Parte XXVII

2598 Words
Emily estava animada para sua primeira exposição, que seria em janeiro. E a neve caia sobre a cidade de Londres, cobrindo o gramado do jardim de Emily e ela não poderia mais ficar do lado de fora. O que a irritava muito. Resolveu cuidar das suas plantas na estufa, que havia sido feita por ser pai. O lugar estava um desastre, precisando de uma boa limpeza. Ela não entrava ali fazia um ano, pois se recordava do seu pai, sempre que entrava. Mas, dessa vez, iria fazer esse esforço, pois precisa ocupar sua mente. A pintura era uma válvula de escape para ela, mas isso não lhe apagava os olhos intensos de Perseu, que insistiam em aparecer em sua mente ou nos seus sonhos. Eles não se comunicavam mais, nem por cartas. Parecia um acordo tácito de que deveriam se afastar. Ela, por razões óbvios, iria se casar com Adam. E ele, ela não saberia dizer. Mas, de algum modo, isso a machucava profundamente. O silêncio de Perseu a feria. Contudo, ela não poderia reclamar. Ela havia escolhido o dever. Havia escolhido honrar seu compromisso com Adam. E o amava de uma maneira especial. Não era a mesma sensação que Perseu provocava em seu peito. O músico a deixava a flor da pele, sentindo uma paixão que parecia consumi-la de dentro para fora. Adam já era uma brisa leve no verão sobre sua pele. Ele a fazia pensar, refletir e discutiam sobre vários assuntos. Quando esteve ao lado de Perseu, parecia que seus diálogos eram cobertos de uma paixão inflamada. Ele era entusiasmado e transmitia isso para ela, fazia-a sonhar e vislumbrar um mundo novo. E quando a olhava, ela se sentia tocada. E apenas com seus olhos, ele demonstrava o quanto a desejava. E isso deixava Emily confusa. Ela não queria sentir aquelas sensações, mas sentia. Então, Emily resolveu sair de casa e enfrentar o frio e entrou na estufa, no fundo da casa. Precisava se distrair. Já que não tocava mais na orquestra, Mikael havia saído, seu noivo estava na universidade e sua mãe estava em um chá com uma amiga, ela resolveu cuidar do lugar que amava. Era seu lugar preferido, que esqueceu completamente. Mas, por seu pai, iria cuidar de tudo. Pegou um balde com água, panos, esponjas, sabão em pedra e uma vassoura. Antes de sair de casa, colocou um vestido velho e cinza, amarrou os cabelos e colocou um lenço sobre a cabeça e outro sobre a boca. Como estava fechada a estufa, deveria estar cheia de mofo e **. Ela abriu a porta de vidro do local e já sentiu o cheiro acre invadir suas narinas, mesmo estando com o nariz e boca cobertos. Estava cheia de teias de aranha, sujeira no chão e nas prateleiras. Havia vários vasos no chão, sobre uma mesa de madeira de carvalho e penduradas no teto. Algumas plantas já estavam mortas, o que fez Emily sentir remorso. Ela descuidou de tudo, por tanto tempo, apenas focando no lado de fora do jardim. Mas, iria compensar. Faria daquele lugar seu refugio novamente. Manteria seu pai vivo naquele lugar. Seria seu santuário. E começou a limpeza, retirar as teias de aranha, gritando por ver alguns andando pelo chão. E jogou água no chão, esfregou, limpou as prateleiras. Não sabia quanto tempo passou ali, mas já estava suada e pegajosa. Estava cansada e se apoiou na vassoura, pensando o quanto ainda teria que fazer. Uma aranha andava para longe dela, parecendo correr por sua vida. - Aranha estúpida – ela disse, rindo – Eu não vou m***r você. Eu tenho mais de você, do que você de mim, sua tola! - Falando sozinha, Emily? – perguntou Perseu. Ela se sobressaltou ao ouvir sua voz de veludo. Seu coração queria sair pela boca. Sentia-se tremula, apenas por vê-lo ali, parado, sem entrar na estufa. Ele segurava a