Parte XXVI

2551 Words
  É justo ou moral trair a confiança de outrem? É justo virar as costas para aqueles que juramos amar tanto? Emily escreveu aquelas palavras em uma folha e relia pela terceira vez. Não sabia a resposta, somente sabia o que a bíblia dizia. O que os dez mandamentos diziam. Não mataras, não adulterarás...lia em sua bíblia. Sublinhou aquele mandamento. Sabia que havia cometido algo muito grave contra Adam. Que não devia ter aceitado aquele beijo, que nem ao menos deveria ter aceitado a amizade de Perseu. Não era tola. Sabia que ele flertava com ela. E fingia não saber, fechava os olhos para as advertências. Se acreditava na bíblia? Não muito. Seus pais lhe ensinaram o básico. Eles frequentavam a igreja todo domingo. E ouviam os sermões. Mas, se ela acreditava em tudo que se dizia? A resposta era não. Ela apenas fazia o que gostaria que os outros lhe fizessem. Assim como seu pai sempre frisava. E isso era muito válido. Mas, mesmo sabendo disso, daquela vez, havia cometido sua primeira falta. E sentia culpa por isso. Seu coração se condoía. Sua mente lhe acusava de ser traidora, de agir pelas costas de Adam. Ela seria digna de se casar com ele? Ela não sabia. E para extravasar sua vergonha, pintou. E pintou o rosto de Perseu, as escondidas no seu quarto, para limpar sua consciência. E em seu desenho, ele lhe estendia a mão em um caminho escuro e no outro, Adam lhe estendia a mão para seguir um caminho florido. Aquilo lhe era curioso. Pois, quando pintava, só pensava no rosto de Perseu e deixou o pincel a guia-la. Assim que terminou, deixou o quadro escondido sobre um lençol. E trancava a porta do seu quarto, sempre que saia. Sentia em seu peito um vazio enorme. Não ia mais para o teatro, pois temia ver Perseu e falhar no seu dever. Adam era o homem que desejou. Era seu ideal e iria cumprir sua palavra. O amava, de verdade, mas não sentia o sentimento que nutrira por Perseu, algo mais forte e latente. Ela não queria dizer o que sentia, não iria colocar nome a isso, apenas iria esquecer. Um dia, quem sabe, um dia, diria a Adam o que havia acontecido naquela sala, mas naquele momento, seu planejamento era se casar com ele e ter uma vida feliz. E Adam, como prometerá, falou com seu pai sobre o desejo de Emily em pintar e expor seus quadros. Lorde Derby havia conseguido um patrocinador para ela e ele mesmo iria ajuda-la. Estava contente por ajudar sua nora e faria isso. Olhava para Emily e via Martim e Flora, uma mistura bonita e graciosa. E como amou Flora um dia, pensava, enquanto conversava com Adam e Emily. Hoje, seu olhar se voltava para Leticia, toda sua devoção era por ela, mas até esquecer Flora, demorou muito tempo. Quando se conheceram, de fato, ele tinha vinte anos e ela dezesseis. Tiveram um noivado de dois anos, pois ela havia pedido aquele tempo para conhece-lo. Não queria casar sem amor e ele havia aceitado. Mas, não havia percebido, ela já estava apaixonada por Martim. Como amaldiçoa aquele dia. E quando ela rompeu o noivado, fugindo com o advogado, ele sentiu traído. Queria que ela fosse infeliz. E em um baile, onde estava apenas por obrigação, pois seus amigos haviam lhe arrastado, ele viu Leticia, com seus cabelos loiros e olhos azuis como o céu. Ele, no começo, apenas sentiu certa admiração. Mas, eles foram se aproximando, pois seu pai era próximo do pai dela. E eles se viam em jantares, até o momento que se via apaixonado por ela. E o dia mais feliz da sua vida, fora, há vinte oito anos atrás quando havia nascido seus filhos. Nunca havia imagino que teria dois de uma só vez. Mas, para ele, era sua