Insônia

1220 Words
Mabel e Samanta cuidaram para que o quartinho permanecesse do modo como estava antes de chegarem. Empilharam os livros e álbuns nos locais corretos, e com um pouco de esforço para memorizarem onde estava cada coisa, conseguiram deixar tudo em ordem antes de partirem para o seu quarto. Na sala de estar, o imenso lustre antigo que permaneceu na família Dante Maia através dos séculos, estava aceso. Mabel e Samanta se entreolham assustadas, e incertas quanto a terem o deixado assim quando saíram de fininho para o quartinho. Com olhares assustados, subiram através da escada, a passos largos, e cientes de que qualquer barulho extra as colocaria numa grande cilada. Deitaram-se em suas camas, onde o cobertor estava propositalmente em cima de almofadas que imitam seus corpos, uma tática antiga, e apesar disso, nunca usada por elas antes. O suspiro aliviado de Mabel ao deitar-se, fez com que todos os pensamentos perturbadores que sucederam a grande descoberta que fizeram naquela noite, se desviassem por ao menos alguns poucos segundos. - Devemos conversar sobre o que encontramos? - Mabel perguntou aos sussurros. - Acho melhor falarmos disso amanhã. Sei que foi estranho, mas pode não ser o que parece. - Mas o que parece? - Mabel indagou, com um receio contido de qual seria a resposta que ouviria. - Não sei. - Samanta respondeu imediatamente, tentando demonstrar desinteresse. Por dentro, um turbilhão de perguntas se alastraram por cada parte de sua mente. - Boa noite. - Disse Mabel, após um bocejo. - Boa noite. A noite seria longa, Samanta concluiu automaticamente após desejar boa noite para sua irmã. Não conseguiria pregar os olhos enquanto não obtivesse uma resposta sensata para todas aquelas perguntas que a inundavam. Lembrou-se daquela manhã, quando Glória demonstrou imenso constrangimento ao tocarem no assunto de sua suposta paixão por Patrício. Ela teria sido capaz de m***r sua mãe para ficar com ele? Samanta especulava maliciosamente, e então, afastava essa suposição sombria de sua mente logo após cogitá-la, com completo horror. Não, Glória não seria capaz de algo assim, fora ela quem as criou após a morte de sua mãe, e sempre com grande respeito pela mesma. E além do mais, não havia qualquer evidência de que Glória era de fato apaixonada por seu pai, tudo o que supunham era meramente pelo fato dela demonstrar grande devoção para com ele, obedecendo às suas ordens fielmente. O que não significava nada, Samanta concluiu depressa. A madrugada passou de modo arrastado, e Samanta revirava-se em sua cama diversas vezes, sem conseguir cair no sono. Fitava o teto de seu quarto, onde havia pedaços de um adesivo há muitos anos colado lá em cima, já muito gasto pelo tempo. Ela lembrava-se desse dia, em que conseguira comprar grandes adesivos de borboleta em uma feira que acontecia todo ano no Vilarejo das Águas, local em que Glória morava antes de se mudar para a Clareira de Misé. Então percebeu que todos os pensamentos voltavam-se para ela, por mais que tentasse se distrair. Todo aquele emaranhado de perguntas que brotaram em sua mente imediatamente após encontrar aquela estranha fotografia, perambulavam por sua cabeça agitada, que dificilmente conseguiria dormir naquela noite. Se sua mãe escondeu aquela foto esquisita, com o rosto de Glória modificado, isto significava alguma coisa. Alguma coisa mais séria do que ela poderia imaginar. ⌽ A madrugada parecia arrastar-se lentamente, e Samanta já desistira de tentar pegar no sono, totalmente absorta em seus devaneios. Decidiu levantar-se da cama, onde já não aguentava estar há horas na mesma posição, como se engaiolada em uma rede de pensamentos insistentes, sobre o mesmo assunto. Sentou-se na cadeira de sua escrivaninha, num d****o súbito de escrever