cap 01 vamos recomeçar
Gabrielly
O espelho nunca foi gentil comigo. Cada curva refletida era um lembrete das inseguranças que o Breno fazia questão de alimentar. Com o tempo, comecei a odiar meu próprio corpo, acreditando que ninguém jamais seria capaz de me amar de verdade.
Estávamos juntos há três anos, mas o amor nunca foi real. Ele me escondia, como se tivesse vergonha de ser visto comigo — nas redes sociais, nas fotos, até nas ruas. Sozinhos, nossas mãos nunca se tocavam. Mas dentro do apartamento, ele fingia ser um homem apaixonado.
Cada palavra dele sobre mim, sobre o meu corpo, me cortava por dentro em silêncio. Três anos da minha vida suportando humilhações, acreditando que estava construindo algo — quando, na verdade, eu só estava me perdendo.
Deitada no sofá, perdida nos meus pensamentos, ouvi ele começar com o mesmo discurso de sempre, me diminuindo, me ferindo.
— Breno: Olha pra você, Gabrielly. Só vive deitada nesse sofá. Quem mais além de mim ia querer ficar com alguém assim? Já te falei pra entrar na academia. Tudo que eu digo, você diz que eu tô errado.
Eu não respondia. As lágrimas já tinham virado rotina. Meu coração, que antes batia por amor, agora só conhecia medo e tristeza. Breno era agressivo, manipulador. Eu suportava tudo em silêncio.
Saí da sala, deixando ele falando sozinho. Não queria mais ouvir nada. Me deitei na cama e chorei, tentando entender em que momento da vida eu tinha me perdido.
Eu tinha trancado o curso de enfermagem — algo que sempre amei — porque ele não me deixava sair de casa. Dizia que mulher dele não precisava estudar.
Como a Bia me fazia falta… minha irmã de outra mãe. Antes, ela morava em Copacabana, mas agora estava na Rocinha. Eu nunca tive coragem de subir um morro. Mas naquele momento, só queria recomeçar, deixar tudo pra trás.
Conheci a Bia no curso; ela fazia veterinária. Sempre amou animais. Desde então, viramos inseparáveis. Como eu amava aquela mulher.
(...)
Breno já se arrumava pra uma das festas que ele frequentava — aquelas onde “rolava de tudo”. Eu também estava pronta, mesmo sabendo que ele não ia me levar. Só queria sair daquele apartamento, respirar outro ar.
— Breno: Meu amor, não precisa ir comigo. Lá vai ter muito homem, e eu não quero ninguém te olhando.
— Gabrielly: Mas eu já tô arrumada, Breno… queria só sair um pouco, por favor.
— Breno: Me espera aqui, tá bom, amor? Não vou demorar.
A palavra “amor” soava podre vinda da boca dele. Quando segurou meu braço com força, o olhar frio deixou claro que não era um pedido — era uma ordem. Eu sabia que, se respondesse, apanharia.
Mas naquele instante eu decidi: tudo ia mudar. Eu não ia mais ser prisioneira dele.
(...)
Horas depois, ouvi a chave girando na porta. Meu coração disparou.
Ele chegou.
Desci as escadas devagar. Antes que pudesse reagir, ele veio tentar me beijar. O cheiro de bebida e perfume barato me embrulhou o estômago. Fingindo carinho, ele tentou me abraçar — como se nada tivesse acontecido, como se todas as humilhações não significassem nada.
Empurrei-o.
— Gabrielly: Não quero mais isso, Breno.
Ele riu, com aquele deboche que me dava nojo.
— Breno: Vai fazer o quê, Gabrielly? Sair por aí? Sem mim, você não é nada. Eu sempre disse: você é minha. Quando eu quiser, você não diz não.
Aquela frase foi o estopim.
Minhas mãos tremiam. O medo se misturou à raiva. Dei um tapa no rosto dele.
Ele me empurrou contra a parede e apertou meu pescoço. O ar começou a faltar.
— Breno: Já te falei que mulher minha não levanta a voz pra mim, sua gorda horrorosa!
Com o resto de força que me restava, acertei um chute entre as pernas dele. Ele caiu no chão, gritando de dor. Tentei correr, mas ele agarrou meus cabelos. Desesperada, peguei um jarro de flores e acertei com toda a força na cabeça dele.