cartola na mão e estava com seu sobretudo n***o, até os joelhos. Seu rosto estava abatido, como se não dormisse há dias. - Eu não estava. Estava falando com uma aranha – ela explicou se sentindo tola ao ouvir sua própria explicação – Tudo bem, você deve achar que sou louca. Ele riu. Deu alguns passos para frente, entrando na estufa. Manteve a distância e isso fez Emily se sentir vazia. Queria abraça-lo, desejava seu beijo. Mas, se conteve. - Não a acho louca, Emily – ele discordou, fitando-a com intensidade. Olhou-a de cima a baixo – Às vezes, quando estamos sozinhos, precisamos falar. Se não é como nossos próprios pensamentos, será com outras coisas que estiverem ao nosso redor. Ela assentiu. - Devo concordar com seu argumento, Perseu – ela disse, se sentindo estranha em proferir seu nome. Era algo muito intimo, mas não havia volta – E realmente, me senti sozinha esses dias. Eu me sentia vazia. Acho que me sinto assim há um longo tempo. Ele deu mais alguns passos, ficando próximo dela. Ela sentiu sua respiração falhar. - Não está sozinha, Emily – ele disse com ternura – Você tem sua família, amigos. Adam – ele proferiu o nome do irmão com raiva contida – E tem a mim. - Não posso ter você – ela disse, sentindo a agonia invadir seu peito – Sabe que não iremos conseguir agir normal, depois do que aconteceu naquela sala. Ele fechou os olhos, parecendo sentir dor, pois sua expressão demonstrava isso. Abriu novamente, tocando o rosto dela. - Eu sei, acredite. Para mim, não estar perto de você é um martírio – ele murmurou. Ela deixou o seu rosto descansar sobre a palma dele – Mas, estar distante, não é uma opção para mim. Se não posso ter você, como desejo, então, seja minha amiga. Ela se afastou do seu toque. - Eu não sei, Perseu – ela disse, se sentindo confusa – Eu não sei se posso fingir isso. Eu não sei mais o que eu quero. Ele a segurou pelo cotovelo, fazendo-a se aproximar mais dele. Seus rostos estavam centímetros um do outro. - Por que não desiste desse casamento, Emily? – ele perguntou, com agonia em sua voz – Fique comigo. Eu sei que posso fazê-la feliz. Era uma proposta tentadora. Mas, que felicidade ela teria com ele? Sabia do seu lado libertino. Logo, ele iria enjoar dela, esquece-la e se envolver com outras mulheres. E havia feito uma promessa a Adam. Iria cumpri-la. Apesar disso, não conseguiu negar a caricia dele e seu rosto. Ele beijou sua testa e ela pode ouvi-la suspirar. Ela estava tremendo devido ao seu toque. - Eu não posso Perseu – ela negou – Eu não posso fazer isso com Adam. Ele não merece isso e eu sei que você está apenas brincando comigo. Ele pareceu ofendido, pois a soltou. Ela se abraçou, se sentindo vazia. - Eu não estou brincando com você, Emily – ele disse em tom magoado – Eu não faria tal coisa com você. Ela riu, sem humor. - Bem, eu sei da sua índole, Perseu – ela disse amarga – Eu sei que você está tendo me impressionar. E saiba que isso não é algo que se faz. Não pode despertar essas sensações que tenho por você. Não pode fazer com que eu me apaixone por você...não pode...- ela se calou, vendo a expressão dele. Era de uma fúria contida. Ele apertava seu maxilar e os punhos. Ela também se sentia furiosa, pois não queria sentir isso, não queria estar se apaixonando por ele – Por que eu, Perseu?  