Lá dentro, Sebastian tentava em vão se proteger da escuridão, o coração batendo forte no peito, as mãos trêmulas procurando pelas roupas, enquanto Victoria permanecia imóvel à escrivaninha, uma estátua de carne e pecado, aguardando o impacto com um sorriso vitorioso.
Nathan colocou a mão na maçaneta, sentindo a vibração da vida de Elizabeth prestes a se despedaçar, e olhou para ela uma última vez com uma intensidade sombria.
— Na contagem de três. Sussurrou, o brilho nos olhos revelando que ele saboreava cada segundo.
Elizabeth engasgou, apertando a sacola de jantar contra o peito enquanto Nathan girava a maçaneta com uma lentidão cr8uel.
O carvalho cedeu com um rangido pesado e lento, como se o próprio escritório resistisse a revelar a infâmia.
E finalmente, sob a luz fraca dos postes que entrava pela janela, a realidade desdobrou-se diante dos seus olhos.
A porta finalmente se abriu com um rangido pesado no carpete, revelando o escritório banhado por uma luz âmbar, quase sufocante. Ao ver Elizabeth parada ali, agarrando a sacola de almoço, o rosto pálido como mármore, Sebastian sentiu o mundo parar.
Os seus olhos se arregalaram, fixos na figura da esposa. O pânico o percorreu como um choque elétrico na espinha, porque, no seu universo de cálculos frios e mentiras meticulosas, a possibilidade de ela aparecer no escritório sem avisar simplesmente não existia.
— Elizabeth? Ele conseguiu dizer, a voz quase um sussurro, um suspiro entrecortado que m*al podia ser considerado um cumprimento.
Ele se levantou da mesa num pulo, o coração batendo forte como o de um animal enjaulado. Ao mesmo tempo, a suas mãos procuravam freneticamente o botão de punho, ajustando-o com uma desajeitada nervosa que denunciava a sua agitação. Elizabeth entreabriu os lábios e apertou a sacola de almoço.
Elizabeth não deixou de notar que o cabelo dele, geralmente penteado com precisão militar, parecia um pouco despenteado, uma mecha solta caindo sobre a testa, pingando suor que o ar-condicionado não conseguia explicar.
— Meu Deus, o que você está fazendo aqui? Você me deu um susto enorme, querida. Acrescentou ele, tentando forçar uma cordialidade que soava forçada, contornando a mesa para encará-la. — Eu não sabia que você viria.
Elizabeth deu alguns passos para dentro, sentindo o ar pesado e o rastro forte de um perfume que não era o seu. Os seus olhos, nublados pela dúvida, examinaram a cena: Sebastian tentava recuperar a sua impecável compostura, mas suas bochechas estavam coradas, e o seu amado marido não estava sozinho.
Victoria, por sua vez, sentava-se na beirada da mesa com uma calma quase insultante. A sua blusa de seda parecia ter perdido a rigidez engomada, e com mão firme, ela alisou um canto amassado da saia, como se apagasse os vestígios de uma luta recente.
Elizabeth engoliu em seco, e Victoria olhou para ela por cima do ombro como se ela fosse a intrusa. Elizabeth sentiu um arrepio estranho percorrer a sua espinha e a pressão do escritório contra o seu corpo. Era como se tivesse interrompido algo importante, ou algo que seu marido quisesse esconder.
— Trouxe o jantar para você... mas a porta estava trancada. Murmurou Elizabeth. A sua voz pequena e trêmula cortou o silêncio como vidro fino se estilhaçando. — Sebastian, ouvi coisas lá fora. Ouvi... gemidos e vozes. Quase enlouqueci de medo. Pensei que algo ru*im tivesse acontecido com você.
Diante da acusação implícita, Sebastian soltou uma risada nervosa. Passou a mão pelo pescoço, buscando desesperadamente o olhar de Victoria para sincronizar o engano e encontrar uma âncora naquela tempestade de suspeitas. Victoria simplesmente limpou o batom borrado do canto dos lábios e suspirou, olhando para Sebastian.
— Ah, isso! Sim, me desculpe, Liz. Ele respondeu com uma rapidez surpreendente. A sua mente trabalhava a mil por hora. — Victoria tropeçou estupidamente no fio da luminária enquanto estávamos revisando os adendos do contrato. Ela torceu o tornozelo feio, e aqueles... gemidos que você ouviu foram... hmmm... reclamações de dor. Eu a estava ajudando a subir na mesa para ver se estava inchado. Foi um momento caótico.
Elizabeth franziu a testa, processando as palavras. Algo ainda não fazia sentido, uma dissonância entre o que ele estava dizendo e o que os seus instintos lhe diziam. Elizabeth era uma mulher que, em todos os seus anos de casamento, nunca havia duvidado do marido. Ela não queria ser uma mulher tóxica obcecada por infidelidade. Ela passou por isso com o pai quando ele traiu a mãe, e jurou a si mesma que não viveria rodeada de fantasmas porque não confiava nas pessoas.
