Emily deveria entrar mais uma vez na igreja. E estava cansada. Eles reservaram St. James para fazer o ensaio, pois duas semanas. O casamento iria ser no dia 21 de dezembro. E ela não entendia a pressa para isso. Não compreendia todos aqueles preparativos, mas sua mãe, sogra, amiga e até mesmo William, havia dito que era importante. E o mais estranho para ela era ver Perseu, como padrinho. Perto do altar. Ele tinha um olhar distante e inexpressivo. Sempre que seus olhares se cruzam, ele parecia transmitir dor. E normalmente, aparecia no ensaio emanando um cheiro forte de whisky e charuto. Ele não trocava qualquer palavra com ela. Pois mais que ela tentasse. Não deveria fazer isso, ela sabia que não. Mas, não conseguia. Eles trocavam bilhetes, na maioria das vezes. Ele dizia o quanto estava desanimado e sem proposito. Ela tentava anima-lo, mas não fazia efeito algum. Ele continuava com o mesmo semblante abatido naquelas duas semanas de ensaio. E aquele dia seria o último.
- É sua vez, Emily – disse lady Derby – Entre o mais era possível e segure o buque de frésias assim – ela mostrou, segurando o buque, entre suas mãos, na altura do peito – Está vendo?
Emily assente, cansada.
- Está quase acabando, querida. Só precisa segurar como lhe disse, agora vá.
Emily faz isso, pela quinta vez, naquele dia. Pensava se valeria tanto o esforço se casar com Adam. Teria que seguir tantas etiquetas sociais assim? Suspirou, e seguiu até o altar. Viu, Adam e a direita dele, Perseu. Sentiu sua boca seca. Perseu a fitava com intensidade, dessa vez. Parecia querer dizer algo. E isso estava embaralhando sua mente. Ela não sabia se estava fazendo o correto ao se casar com Adam, mas quando olhou para ele, sentiu uma segurança, que não sentia ao lado de Perseu. Ele era misterioso, cheio de segredos e alguém que, mesmo sendo seu amigo, sentia que havia uma profundidade. E ela temia conhecer mais de perto.
Ela foi até Adam e começaram mais uma vez a cerimonia. E trocaram as alianças, que Perseu entregou, sem qualquer expressão ao irmão. Adam colocou a aliança no dedo de Emily, assim que ela disse aceito. E para finalizar o ensaio da cerimonia, ele beijou seus lábios, com recato.
Emily suspirou aliviada quando o ensaio terminou. Retirou o véu improvisado dos cabelos e andou para fora da igreja, vendo a neve cair sobre a calçada e começou a girar. Parecia dançar sobre a neve. Gostava daquele sensação. E foi assim que Perseu a encontrou. Seu coração disparou ao vê-la. Ela parecia um anjo, com sua inocência e beleza. Quando seus olhares se encontraram, ele sentiu algo novo dentro do seu ser. Ele não queria vê-la se casar com Adam. Não suportava vê-la sendo tocada por ele. Não suportava fazer parte daquilo. Não podia dizer nada, no momento, pois a família toda saia da igreja. Emily estava ruborizada, mas não era pelo frio. Contudo, ninguém havia percebido.
Devido a neve que começava a cair, todos fora para a mansão Derby. Adam foi junto a sua noiva, em seu carro. Mikael e Flora em uma carruagem. E lady e lorde derby em outra. Perseu informou que já iria encontra-los e andou sozinho pelas ruas de Londres, para demorar o quanto pudesse. Não suportava ver aquele quadro de felicidade. E sua mente não parecia lhe dar paz. A cada olhar que trocava com Emily, cada palavra, o remorso lhe batia fundo em sua alma. Lembrava-se do seu irmão dizendo o quanto se orgulhava dele e o quanto isso deixava Perseu se sentindo miserável.
E a neve caia mais forte, molhando seus cabelos e enregelando seu corpo, mas não seus sentimentos. Ele queria esquece-la. Queria poder afogar sua dor no corpo de uma mulher qualquer, mas isso não lhe bastava, não lhe curava. Nem o maldito whisky fazia esse trabalho. E não havia qualquer amante, fazia semanas a fio. Ele não conseguia se deitar com qualquer mulher. Sentia o quanto aquilo era mecânico e vazio.
E ao chegar a mansão Derby, estava congelado até os ossos. Mas, pelo menos, não precisava mais mergulhar em autopiedade. O frio calou seus pensamentos. O mordomo, ao abrir a porta da residência, viu o estado de Perseu e já o encaminhou para uma sala que havia uma lareira acesa. E Perseu ficou ali, até se sentir melhor, olhando o fogo crepitar, tomando um gole de conhaque. Depois, trocou suas roupas, emprestando algumas do seu pai. Os dois tinham o mesmo tamanho e quase as mesmas medidas. Sua mãe lhe passou um sermão, de vinte minutos, sobre andar nas ruas em um dia tão frio. E depois, quando se viu livre dela, foi para a mesma sala que estava ao chgar. Ao adentrar o recinto, encontrou Emily lendo e tomando um chocolate quente. Só pode ser brincadeira, pensou, irritado. Ele adentrou a sala, pois havia chegado primeiro que ela. E faria o possível por ignora-la.
- Perseu – ela disse, assim que ele se sentou na poltrona, de frente ao fogo – Você está bem?
- Mais do que bem – ele disse, seco.
Ela franziu o cenho, fechando o livro. Se aproximou dele.
- Sua mãe disse que você chegou faz pouco tempo e estava congelado até os ossos – ela comentou – Poderia ter pegado uma hipotermia.
- Ah, com certeza sim – ele concordou, em um tom sarcástico – Está preocupada comigo? Pois, não deveria.
Ela suspirou.
- Por que está assim? O que lhe fiz? – perguntou, magoada.
Ele a fitou, com intensidade.
- Acho que não preciso explicar. É muito inocente para entender – ele disse, em tom ácido – Por que não me deixa em paz?
Ela suspirou, sentindo seu peito se apertar.
- Achei que fossemos amigos, Perseu – ela disse, com a voz baixa, se afastando.
Ele bufou. Sabia que estava sendo injusto com ela, mas não conseguia controlar seu desejo e irritação. Se levantou, indo ao encontro de Emily. Segurou-a pela cintura, de um modo brusco, a virando para ele.
- Como posso ser seu amigo, Emily? Diga-me? – ele disse, em tom cínico – Como? Enquanto você me olha dessa maneira, meiga é doce? Como posso ser, se desejo estreita-la em meus braços a cada instante? Diga-me, como ser seu amigo sem enlouquecer?
Ela o fitou assustada. Não sabia o que fazer. Seu aperto era forte e seus lábios estavam centímetros um do outro.
- Perseu, não fale isso – ela pediu, em agonia – Por favor.
Ele beijou sua bochecha, sentindo o gosto da sua pele. Ela fechou os olhos, se sentindo tremula.
- Como não dizer, Emily? Como não sentir? Diga-me, pois eu não sei fazer isso. Eu não sei como parar o que sinto – ele diz, em tom desesperado – Eu não sei olha-la de outra maneira.
Ele beijou os lábios dela, a deixando sem reação. Ela tentou fazer sua mente obedecer e se afastar, mas retribuiu, hesitante. Aquele gesto de consentimento fez Perseu perder o pouco puder que tinha e intensificar o beijo. Era algo errado e eles sabiam disso, mas naquele momento, eram somente eles naquela sala. E suas línguas se enroscavam, se envolvendo, como se estivessem valsando. Ele tocou o corpo dela, sem se controlar. Tocou seu rosto, seus cabelos, seus s***s, suas costas. Queria aproveitar cada parte daquela mulher. E Emily se sentiu ofegar em seus braços. Não conseguia se mover para longe dele e despertar. Estava mergulhada em sensações novas, que somente Perseu despertava nela. E cada toque dos lábios dele nos seus, cada toque da sua mão sobre o corpo dela, a fazia estremecer. Ele parou de beija-la e plantou beijos no pescoço dela e no b***o exposto pelo vestido de colo baixo. E tomou seus lábios de novo, beijando-a com mais intensidade. Ela retribuiu, do mesmo modo, sem pensar.
Contudo, ela despertou, assim como ele. E eles se afastaram, abruptamente. Ela respira, ofegante, sentindo-se péssima. Perseu também estava com respiração acelerada e observou o rubor que percorria o rosto dela e seu b***o. Os lábios dela estavam vermelhos pelo beijo. Ele sentiu o ímpeto de beija-la mais uma vez, mas não se permitiu aquilo.
- Eu sinto muito – ela murmurou – Eu não devia ter deixado isso acontecer, eu não deveria...
- Não diga isso – ele pediu – Não diga que sente, Emily. Você me quis, tanto quanto eu a quero...eu não sei – ele parecia perdido e fitou o vazio. Olhou novamente para ela, em suplica – Emily, não se case com Adam.
Perseu se aproxima dela mais uma vez e sabia que corria o risco de alguém os ver, mas não se importava com as consequências. Ele segurou a mão dela e a sente tremula. Ela não o fitou nos olhos. Ele ergueu seu queixo, fazendo-a a fitar seus olhos.
- Por favor, não me faça sofrer assim – ela suplicou.
- Eu que lhe peço, minha ninfa – ele disse – Por favor, não se case, eu lhe imploro. Fique comigo...eu posso faze-la feliz. Mas, se aceitar se casar com ele...eu não sei...
Lágrimas despontaram dos olhos dela. Emily não sabe o que fazer nem o que sentir.
- Não posso, Perseu...não posso – ela negou com a cabeça – Eu dei minha palavra.
- Então quebre esse juramento – ele implorou, segurando suas mãos – Fuja comigo, eu posso leva-la a qualquer parte, podemos viver juntos...posso lhe dar uma vida diferente...você disse que queria pintar, lembra-se? Eu não me esqueci. Guardo seus bilhetes comigo, meu amor...eu não sei mais viver sem você.
Ela soluçou. Não sabia o que fazer e não compreendia ainda o que estava sentindo por Perseu.
- É desonroso o que estamos fazendo, Perseu – ela disse, com a voz embargada – Não podemos trair Adam assim. Preciso cumprir minha promessa. É meu dever.
Perseu a soltou, irritado, sentindo-se humilhado.
- Por que se importa com o dever, Emily? Noivados podem ser rompidos...promessas podem não ser cumpridas. Esse casamento não lhe trará felicidade – ele tentou argumentar.
- Não funciona assim, Perseu. Quando prometemos algo, devemos cumprir com a nossa palavra – ela explicou, paciente, olhando para ele, com ternura - Não se pode olvidar do dever que se contraiu. Não posso virar as costas para uma pessoa que espera algo de mim, a qual prometi tanto. Por isso, não se deve trair, Perseu. Não se deve mentir...veja o que eu trouxe para mim, por mentir a Adam, somente para proteger meu irmão. O quanto não trouxe sofrimento a ele, por deixa-lo pensando que tinha sido traído. E agora, nesse momento, nós dois o apunhalamos pelas costas...isso não é direito, não é certo.
Perseu não conseguiu compreender os pensamentos dela, mas dentro de si entendia, sabia que não era correto, que não era moral ou ético o que fizera. Mas, ele nunca seguiu pela moral, sempre fora depravado e experimentara tudo que a vida lhe dava quanto ao prazer. Era hedonista por natureza. E ter aquela mulher a sua frente, lhe impingindo a refletir suas ações era doloroso demais.
- Perseu, eu posso ama-lo – ela disse, por fim, tentando se acalmar – Eu gostaria de tê-lo conhecido em outro tempo. Acho melhor não nos vermos mais.
Ela se afastou e saiu da sala. Ele não vai atrás dela. Ficou parado, fitando o fogo da lareira crepitando, deixando seu próprio fogo interno consumir sua alma.