Por quê? Eu não compreendo. Você poderia qualquer mulher que desejasse... Ele avançou sobre ela, segurando seu rosto. Ela se assustou com seu toque abrupto. - Eu não me importo com outras mulheres Emily – ele a interrompeu. Seus olhos azuis pareciam aflitos – Eu não me importo com mais ninguém, a não ser você. Não estou brincando com seus sentimentos. Eu a amo. Amo mais que minha vida miserável, mas que tudo que eu já senti por alguém...Eu não sei como provar isso para você, Emily, mas estou disposto a fazer qualquer coisa – ele a beija nos lábios, apertando sua cintura. Ela retribuiu, se sentindo envolvida por seus lábios e suas caricias. Contudo, ela se afasta, pois sabe que está indo contra suas próprias ideias. - Não...não podemos, Perseu...é errado – ela sussurrou. Ele aperta o maxilar, respirando fundo. - Você não precisa se forçar a casar, Emily – ele insistiu, parecendo controlar a própria contrariedade – Não se case para ser infeliz. Não faça isso com você. Não há necessidade de cumprir uma promessa tola, Emily. Isso só vai lhe trazer infelicidade – ela o fita com magoa – Não, não me olhe assim. Você sabe que é verdade. Eu tenho certeza que Adam não lhe causa o que eu dou a você. Emily, você retribuiu minhas caricias com ardor e não vejo isso entre você e Adam. Vocês parecem amigos, não um casal apaixonado... - Pare! – ela gritou, colocando as mãos nos ouvidos. Não desejava escutar aquilo, não desejava pensar – Pare de dizer coisas que não sabe – ela disse, entredentes – Você não sabe o que sinto, não me conhece...isso foi um erro, um erro terrível... Perseu parou ao lado dela, erguendo seu queixo. Ela segurava as lágrimas e seus olhos castanhos estavam avermelhados. - O que foi um erro, Emily? – ele perguntou, sem demonstrar emoção. Ela não respondeu sua pergunta, apenas o fitava, com raiva – Foi um erro me beijar? Um erro sentir prazer? É um erro querer ser feliz? Eu não entendo isso...eu não entendo sua moral, Emily. Eu não compreendo o motivo para se martirizar tanto. Ao se casar, você irá trazer infelicidade para si mesma, para Adam também. É isso que quer? Ser uma mulher adultera, com o passar dos anos, porque não encontra a felicidade no próprio matrimonio... Ela se afastou dele, desferindo um t**a em seu rosto. A expressão de Perseu era de espanto e depois, alterou para cinismo. - Você é hipócrita, Emily – ele provocou, apertando os punhos. Somente isso denunciava sua contrariedade e nervosismo – Você está tentando proteger a si mesma, me condenando por meus atos, como se eu fosse o culpado. Mas, não se preocupe, eu não irei tirar isso de você. Ele se virou e estava saindo, mas ele o segurou pela manga. Ele se virou a fitando com dureza. Isso a assustou, pois não era acostumada com aquele olhar. Era algo que não havia conhecido nele. Era seu cinismo e sarcasmo. Mas, sentia em seu intimo que ele estava se protegendo. - Perseu, me perdoe – ela disse, tentando manter a voz mansa – Eu não quis ofende-lo... eu não quis... Ele suavizou a expressão, parecendo mais calmo. - Emily... – ele murmurou, se virando para ela – Eu não sou sua melhor escolha e às vezes posso ser um pouco cínico, ou por vezes sarcástico. E por vezes, posso falar coisas que não a agradam, como agora. Mas, tente compreender que se esconder dentro de si mesma, negado seus desejos, não trarão nenhum beneficio a você. Os argumentos dele eram validos, mas e o sentimentos alheios, aquele que ela despertou em Adam? E o respeito por seu noivo, onde estaria? Ela o humilharia em publico, cancelando seu noivado, para viver uma paixão? - Não n**o que estou apaixonada por você – ela disse, sentindo-se leve ao constatar isso – Não n**o que você me envolve. Mas, e os sentimentos de Adam? Como posso pisar neles e esquecer minhas promessas? Isso não me é possível. Eu não sou assim, eu não dou as costas para aqueles que amo e respeito. E nesse momento, estou desrespeitando ele. Perseu suspirou, cansado. - Não há nada que eu diga que a fara mudar de ideia? – ele perguntou. - Não. É