alegria. E pensava em Flora. O quanto ela havia sido sua amiga, ou deixa-lo livre, para ser feliz, ao invés de condena-los a um casamento sem amor. E agora, faria de tudo para ajudar sua nora. Iria compensar a felicidade que tinha através daquilo, fazendo por sua filha o que ela havia feito por ele, o libertando. Despediu-se de Adam e Emily, no final da tarde, com tudo resolvido e pensou naqueles momentos em que havia vivido, há tantos anos atrás. Como era apaixonado por Flora, por seus sorrisos e por seus cabelos dourados. Passar as tardes com ela conversando e a conhecendo foi algo muito importante para ele. E saber que havia um compromisso firmado o fez ter mais alegria. Mas, notou que ela não tinha os mesmos sentimentos. Flashback Charles - Você gosta de plantas, Flora – Charles disse, vendo-a cuidar do seu jardim, mesmo ela tendo um jardineiro para fazer isso. Flora inspecionava as plantas todos os dias – Deveria estar passeando no Hide Park, ou até mesmo saindo para ir às compras na Picadilly. Flora riu. - Charles, eu não sou como as outras damas – ela explica, terminando de transplantar uma rosa amarela. Ela havia retirado do vaso de barro e colocou no canteiro especialmente preparado para isso – Eu gosto das plantas, converso com elas. E elas me acalmam, entende? Charles franziu o cenho. Achava aquilo muito estranho, mas não poderia critica-la por se sentir bem com isso. Ela não tinha muitas amigas, pois o visconde Severn era um p********o e as damas eram proibidas de estar na residência de Flora. Então, ela era solitária, desde que sua mãe morrera. E seu debute seria no ano seguinte, pois ela ainda tinha dezesseis anos. - Flora, é admirável sua forma de pensar – ele disse, com um sorriso – Eu realmente me encanto por sua doçura. Mas, deveria estar lá fora, aproveitando sua juventude. Vamos comigo passear? Gostaria de levar você ao Gunter’s e tomar um sorvete, que tal? Ela parecia refletir sobre a proposta. Limpou suas mãos cheias de terras. - Pode sair com uma dama suja? – ela provocou, se aproximando dele com as mãos. Ele deu um passo atrás. - Espere, Flora, nem pense nisso – ele advertiu – Essa roupa é nova, se você sujar, vai ter consequências... Ela ignorou as advertências dele e se aproximou rapidamente, tocando na camisa branca dele, manchando-a de terra. Charles a fulminou com o olhar e iria alcança-la, para revidar, mas ela saiu correndo em disparado. Ele correu atrás dela, pedindo para que parasse. E ela parou, assim que esbarrou e derrubou o advogado do seu pai, Martim Leblanc. - Oh, senhor, me perdoe eu...- ela balbuciou. Charles a ajudou a levantar do chão e puxou Martim. E percebeu que ela estava ruborizada ao ver o advogado, mas na época, ele não sabia que ela já nutria sentimentos por ele. - Não se preocupe – disse Martim, sorrindo e limpando suas vestes – Eu estava distraído e não percebi que vinha na direção contrária. Charles notou que a camisa de Martim estava manchada, mas o mesmo não se manifestou. - Bom, até logo...devo ir – ele disse e se retira, se dirigindo até o portão da residência. Flora o observava, com um olhar estranho, Charles notou. - Agora que fez esse papelão, Flora, você está convocada a sair comigo – ele disse, de bom humor, mas notou que Flora não tinha escutado – Flora? - Ah, perdão – ela disse, com um olhar embevecido – O que disse? - Vamos tomar o sorvete? – ele pergunta, já sem animo. - É claro, vou me trocar. Entre para trocar sua camisa, primo – ela disse, se virando para ele. E passaram a tarde juntos, se divertindo e conversando, mas ele notava que Flora estava distante, como