— Mas eu também ouvi risadas, Sebastian. Juraria que alguém estava rindo. Ela insistiu, voltando o olhar diretamente para Victoria, procurando uma brecha na sua máscara. — O seu tornozelo está bem, Victoria? Posso ajudar em alguma coisa?
Victoria, que até então permanecera em silêncio gélido, ergueu o olhar. Os seus olhos encontraram os de Elizabeth com uma ironia sutil, quase imperceptível, porém mordaz. Ela esboçou um pequeno sorriso, não para se desculpar, mas para humilhar.
— Se você ouviu isso, é porque eu ri do absurdo da situação, Elizabeth, e não se preocupe, estou perfeitamente bem. Disse Victoria com uma voz suave e aveludada, como o deslizar de uma navalha na seda. — Foi uma queda patética. Ver Sebastian e eu lutando para que eu não caísse no chão parecia cena de comédia, não de tragédia. Às vezes, a dor nos faz rir de pura impotência, não acha? Além disso, seu marido é tão… protetor, que o pânico dele quando me viu cair foi quase engraçado. Ele tem mãos excelentes.
Querendo encerrar qualquer outra pergunta, Sebastian se aproximou de Elizabeth e a segurou pelos ombros, envolvendo-a num abraço que deveria ser reconfortante, mas acabou servindo como uma barreira. Elizabeth sentiu novamente o perfume feminino e apertou as costas do marido como a esposa que era.
— Mas olha só para você, está tremendo. Disse ele, baixando a voz para um tom doce e protetor. — Você é linda, Liz, mesmo quando está com medo. Esse vestido fica incrível em você, mas estou preocupado por você estar sozinha na rua a essa hora. Você sabe que a região é perigosa à noite e não deveria ter se arriscado assim só para me trazer comida. Eu não me perdoaria se algo acontecesse com você por minha imprudência.
A explicação de Victoria foi tão direta, e a bajulação de Sebastian tão abrangente, que Elizabeth sentiu a sua suspeita começar a se dissipar, tornando-se quase ridícula e paranoica. Ela estava pensando demais. Ele não era assim. Ela olhou para a mesa e viu os documentos ligeiramente desorganizados, como provas silenciosas que pareciam validar a história do acidente no escritório.
Entretanto, da porta, Nathaniel permanecia encostado no batente, braços cruzados e uma expressão de total desaprovação no rosto. Os seus olhos escuros, carregados de julgamento silencioso, alternavam entre a mão de Sebastian, que ainda tremia imperceptivelmente no ombro da esposa, e o rosto triunfante de Victoria. Para ele, o ar não cheirava a escritório, mas a uma mentira tão descarada que lhe causava náuseas.
— Bem. Interrompeu Nathan com um sarcasmo seco que cortou o ar como um chicote. — Parece que a empresa precisa de eletricistas melhores para evitar esses acidentes barulhentos. Espero que o jantar não tenha esfriado com todo esse drama médico, Sebas. Elizabeth se esforçou bastante e correu muitos riscos para trazer isso até você.
Sebastian assentiu, evitando o olhar do parceiro a todo custo e sentindo o peso da reprovação de Nathan na nuca.
— Obrigado, Nathan. Nós cuidaremos disso. Disse Sebastian, tentando recuperar o seu tom autoritário enquanto ajudava Victoria a descer da mesa. — Victoria, você consegue andar ou precisa que eu chame um táxi?
Victoria passou a língua pelos dentes, da mesma forma lasciva que passara pela glande úmida de Sebastian.
— Vou ficar bem. Ela respondeu, descendo com uma graça felina que não demonstrava nenhum ferimento real, nenhuma fraqueza.
Ela jogou a bolsa sobre o ombro e passou por Elizabeth, parando por apenas um segundo, o suficiente para a outra mulher sentir o calor emanando do seu corpo.
— Obrigada pela sua preocupação, Elizabeth. Você tem um marido muito... atencioso. Ela realmente sabe como cuidar dos detalhes. Boa noite.
Victoria saiu do escritório com um mancar elegante, quase imperceptível, seguida pelo olhar inquisitivo de Nathan. Ele fechou a porta atrás dela, mas permaneceu do lado de fora, como um guardião de segredos obscuros.
No escritório, o silêncio voltou a reinar, denso e sufocante. O perfume floral de Victoria ainda pairava no ar, misturando-se ao aroma do jantar que Elizabeth acabara de colocar na mesa. Ela tentou se convencer de que tudo era lógico, enquanto Sebastian beijava a sua testa, escondendo por trás daquele gesto o olhar de um homem que escapara por pouco do abismo.