sobre qualquer coisa aleatória que passasse por sua mente, e que não tivesse nada a ver com a fotografia que encontrara, mas desistiu ao constatar que o barulho da máquina de datilografia acordaria sua irmã, que dormia serenamente como se nada incomum tivesse acontecido. Decidiu abrir sua caixa de fotografias, tiradas de sua Polaroid, eram fotos diversas, de pessoas conhecidas e desconhecidas. Samanta tinha verdadeira paixão por fotografar tudo à sua volta desde que ganhara sua tão esperada câmera. Sua distração com as fotos foi interrompida pelos gritos de Mabel em sua cama, ainda adormecida. - Eu não a matei! Eu não a matei! - Mabel gritava enquanto debatia-se na cama, seu rosto apavorado, ainda de olhos fechados. Samanta correu em direção a sua cama, para tentar acordá-la. Ao ajoelhar-se ao seu lado, segurando suas mãos, que balançavam freneticamente para os lados, na tentativa de contê-las, o barulho da porta do quarto a assustou. Glória adentrou nele, com sua longa camisola e cabelos presos em um coque, aproximando-se de Mabel, com cuidado. - Calma... Calma. - Glória repetia para Mabel, enquanto acariciava seus cabelos. Mabel permanecia em silêncio, olhando para o teto. - Foi só um pesadelo. - Samanta também tentava confortá-la. - Não é a primeira vez... - Glória disse, ajeitando o travesseiro de Mabel. - Há dias ela tem esse mesmo pesadelo todas as noites, e grita desesperada. - Eu nunca ouvi. - Samanta surpreendeu-se. - Você tem um sono muito profundo, querida. Do tipo que eu gostaria muito de ter. É impressionante, você sequer se mexe, enquanto Mabel grita em desespero, na cama ao lado. - Há quanto tempo isso acontece? - Uma semana, mais ou menos. No outro dia ela nunca se lembra direito o quanto grita, ou finge não lembrar. Nunca gosta que toquem nesse assunto. Seu pai e eu tentamos convencê-la de que seria benéfico para ela ir ao psicólogo, ou algo do tipo. Sempre que entramos nesse assunto, ela muda a conversa. - Glória tentava falar em um tom baixo o bastante para que Mabel não acordasse bruscamente, agora que já estava prestes a adormecer de novo. - Vou tentar conversar com ela amanhã. - Tente. - Glória cobria Mabel com cuidado, após certificar-se novamente de que seu travesseiro estava devidamente confortável para ela. - Se ouviu essa noite, é porque estava acordada. - Glória olhou para Samanta, enquanto se dirigia para a porta do quarto. - Estou com insônia essa noite. - Samanta respondeu. - Algum motivo específico? - Nada demais. Devem ser as provas finais da semana que vem. - Durma, meu bem. Boa noite. Glória fechou a porta lentamente, enquanto Samanta continuava a fitá-la. Quando olhava para ela, só conseguia lembrar-se da fotografia em que seu rosto estava completamente deformado. Se sua mãe deixara aquela fotografia ali, tão escondida, onde apenas o rosto de Glória estava marcado daquela maneira assustadora, aquilo não poderia significar nada. Tratava-se de uma mensagem, uma mensagem a respeito de Glória. Ou seria uma mera coincidência? Uma foto que acidentalmente foi danificada. Samanta revirava-se na cama, novamente, sem parar. Se fosse apenas uma coincidência, por que sua mãe teria guardado aquele envelope em um suposto esconderijo? Ela não lhe ensinara que só era necessário guardar coisas muito importantes em esconderijos? Por que aquela foto seria importante? Um rosto... Um único rosto... Deformado... Escondido... A chave está na saída... "Eu vim para cá pouco tempo antes de seu falecimento, minha querida, não a conheci tão bem. Por que a pergunta? Aconteceu alguma coisa?"... Um rosto.... Encontro das mulheres Orleans... Deformado... Pouco antes... De seu falecimento... Minha querida. E finalmente adormeceu, num apagão.
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