Fotografias

1481 Words
Samanta possuía um olhar penetrante, daqueles indecifráveis, que poderiam sugerir um milhão de coisas ao mesmo tempo. Seu sorriso, quase sempre estampado em seu rosto, mas de um modo frequentemente sarcástico, quando aberto, estampava suas covinhas na bochecha de imediato, e estas, eram cobertas de sardinhas que encobriram as maçãs de seu rosto até as laterais de seu nariz. Mabel, era quase uma cópia fiel da aparência de sua irmã, com exceção de seus cabelos que eram mais dourados do que ruivos. Não era muito difícil identificar mulheres na família de Aurora Maia, pois, todas elas, eram detentoras do mesmo sorriso inconfundível , em um rosto marcado por sardas. Ao entrarem a passos cautelosos, prendendo a respiração, no quartinho p******o da casa, Samanta se deu conta de que com a lanterna que carregava naquela noite, era possível identificar alguns quadros pendurados nas paredes. Estes emolduravam imagens de diferentes mulheres, muito parecidas com ela. - Já parou para pensar em como esse quarto é misterioso? - Mabel interrompeu o silêncio absoluto que se formava, enquanto vasculhava pequenas caixinhas vazias empilhadas sobre as prateleiras empoeiradas. - Já. - Samanta respondeu, secamente. - Não quer conversar? - Mabel perguntou, distraída. - Se fizermos muito barulho, e alguém nos ouvir, estamos muito ferradas. - Samanta parou de contemplar os arredores com a lanterna, para fixar seu olhar em Mabel. - O papai não deixa ninguém entrar aqui dentro, nem mesmo Glorinha. Me surpreendo que ele ainda assim, deixe a porta aberta. - Não há nada demais dentro desse quartinho imundo. Não entendo por que ele sempre nos proibiu de entrar. - Mabel sussurrava, evitando encarar Samanta, que parecia impaciente com o diálogo. - Sempre pensei que fosse para preservar a memória da mamãe, e por respeito a ela... Não sei. - Samanta encostou-se na parede, frustrada ao pensar na possibilidade de não haver de fato mais nada de surpreendente ali dentro. Mas por que a mãe deixou aquele estranho bilhete? - Olhe só, tem um álbum aqui, muito velho por sinal. - Mabel dava batidinhas no álbum de fotografias que encontrava-se em cima da escrivaninha, e usou o espanador. Uma nuvem de poeira pairou sobre o lugar, de modo instantâneo. - Não deve ter nada interessante aí dentro, só fotos muito velhas. - Devem render boas risadas. Me dê a lanterna. Samanta entregou a lanterna para Mabel, que parecia empolgada com a possibilidade de ver fotos antigas, onde todos deveriam trajar roupas engraçadas, como vestidos longos e antiquados, por exemplo. Algo que ela aprendera a detestar, já que a moda do momento eram calças jeans de cintura alta. - Samanta... Olhe só. - Mabel apertou o braço de sua irmã de modo abrupto. - A mamãe e uma porção de outras mulheres, idênticas à nós. Samanta aproximou-se da fotografia, que revelava sua mãe, em um longo vestido com botões, ao seu lado esquerdo e direito, havia mulheres, quatro delas, especificamente, com rostos sardentos e vestidos semelhantes. Samanta percebeu, logo em seguida, que no pescoço de cada uma delas, estava pendurado um cordão, que carregava uma chave como pingente. - São chaves, olha... - Samanta apontou para o pescoço de cada uma. - O bilhete. - A chave está na saída. - Mabel esbugalhou os olhos instantaneamente. Samanta posicionou a lanterna acima da fotografia, para prestar atenção em cada detalhe. A fotografia era muito antiga, quando, provavelmente, sua mãe deveria ter a sua idade. Havia cinco mulheres ao todo, e todas elas, muito iguais, com seus cordões que ostentavam uma chave de tamanho médio. Elas pareciam estar em uma fazenda, pela quantidade de árvores que as rodeavam, e também algumas cercas. No verso da fotografia, estava escrito em letras cursivas. "Encontro das mulheres Orleans." - Papai nunca mencionou esse sobrenome. - Samanta disse em um tom quase inaudível. - Deve ser uma sociedade secreta... - Mabel falou, ainda prestando atenção nos rostos nunca antes vistos. - Não fale besteiras. - Samanta a repreendeu. - É só o sobrenome da mamãe. Que não temos. Não há nada demais. - É claro que não... Só temos algumas parentes esquisitas que usam o mesmo cordão com uma chave, e uma mãe que deixa bilhetes enigmáticos sobre, provavelmente, essa mesma chave. - É, tem razão. Um pouco estranho. - Samanta agora fechava o álbum de fotografias, prestes a deixá-lo no local onde o encontraram. Mas, como em uma espécie de solavanco, sua memória lhe