. Fui buscar ela. Fiz ela fugir.
Eu guardei o celular.
Levantei devagar. Olhei no espelho de novo. O rosto tava inchado, sangue escorrendo da sobrancelha. A tatuagem na testa ainda ali. "Russo". O nome que eu construí na bala e no medo.
Mas ela não chamava esse nome.
Ela chamava o outro.
E o outro foi o que perdeu ela.
Saí do quarto. Fui pro banheiro, abri o chuveiro, sentei no box. A água gelada caiu na minha cabeça, misturando com o sangue, escorrendo pelo peito, molhando a tatuagem.
Maya.
Eu fechei os olhos.
Lembrei do jeito que ela sorria quando me via. Lembrei do cheiro dela no travesseiro. Lembrei do corpo dela encaixado no meu. Lembrei da voz dela me chamando de Nick.
Lembrei do medo.
Lembrei da fuga.
Lembrei do tapa.
Eu não sei quanto tempo fiquei ali. O chuveiro gelado, a água escorrendo, a tatuagem ardendo. O pensamento martelando.
Ela não vai voltar.
Não vai voltar porque eu bati nela. Porque eu ameacei. Porque eu fiz ela ter medo de mim.
Ela não vai voltar nunca mais.
Eu bati a cabeça na parede do box. Uma vez. Duas. Três.
A dor não apagava nada.
O celular vibrou em algum lugar lá fora.
Eu não fui ver.
Não importa mais.
O que importa é que eu perdi ela.
Perdi por causa da minha mão. Da minha boca. Da minha cabeça descontrolada.
E não tem Glock, não tem morro, não tem poder que traga ela de volta.
Porque ela não fugiu por causa de rival. Não fugiu por causa de guerra. Não fugiu por causa de dinheiro.
Ela fugiu de mim.
E isso... isso não tem conserto.
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