Capítulo 4
Perigo narrando
O som metálico da porta da cela batendo atrás de mim ecoa na minha cabeça, mesmo que eu já esteja sentado no banco frio da sala de agentes. Um deles se aproxima, sem olhar muito nos meus olhos, e coloca um celular na minha mão.
— Aqui o celular que você encomendou — diz ele, rápido, como quem não quer conversa.
Seguro o aparelho como se fosse uma arma. É leve, mas carrega mais poder do que qualquer pistola nesse momento. Minhas mãos coçam para discar, e o primeiro número que vem na cabeça é o dela. Malu.
O toque chama, chama… até cair direto na caixa postal.
— Filha da p**a… — murmuro, sentindo um calor subir pelo meu pescoço. Eu aperto os dentes, e o gosto metálico da raiva quase me invade a boca.
Respiro fundo e digito o número do Rd. Demora alguns segundos até atender.
— É, Perigo — digo assim que ouço a respiração dele do outro lado.
— Até que enfim pegou o celular — ele responde, e percebo um leve tom de ironia. — Tá sabendo do estrago no morro?
— Quero saber da minha mulher — corto o papo. Não me interessa fofoca agora.
— Devia estar tão preocupado com ela assim, não… — ele solta, pausado, como quem mede as palavras. — Ela meteu o pé quando tu foi preso.
Meu estômago revira. — Que filha da p**a… acha ela até no inferno, Rd.
— Relaxa. Peguei ela fugindo num ônibus — ele diz, e posso quase vê-lo dar aquele meio sorriso de quem gosta de dar notícia r**m. — Tá no barraco.
— Fugindo pra onde? — pergunto, minha voz saindo mais grave do que eu queria.
— Pará — ele responde. — E com uma mala de dinheiro. A mesma que te entreguei mais cedo. Você sabe o que isso significa, né?
Fecho os olhos por um segundo. Traição tem cheiro, e agora o ar já tá impregnado.
— Como os vermes entraram no meu morro? — solto, já sabendo que a resposta vai me corroer.
— Denúncia anônima — ele devolve, seco. — O que você tava fazendo na hora?
— Discutindo com ela — respondo, quase cuspindo. — Não… não quero acreditar que ela me denunciou.
— Você não tratava ela com flores — Rd rebate. — Foi a forma que ela achou de não viver um inferno ao teu lado.
O sangue me ferve. — Mata ela.
Há um silêncio. — Como é? — ele pergunta, surpreso.
— Eu mandei você matar ela, c*****o! — grito. — Eu quero Malu morta.
— Tem certeza disso, cara? — ele insiste. — Se tu quer que eu mate ela, eu subo lá agora e faço isso.
— Mata ela. É isso mesmo que eu quero que você faça. Aquela garota sabe demais. Se ela fez isso uma vez, vai fazer de novo. Tu sabe o tratamento que X9 tem que ter.
— Tem certeza? — ele repete, como se me desse chance de voltar atrás.
— Passa bala. Eu não quero traidor na minha mão, não.
Ele respira do outro lado. — Matar ela com um tiro é muito rápido. Quando tu sair, tu faz ela sofrer. Faz ela penar na tua mão.
Eu penso. Imagino o rosto dela me olhando, sabendo que o fim tá perto. — Quanto tempo vou ficar aqui dentro?
— Meses — ele diz. — Meses e eu prometo que te tiro daí. Mas agora a polícia tá batendo nos morros, de olho em tudo. Pode ser arriscado pros dois lados.
— Mantém ela viva. — Engulo o orgulho e falo. — Você tem razão. Seria muito fácil mandar matar ela. Quero ver ela na minha frente e quero que ela fale tudo pra mim.
— Fechou então.
— Leva ela pra tua casa. Tira ela do barraco, não deixa ela lá não.
Ele ri. — Dois minutos atrás queria que eu matasse ela, agora quer que eu leve pra minha casa? Eu não moro em barraco, não.
— Faz o que eu pedi. Não deixa ela sair do morro e nem se envolver com ninguém. Manda o recado: se ela se envolver com alguém, eu mato ela.
— Fechou — ele diz, desligando.
Fico com o silêncio do presídio me engolindo. Maria Luiza… ela ia me pagar. Não só por me denunciar, mas por tentar se aproveitar da minha prisão pra fugir. Rd tinha razão: matar seria pouco. Ela ia sentir cada segundo da minha mão.
Rd narrando
Desligo a chamada e olho as horas. Ainda é cedo.
— Fernanda! — chamo. Ela larga o celular e me encara. — Sobe lá em casa e arruma o quarto pra primeira-dama.
— Fala sério — ela responde, franzindo a testa.
— Ele pediu. Não custa nada — dou um sorriso de canto.
— Aquela garota é problema. Não quero ela perto da minha filha.
— Nós sabemos por que você não quer ela perto da sua filha — digo, firme.
— Ela não pode saber — Fernanda fala, mais baixo.
— Relaxa. Acha que vou dar moral pra ela? — dou de ombros. — Vai comer na minha mão.
Saio da boca, subo na moto e sigo até o barraco. PH tá na frente, conversando e fumando um baseado com os outros.
— Tá batendo ponto aqui, patrão? — Jn fala.
— Desce todo mundo. Vou tirar ela daqui.
— Perigo mandou levar pra onde? — PH pergunta.
— Pra minha cama — sorrio.
— Filho da p**a — Bn ri.
— Vou deixar ela lá em casa, de castigo, convivendo comigo. Estão liberados, podem descer. Eu levo ela.
Entro no barraco. Malu tá dormindo. Ela parece tranquila, mas sei que é só aparência. Me aproximo e grito:
— Anda, princesa! Acorda!
Ela leva um susto, senta rápido e me encara com os olhos arregalados.
— Acabou hotel cinco estrelas — digo, me abaixando pra desamarrá-la.
— Pra onde você vai me levar? — ela pergunta. — Pra o Perigo?
— Ele saiu da cadeia? — repete, mais tensa.
— Sim. Tá te esperando lá embaixo, com os pneus prontos pra colocar fogo.
— Não, por favor! — ela diz, nervosa. — Não me leva até ele, por favor, isso não. Eu te imploro.
Eu abro um sorriso. — Ele não saiu da cadeia, não é mesmo?
— Achei alguém que você tem medo: dele. Já que de mim você bate de frente… — tiro a arma. — Tá vendo ela? Tá louca pra atirar em você e atravessar esse seu rostinho de princesinha. Então, dona Maria Luiza, me obedeça e se comporte. As ordens são: desobedeceu, tá morta.
— Sim, senhor — ela diz, me olhando.
— Pode parar com esse deboche agora mesmo. Eu posso ser pior que o Perigo.
— Na cama, você é pior que ele também? — ela provoca.
Eu a encaro. — Não adianta me provocar. Não caio em papo de v***a.
— Ué, v***a é quem deita com você todas as noites. Eu não sou v***a.
— Você é o que eu te chamar, e ponto. Se não, quem te leva pro micro-ondas e te faz virar churrasquinho sou eu. E olha que eu adoro churrasquinho de p*****a.
Ela me encara, e eu sorrio.