fez voltar há anos atrás, quando, ainda pequena, sua mãe lhe ensinara sobre a importância de se ter esconderijos, e de modo automático, ela decidiu que não seria melhor explorar aquele álbum. - Você vai perguntar ao papai sobre as coisas que encontramos? - Mabel perguntou, enquanto segurava a lanterna que iluminava o álbum que Samanta remexia, como uma perita procurando por pistas. - É claro que não. E nem menciona nada disso, nem para ele, nem para Glória. Este é o nosso segredo. - Tudo bem. O que você está procurando? - A mamãe tinha a mania de esconder muito bem as coisas, nos lugares mais diferentes possíveis. Só estamos procurando por pistas em lugares óbvios. Pense como a mamãe. - Então largue o álbum, não deve haver mais nada aí dentro, já vimos todas as páginas. Samanta e Mabel sentaram-se no chão coberto por poeira, enquanto usavam a lanterna para iluminar os arredores, caso ouvissem algum possível barulho de bichos asquerosos que poderiam estar escondidos em meio aos entulhos. Ao redor delas, pilhas de livros e outros álbuns, ainda mais antigos do que o primeiro que abriram. Reviraram um por um, procurando por algo que estivesse escondido entre as suas páginas. Após algum tempo, em meio aos espirros reprimidos e tosses abafadas para que não fizessem barulho, a pilha já estava quase acabando, e não havia qualquer sinal de algo misterioso o bastante para que elas pudessem associar ao bilhete e a fotografia. - Estou começando a sentir muito sono... Está entediante. - Mabel reclamou, ao terminar de revirar todos os livros de sua pilha. - Não estamos fazendo do jeito certo. Estamos sendo óbvias demais. - Samanta concluiu, após terminar de revirar o último livro. - A mamãe não deixaria algo importante no meio de alguma página de um livro qualquer. Ela era mais esperta. - Talvez não sejamos tão espertas quanto ela. - Somos sim. Só precisamos pensar. Mabel pegou a lanterna para iluminar a janela que ficava no topo da parede do quartinho, após ouvir um barulho que parecia ser de algum inseto. - Estou começando a ficar com medo... - Tudo bem. Vamos voltar, outro dia procuramos de novo. - Samanta respondeu, também exausta da busca e do ambiente imundo daquele quarto. Mabel desistira de usar a lanterna em direção a janela, afinal, parecia não haver qualquer sinal de insetos por ali. O feixe de luz parara sobre a escrivaninha, onde estava o primeiro álbum que encontraram, com a misteriosa fotografia. Mabel permaneceu encarando o álbum, segurando a lanterna com firmeza, e seus olhos vagavam por toda a escrivaninha, quase como se estivesse hipnotizada. - O que foi? - Samanta perguntou, demonstrando preocupação. Se houvesse alguma barata ou ratos por ali, elas estariam definitivamente encrencadas, pois Mabel gritaria sem parar. - Shhh... - Mabel posicionou seu dedo indicador sobre a boca de Samanta, para que ela se calasse. - Estava raciocinando. - Mabel deu uma curta risada. - Venha aqui... Olha só, a capa do álbum está encapada por um tecido aveludado. - Mabel puxava o tecido, que desprendia-se com dificuldade, pois estava muito bem colado. - Não é a capa verdadeira dele. Todos os outros álbuns que olhamos tinham a mesma capa, de couro, da cor marrom. E aquele aparenta ser o mesmo modelo de álbum, exceto pelo tecido forrado. Samanta ajudava Mabel a retirar todo o tecido, e para a surpresa de ambas, atrás dele revelou-se um envelope de cor creme. - Você é uma gênia. Tem certeza de que só tem doze anos? - Samanta abraçava Mabel, contente por não ter desperdiçado tempo indo até lá. Abriram o envelope com absoluta pressa, pois temiam que já estivessem ali dentro há horas, o que seria muito arriscado a julgar pelo modo como Patrício prometera castigá-las severamente caso uma delas entrasse no quartinho p******o. Dentro dele, uma única foto, porém, estampava rostos familiares. Tratava-se do sofá da casa, na sala de televisão, onde Glória, Patrício e Aurora estavam alegremente sentados juntos, cada um com uma xícara em mãos. Samanta reconheceu a foto imediatamente, ela mesma havia tirado, aos seis anos, com certa dificuldade, pois nunca manuseava uma câmera fotográfica antes. Seria uma foto completamente normal, se o rosto de Glória não estivesse deformado, por o que teria sido fogo de alguma vela. - Quem é esta que está quase sem rosto? - Mabel apontou. - É Glorinha... - Samanta não despregou os olhos da fotografia. - Eu os fotografei.
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