Henrique olhava o rapaz com cara de i****a, enquanto o jovem pintava algo na parede, não conseguia acreditar que ele fez tudo aquilo para desenhar em uma parede no subterrâneo de um galpão abandonado, que espécie de delinquente era ele?
- Pare com isso, temos que sair daqui! -Henrique começou a pular tentando alcançar o piso acima, mas seu ombro estava doendo muito por causa das duas quedas e apesar de ser resistente a bebida se sentia levemente tonto.
- Relaxa, depois a gente dá um jeito.
Percebendo que só iria piorar o estado de seu braço, Henrique desistiu de pular e foi observar o desenho que o rapaz estava fazendo, não tinha muitas formas claras, mas parecia uma menina e alguns ursos de pelúcia.
- Você é péssimo nisso. -afirmou com toda sinceridade e sem se preocupar se isso o iria magoar, o jovem encarou Henrique com cara de tristeza.
- É a primeira vez que p***o uma parede, se não gostou faça melhor!
- Farei! -Henrique pegou uma lata. - Tem uma lanterna para mim? -ele pegou uma na bolsa e deu para o homem, que encarou a parede e começou a desenhar algo.
- O que é isso?
Perguntou vendo um borrão cinza com cara de reprovação, Henrique se afastou e olhou para o que ele mesmo tinha feito, nem notou o que estava fazendo, mas aquilo era tudo o que havia em sua mente, não havia cores de alegria, ou formas criativas, apenas um borrão cinza, seu vazio pareceu maior do que ele imaginava.
- Minha vida.
- Nossa, sua vida é tão... Cinza... -afirmou sem conseguir encontrar palavra melhor.
- Pois é.
- Vamos dar um pouco mais de cor a ela! -disse animado pegando uma lata azul e passando no cinza, mas como não prestou muita atenção onde estava mirando, acabou pintando Henrique junto.
- Meu terno já estava destruído! -gritou tentando limpar a sujeira.
- Desculpa! -pediu rindo, Henrique ficou bravo largou a lanterna pegou uma lata de tinta rosa e outra vermelha. - O que vai fazer com isso?
- Vem aqui! -ele começou a jogar as cores em qualquer direção a qual achasse que o rapaz estava.
- Não!
Esquecendo sua preocupação em estar num lugar completamente desconhecido, Henrique começou a rir no meio da guerra de cores, já que o rapaz também pegou latas de tinta e começou a tentar pintar o homem, naquele momento não havia nenhuma agonia, ou medo, apenas o som das risadas, enquanto as cores eram lançadas para todos os lados.
- Você está me sujando todo, seu maluco!
- Você também! -eles só pararam, quando a tinta acabou e Henrique pulou em cima do jovem.
- Chega! -pediu o abraçando forte e se encostando na parede, eles não conseguiam parar de rir, o rapaz pegou a lanterna do chão e apontou para os arredores, que estavam lindamente cobertos de várias cores de tinta.
- Até que fizemos um bom trabalho. -Henrique encarou ele, balançando a cabeça em forma de reprovação, mas sem conseguir tirar o riso de seu rosto, não acreditava naquele momento, talvez fosse apenas um bom sonho, um delírio causado pela bebida.
- Acho que isso é um sonho muito louco, que estou tendo.
- Não, eu saberia se fosse fruto da imaginação de alguém.
- Já está tarde, agora podemos sair daqui?
- Antes, tire uma foto minha. -ele deu um celular para o homem e se posicionou na frente do primeiro desenho que estava tentando fazer, Henrique tirou a foto.
- Pronto, agora vamos!
Com muita dificuldade, conseguiram subir pela parte do chão que caiu, ela era toda de ferro com um alçapão que puderam ver melhor enquanto subiam e juntos foram até o portão, Henrique decidiu pular primeiro para evitar bater o ombro de novo, quando o rapaz estava pulando, dois policiais que estavam andando na rua, viram eles e correram, Henrique puxou o jovem quase o pegando no colo e ajudando a chegar ao chão, juntos dispararam na rua feito dois malucos, enquanto os polícias gritavam dando ordem para parar.
- Não acredito que estou fugindo da polícia!-disse rindo e quase perdendo o fôlego de tão rápido que estavam correndo, enquanto o sol estava prestes a raiar.
- Se formos pegos, não vai querer acreditar mesmo, vêm!
O rapaz guiou ele até um beco, depois para outro e mais um... até que não conseguiam mais ver os policiais, Henrique parou enquanto ele ia verificar se ainda estavam sendo seguidos, para sorte deles os polícias estavam a pé e não tinham uma forma física que os permitia correr tão rápido por tanto tempo.
- Acho que eles nos perderam de vista! -afirmou ofegante.
- Ainda bem... -eles sorriram um para o outro, eram meros desconhecidos, mas de alguma forma o pequeno momento em que tiveram, foi o suficiente, para os fazer se sentirem próximos como velhos amigos de infância. - Obrigado, essa noite foi uma das mais emocionantes da minha vida!
- De nada! -o rapaz começou a andar.
- Espera, onde vai?!
- Embora!
- Mas você nem me disse seu nome, ou me passou algum contato.
- Para que?
Henrique se sentiu um pouco ridículo, afinal havia acabado de conhecer aquele rapaz, que provavelmente vivia como um clássico delinquente, por que iria querer algum contato com ele? Mas algo dentro dele precisava saber mais daquela pessoa, que o fez terminar a madrugada colorido por dentro e por fora, definitivamente ele parecia alguém com quem ele queria conversar mais sobre tudo.
- Não vamos nos ver mais?
- Não sei, sou uma pessoa livre, mas talvez, amanhã eu esteja na frente do shopping a meia noite.
O rapaz o encarou, deu um sorrisinho de garoto atentado e saiu correndo, Henrique sorriu, olhou os estragos em sua roupa, tentou associar em sua mente tudo o que havia acontecido, mas só conseguia rir e andar para a outra direção, enquanto o sol começava a raiar no horizonte, ele não fazia ideia do que era aquela sensação, só sabia que era bom e queria sentir de novo.