Ele caiu. Desmaiado.
Era a minha chance.
Corri pro quarto, enfiei minhas roupas na bolsa, peguei documentos, celular, tudo que consegui. As mãos tremiam. Liguei pra Bia — a única pessoa em quem eu podia confiar.
Ligação:
— Bia: Fala, p*****a! Quanto tempo, hein? Depois que fui embora, tu sumiu. Já sei que aquele teu namorado é um lixo.
— Gabrielly: Amiga… me ajuda, por favor! Vem me buscar antes que ele acorde!
— Bia: O que aconteceu?
— Gabrielly: Eu te explico depois. Só vem, Bia! Ele tá desmaiado. Eu preciso sair daqui agora!
— Bia: Calma, tô indo, amiga. Me espera!
— Gabrielly: Só vem... por favor.
Desliguei o celular, tranquei a porta e saí correndo. Me sentei no asfalto em frente ao prédio, tentando controlar o choro. Minutos depois, ouvi uma buzina. O coração acelerou.
O carro parou, e quando a porta se abriu, vi Bia correndo na minha direção. Ela me abraçou forte, e eu desabei em lágrimas.
— Gabrielly: Amiga… eu não aguento mais.
— Bianca: Respira, meu amor. Eu tô aqui. Nunca mais vou deixar aquele desgraçado encostar em você.
— Gabrielly: Ele tentou me forçar de novo, Bia… eu sentia nojo. Foram três anos ouvindo ele me chamar de gorda, de inútil… eu não tinha mais forças.
— Bianca: Esse desgraçado vai pagar por tudo o que te fez.
— Gabrielly: Eu reagi. Dei um tapa nele, e ele me enforcou. Consegui chutar ele, corri, e quando me segurou pelo cabelo, quebrei um jarro na cabeça dele.
— Bianca: Meu Deus, Gaby… por que você deixou esse cara entrar na sua vida?
Antes que eu respondesse, uma garota que estava encostada no carro se aproximou.
— Duda: Sinto muito pelo que você passou, mina. Lá no morro, esses lixos não têm vez.
— Bianca: Amiga, essa é a Duda. Duda,essa é a Gaby.
— Gabrielly: Oi…
— Duda: E aí.
Limpei o rosto com a manga da blusa e tentei sorrir, mas por dentro eu me sentia suja.
Suja por todas as vezes em que ele me forçou, e eu fiquei calada.
Mas agora, dentro do carro da Bia, a caminho da Rocinha, eu sabia: era hora de recomeçar.
(...)
Assim que pisei no morro, parecia outro mundo. Motos subindo e descendo, funk ecoando, crianças brincando no parquinho perto da casa da Bia. A Duda nos deixou e seguiu caminho. Ela era bonita — aparelho, sorriso encantador, tatuagem no braço e cabelo bem cuidado.
Entramos na casa da Bia, e ela se virou pra mim:
— Bianca: Tu sabe que pode ficar aqui o tempo que quiser. Essa casa também é tua.
— Gabrielly: Eu tenho medo, Bia… e se o Breno vier atrás de mim?
— Bianca: Ele não é maluco. Se o Pz souber que tem um estuprador querendo subir aqui, tu sabe o que vai acontecer com ele. A Duda já falou: abusador não tem vez no morro.
Abracei ela com força. Choramos e rimos ao mesmo tempo. A casa era aconchegante, cheia de cor e vida.
— Gabrielly: Eu vou procurar emprego, não quero ser um peso.
— Bianca: Para com isso, Gaby. Tu não é peso nenhum. Já falei com a Dudão — a tia dela, dona Ivana, tem uma lanchonete e tá precisando de alguém.
— Gabrielly: Sério? Tão rápido assim?
— Bianca: Aqui no morro ninguém fica parada nem chorando. A gente levanta e vive.
— Gabrielly: Obrigada por tudo, amiga. Não sei o que seria de mim sem você. Te amo tanto.
— Bianca: Também te amo. Agora é o teu recomeço. E o que o Breno te fez… ele vai pagar.
Sorri entre as lágrimas e abracei ela de novo.
Pela primeira vez em muito tempo, senti que havia esperança.