se pensasse em algo. E intensificou seu cortejo ao decorrer das semanas, depois meses, mas ela não parecia corresponder aos seus sentimentos. E um dia ela confessou estar apaixonada por outra pessoa. - Mas, como...Flora, nós iremos nos casar – ele diz, desconsertado. - Eu sei, Charles – ela diz, triste – Mas, eu não o amo assim. Precisamos romper esse compromisso. Ele ficou enfurecido, não aceitava ser rechaçado. Sentia que a amava e a queria para si. Não iria tolerar isso. Segurou-a pelos braços, fazendo Flora se aproximar dele, de uma maneira que nunca havia feito antes. - Não vai romper nosso compromisso – ele disse veemente. O olhar dela era de assombro – Não vai se afastar de mim, Flora. Eu sei que não me ama agora, mas vai amar...eu posso lhe dar tudo... Ela se desvencilhou dele. - Não, de maneira alguma, Charles. Entenda que não o amo, e acredito que você também não. Apenas não quer perder. Eu conheço você e sei que está ferido em seu orgulho. Mas, com o tempo verá que não seria feliz comigo... Ele n**a com a cabeça, sabia que seria feliz com ela, pois Flora era encantadora e bondosa. Tão diferente de muitas damas que conheceu. Charles a tomou pela cintura e beijou seus lábios. - Flora, diz que não sente nada, se não sentir, então eu... - Por favor, não faça mais isso – ela interrompeu-o, empurrando ele – Não me toques mais, Charles. Nunca mais, entendeu? Ela não lhe deu tempo de resposta e saiu correndo do jardim. Ele se sentiu ultrajado e exigiu do seu tio que fizesse alguma coisa. - É claro que ela se casará com você, Charles. Seria uma tola se não me obedecesse – disse Severn – Eu mesmo irei conversar com ela. Contudo, Charles descobriu, para seu desgosto, que Flora havia fugido com Martim. E compreendeu que ela já havia se apaixonado por ele, há muito tempo atrás. E havia lhe enviado uma carta, pedindo perdão e dizendo que se casaria com Martim, pois era com ele que seria feliz. Charles ficou devastado e ao mesmo tempo com raiva de todos. E passou a viver apenas por seu dever. Não era dado a vícios, nem dramatizações e isso o fez se tornar frio e arrogante. Tudo mudou em sua vida, quando avistou a filha de lorde Chartres em um baile. Leticia estava trajada com um vestido de baile, de cor turquesa, com seus cabelos emoldurados em cachos, parecendo um anjo. Ele queria se aproximar, mas havia muitos pretendentes. E isso o fez refrear, pois não queria lutar por a atenção de uma dama, da mesma maneira que fez por Flora, mesmo não sabendo a principio que estava investindo em um amor que não era reciproco. E por isso, ignorou totalmente Leticia, apenas a cumprimentou, pois foi apresentado a ela. E resolveu apenas caminhar no jardim, quando Leticia vinha na direção contrária. Ela esbarrou nele e pediu desculpas. Parecia em desespero, o que o deixou curioso. - Espere, senhorita – ele diz, segurando-a pelo cotovelo – Por que a pressa? Aconteceu alguma coisa? Ela o fitou com os olhos arregalados. - Eu...bem...nada...- ela parecia amedrontada. Ele viu ao longe um cavaleiro entrar na mansão e a fitou. Ela ter tido um encontro com outro homem aquela noite. Mas, pela sua expressão, não fora do seu agrado. - A senhorita está bem? –ele pergunta – Está muito pálida. Ela assente. Mas, seus lábios tremiam. - O senhor poderia me soltar? – ela pede. Charles estava relutante em deixa-la partir. Algo parecia lhe dizer que não deveria tirar os olhos dela. - Não nos conhecemos, senhorita, mas eu gostaria de acompanha-la até o salão, novamente, tudo bem? – ele propõe – A senhorita entrara primeiro. Logo em seguida eu farei o mesmo. Espere na