melhor esquecer o que fizemos – ela respondeu, veemente. - Então, acho que isso é um adeus, Emily – ele disse, com um olhar vazio. Ele se virou, deixando Emily desconsolada. Ela se abraçou, sentindo seu corpo inteiro tremer, devidos aos soluços. Sabia que o que fazia era o certo. Escolheu seu dever, ao invés de um sentimento desgovernado, que parecia comandar toda sua vida, lhe tirando a racionalidade. Ela se apoiou na mesa a sua frente, tentando respirar fundo, mas era como se o ar lhe faltasse. Perseu não havia saído da propriedade dela. Estava a ouvindo chorar. Ele não sabia que se poderia suportar aquilo. Sua vontade era dizer a Adam que amava Emily, para que o mesmo rompesse o noivado. Assim, ela ficaria livre e o escolheria. Mas, ela com sua maldita visão de dever e responsabilidade o fazia ter remorso. Não conseguia entender como uma mulher havia conseguido lhe colocar um freio em suas ações libertinas. E ouvi-la chorar, lhe era pior, pois queria conforta-la, dizer que tudo ficaria bem. Mas, como? Ela escolheu Adam, não a ele. Perseu não poderia ser seu amigo. Não era isso que desejava. Queria a para si. Deseja seu corpo, sua mente, sua alma. Desejava ouvi-la, desejava vê-la pintar, desejava vê-la tocar seu violino, desejava vê-la acordar pelas manhãs, com os cabelos longos e negros espalhados no travesseiro, com seu rosto levemente inchado por ter dormido. Desejava f********r com ela e lhe dar prazer. O prazer que ela merecia e se negava a isso. Até mesmo, se casaria com Emily, para que ela não se sentisse tão culpada perante os olhos de Deus. Um Deus que ele não acreditava que apenas lhe julgava e dizia o fazia sentir culpa. Odiava a sensação de culpa, não gostava de refletir sobre seus atos. Não faria qualquer penitencia para ser perdoado. Não desejava qualquer perdão, pois nada fizera de errado. Mas, Emily o fez repensar e rever toda sua vida. Estava mergulhado em seu próprio inferno pessoal e gostava daquela sensação. Gostava de fazer o que fazia. Gostava de beber, ter as mulheres que desejasse. Gostava de jogar, sempre que desejasse, de tocar suas músicas e compor. E se deliciava ao ver os esposos das suas amantes descobrirem que era ele que dormia com elas. Gostou de ver a fúria nos olhos de Ashbourne, querendo mata-lo e ainda tentando, de todas as maneiras, mas sempre falhava. Mas, Emily, ela se infiltrava em sua cabeça e dizia que o que ele estava fazendo era errado. Ela e sua moral, dizendo que seus passos só traziam destruição e infelicidade para as pessoas. Dizendo que devia ter empatia, dizendo...ele não sabia mais o que pensar. E quando ouviu a parar de chorar, se retirou e foi embora. Dispensou a carruagem e foi a pé para sua casa. Era uma caminhada longa, mas precisava sentir o ar gelado daquela cidade. Precisava espairecer. Para sua sorte, não neve, para o frio era cortante. Fechou o casaco e cobriu sua cabeça com a cartola. E pensava se valeria a pena ou não acabar com a felicidade o seu irmão, para ter Emily. Será que ela valeria tudo isso?, pensou. Não que se importasse com seu irmão. Não, se importava apenas com Emily. Mas, ela o rechaçou pela segunda vez. E ele tinha seu orgulho. Talvez, pensou com raiva, ela que sofresse por estar casada. Se deseja tanto ser puritana. Mas, logo, mudou seus pensamentos. Como faria para esquecê-la? Nada parecia fazer sentindo, nada! Mas, a não ser que entrasse na igreja e interrompe-se a cerimonia no momento certo. Logo descartou a ideia. Emily não o perdoaria e a perderia do mesmo modo. Teria que haver uma saída, precisava ter. Era só nisso que confiava.  
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD