Parte XXIV

963 Words
Os dias passaram voando para Emily. Ela estava cuidando dos últimos preparativos do casamento e terminando os convites, junto com lady Derby. Já era fim de outubro e o outono trazia ventos mais gelados a Londres. Os dias se tornavam cinzentos e chuvosos, o que era algo desanimador para os londrinos, mas não para Emily. Amava o tempo frio, amavam vestir seus longos casacos e amava quando chegava o período de inverno, quando nevava. Ela brincava com Mikael, do Hide Park. Faziam bonecos de neve, guerra de bola de neve e anjinhos na neve. Era algo infantil para eles, mas era algo que faziam juntos. - Emily – disse Amélia, que também ajudava nos preparativos – Você já sabe quem vai ser sua madrinha de casamento? - E tem isso também? – perguntou ela, assustada. Lady Derby e Amélia riram. - Sim, querida – sua sogra disse, achando graça do modo atrapalhado da nora – E deveria ter pensando nisso, Emily. Precisa pensar o quanto antes. Emily pensou e olhou para Amélia. Ela era sua amiga, desde que conheceu William. Não eram inseparáveis, ela diria. Pois, Emily era muito reclusa e não conseguia fazer amigos. William foi a conquistando com seu jeito eloquente e ele mesmo se intitulou seu amigo e protetor. Amélia era mais tímida, mas estava sendo sua amiga ainda mais, depois que começaram a trabalhar juntas no teatro de Perseu. - Quer ser minha madrinha? – Emily perguntou a Amélia. Amélia ficou surpresa. - Nossa, isso é maravilhoso Emily – ela disse, apertando a mão da amiga – Eu adoraria. - Então, está perfeito – Emily disse, sorrindo – Tem mais alguma coisa que preciso saber? - Não, querida, já temos tudo pronto – lady Derby a tranquiliza – Estamos aqui para ajudar você, também, meu bem. Agora somente nos resta os ensaios, que ocorreram no início de novembro. Eu realmente acho de m*l gosto você se casar no inverno, querida. Você deveria se casar em maio, ou mesmo na primavera. Florescer como as flores, entende? Emily não entendia, mas não disse nada. - Acho que está ótimo assim – Emily disse, dando de ombros – O importante é que meu casamento seja feliz. - De fato, querida – disse lady Derby, concordando. E mais alguns dias se passaram. A neve começa a cair e outubro já havia terminado. Emily sentia frio, mas mesmo assim, resolveu ir até o cemitério. Colocou flores da sua estufa. Eram narcisos, as preferidas do seu pai. Fazia um tempo que não o visitava e queria falar com ele. Já havia lhe contado sobre Adam, mas agora queria lhe confessar outras coisas. E limpou sua lapide, com todo cuidado e deixou os narcisos, como um presente para ele. - Oi pai – ela disse, olhando para o céu – Será que o senhor está ai? Duvido muito, pois o senhor não ficaria parado aqui, ficaria? Ela escutou o som do vento e tudo era silencioso naquele lugar. A neve era fraca, mas isso não a fazia esmorecer, nem o céu cinzento e triste. - Sabe, pai – ela disse, olhando para Mikael, que estava distante, deixando que ela tivesse seu momento com seu pai – Eu venho tendo sonhos. O senhor sempre está lá. Me diz para ser forte, mas um homem estranho parece querer me aprisionar. Isso faz sentido? Ela espero uma resposta, que não veio. Apenas silêncio. - E ele parece muito bravo, ultimamente – ela comenta – Pois, eu não estou mais afetada por ele – ela ri – Eu sei, eu deveria estar com medo, mas não estou, nem um pouco. E isso deixa irado. E consigo acordar mais rápido do que ele consegue me perseguir – ela diz, se sentindo vitoriosa – Mas, o que será que significa esses sonhos? E o senhor está lá mesmo? Silêncio. - É, o senhor sempre foi muito enigmático – ela continua – Sempre me contou coisas estranhas. Em que uma jovem era raptada por seu tio. Isso era meio c***l para um criança ouvir, sabia? Talvez, seja por isso que sonho com esse homem estranho. E o que aconteceu depois, com essa jovem, pai? Você nunca terminou de me dizer. Mas, eu sei. Eu li. Eu achei o livro em sua biblioteca. Dizia que ela comeu do fruto proibido do Hades e ficou presa no submundo. Seu tio, que era Hades, o deus do submundo, a enganou. E somente Hermes, seu irmão, poderia salva-la. E salvou a pobre Perséfone – ela respira, querendo rir do seu monologo – Mas, ela não poderia ficar longe sempre do reino, em que era rainha. No outono e inverno teria que estar com Hades e no verão e na primavera com sua mãe, Demeter. Que destino h******l esse. E isso me faz pensar que meus sonhos, pai, são produtos da minha mente fértil. Pois, o senhor me contava essa história. Lembra? Eu sei que lembra. E pai. Há algo que preciso lhe dizer, mas é segredo – ela olha para os lados – É possível amar dois homens? Eu acho que está acontecendo isso comigo. Você amava mamãe? Espero que sim, pois ela sente sua falta. Ela manda um beijo para o vazio e se afasta. Mikael a abraça, beijado sua testa e faz o mesmo ritual que Emily. Ela fica observando ele falar sozinho, para o vazio. Mas, não sabe se é sua imaginação, vê seu pai acenar, de longe, perto de uma árvore seca e um vento forte sopra, balança os galhos. Emily pisca algumas vezes e vê apenas o cemitério vazio. Sabia que era sua mente pregando peças nela. Seu pai não estaria com ela, nunca mais. Mas, ela precisava seguir em frente. Havia um sonho que queria perseguir e faria isso por ele.
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