mesa de bebidas, está bem? Leticia apenas acena e sai andando. Ele a observa e vê que seus ombros estão encolhidos. Pensa no que o canalha daquele cavaleiro que saiu por entre as árvores poderia ter feito a ela. E só pode imaginar o pior. Passando alguns minutos, ele retorna e vai até a mesa, casualmente e se serve de uma limonada. E ela estava lá, conforme haviam combinado. - Obrigada – ela diz, sem fita-lo. - Não há de que, senhorita. E se me permite sugerir, fique aqui dentro, sim? – ela assente – Que tal, dançarmos? Sei que a senhorita não parece bem para isso, mas talvez isso lhe distraia. Ela sorri, fracamente. - Eu aceito, senhor – ela responde, com um sorriso, colocando a mão no braço dele. Eles vão para a pista e valsam. E Charles começa a conversar com ela amenidades, tentando distrai-la. Ela lhe respondia algumas coisas, mas estava distraída, sempre olhando para os lados. E logo que a noite terminou, ele sentiu em seu ser que queria conhece-la mais. Ela não parecia fútil. A primeira vista, sim, mas agora, ela parecia muito diferente. Era tímida e graciosa. E começou a corteja-la, com a permissão de lorde Chartres. Sabia que poderia estar se enganando, mas Leticia aceitava seus avanços. Até que, conforme os meses iam passando, ele resolveu oficializar o pedido de noivado. Ela aceitou, entusiasmada, muito diferente de como foi com sua prima Flora. E ele, mesmo achando que estava apenas deslumbrado pela beleza e intelecto de Leticia, passou a ama-la. E em sua paixão desenfreada, acabou apressando tudo, em um baile. Ele já não suportava mais ter que esperar tantos meses para se casar e a desejava imensamente. Fez amor com ela em uma sala de música da residência de lady e lorde Moltram. E ali conceberem seus dois filhos. - Agora podemos apressar esse casamento – ele diz, rindo, abotoando a camisa e ajudando-a arrumar seu vestido. Ela morde os lábios, nervosa. Vestiu seu traje de baile, de cor azul e Charles a ajudou a fechar seus botões. - Seria um escândalo adiantar o casamento, Charles – ela diz. Ele a trás para perto de si e beija seus lábios. - Mas, talvez, você já esteja grávida e eu não suporto mais ter que esperar – ela ri – Isso, zombe de mim. Sempre que vou vê-la, você está acompanhada – ele suspira e beija seu pescoço – E sempre que quero tocar você, sua dama de companhia está por perto. Isso é frustrante – ele faz uma trilha de beijos e desce para o b***o dela, fazendo-a arfar – Então, vamos apressar isso, o quanto antes. E finalmente eles se casaram e tiveram sua família. Parecia que nada iria trazer infelicidade a eles. Talvez, Perseu, que era sempre problemático e com uma péssima reputação. Isso incomodava Charles, pois nunca fora daquela maneira. Mas, amava seu filho mais que tudo. Amava sua família acima de tudo. Fim do flashback Charles apoiava suas mãos do parapeito da sacada, fitando a rua, vendo as carruagens irem e virem. Como se sentia realizado e tranquilo. Lembrar-se do passado era algo bom. Deveria visitar Flora e tentar melhorar a situação deles. Apesar de seu filho estar casando com Emily, eles não se falavam apenas se tratavam com cordialidade. - Querido? – disse Leticia, colocando a mão em seu braço. Ele sorriu, fitando sua esposa. - Sim? – ele perguntou. - Está pensativo. Achei que viria tomar chá comigo – ela disse, beijando seu rosto. Ele envolveu seu braço na cintura dela, beijando o topo da sua cabeça. - Estava apenas pensando...- ele murmurou. - E pensando no quê? – ela indagou curiosa. - O quanto minha vida é perfeita – ele respondeu.
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