Parte XVII

2643 Words
  Emily passou duas semanas, se recusando a receber Adam. Estava furiosa com ele. E fez seus ensaios no teatro, como forma de aplacar sua dor. Não sabia mais o que fazer. Perseu a cercava de atenções, até mesmo lhe presenteou com flores, o que a fazia ver realmente quais eram a suas intenções. Ela plantava todas, mas não se comovia com seu lado cavaleiro. Ela sabia que Perseu estava a cortejando. Mas, estava com a mente mergulhada em um turbilhão de emoções. Não iria brigar com ele sobre sua insistência. Se preocupava em como lidar com Adam, apenas. Precisava se acalmar para conversar com ele e ao recusar suas visitas, era uma forma de não fazer algo impensado, como romper o compromisso. Precisava fazer com ele entendesse que seu temperamento possessivo fazia m*l a ela. E que a afastaria para sempre. Por outro lado, Adam pensava o pior. Queria desafiar o irmão a um duelo e matá-lo, sem pensar nas consequências, mas algo o impedia. Parecia o sopro de uma voz, lhe dizendo para ter paciência e se aferrar nas atitudes nobres. E que ela precisava conversar com sua noiva, o quanto antes. Não sabia o que era aquilo, talvez a voz da sua própria consciência e era somente isso que o fazia ter um pouco de lucidez. Mikael saia várias vezes de casa, após os ensaios no teatro, o que Emily achava curioso. Ele fazia suas caminhadas, desaparecia por horas. Isso fazia dois anos. Mas, dessa vez, era algo mais frequente. Ele escondia algo e ela queria descobrir. Mas, no momento, seu plano era tentar saber como falar com Adam. E havia o livro que estava aguardando na livraria. Havia chegado e ela foi buscar na Picadilly. E tomou uma carruagem até Mayfair, para fazer uma visita a sua sogra. Queria ver de perto a carruagem e comparar os brasões. Podia ver no livro o brasão da família Stanley. E que havia conexões de parentescos entre eles e o conde Derby. Contudo, era algo distante.  Eram primos, no caso. A família Harris e Stanley. O que a deixava mais aliviada. Não poderia ser nenhum deles que ameaçaram seu pai. Mas, ainda assim, a identidade daquele homem estava a deixando em dúvida. E, um dia, enquanto ela plantava suas flores no jardim, uma carruagem elegante apareceu, do lado de fora. Ela viu o brasão e logo se lembrou da carta. Era o mesmo, idêntico. O brasão da carruagem dos Derby era parecido. Emily tentou se lembrar, comparar, mas não teve tempo. Um senhor saia da carruagem, com a ajuda de um lacaio. Sua boca ficou seca, pois reconheceu seu avô. Ela entrou dentro de casa, correndo, procurando sua mãe. - Mãe! – ela chamava, pelo corredores – Mãe! Flora, ao ouvir sua filha, saiu da cozinha. Estava nervosa, pois não entendia o motivo para sua filha estar tão desesperada. Elas se encontraram perto das escadas. Flora fitou sua filha, analisando seu semblante. Emily estava pálida e tremia. - O que foi, minha filha? Por que gritou? – ela perguntou, segurando a mão de Emily. Estava gelada. - Mãe...o nosso avô, seu pai...está lá fora – Emily balbuciou – Mãe, tem algo que a senhora não me contou. Você nunca fala sobre ele. Flora ficou tensa. Não imaginava ver seu pai mais uma vez. Fazia anos que não o via. E já sabia qual era sua intenção naquela casa. E havia coisas que não contara para seus filhos. E esse era o momento, para compartilhar isso com eles. Agradeceu aos céus, pois seu filho havia saído. Iria conversar com seu pai e enfrenta-lo. - Filha, fique no quarto, está bem? Eu resolvo isso – ela pediu. Emily negou com a cabeça. - Não, mãe. Eu quero estar presente – ela insistiu – O que ele quer? Flora não deu atenção a sua filha e saiu porta a fora. Severn está no portão, com um olhar perscrutador. Analisava tudo com enfado. Ao ver sua filha, não demonstrou nenhum sentimento de afeto. Flora se aproximou do portão e não abriu. - Não vai abrir para seu pai? – ele perguntou, com a soberba – Não sou digno de entrar na sua casa, filha? Ela o fitou com raiva. Suas mãos tremiam e precisou segurar no regaço do vestido. - Não, o senhor não tem direito de entrar aqui – ela recusou – No momento em que se recusou a me ajudar, não vai por os pés aqui. Ele riu, com desdém. - Ah, filha. Eu não diria isso, se fosse você – ele diz, com escárnio – Não tem escolha quanto ao que deseja. Seu querido marido não lhe disse nada? Nem sequer uma palavra sobre as visitas que fez a mim? Flora empalideceu. A carta. Era do seu pai. Ela ficou tensa. O brasão realmente era parecido, mas era o mesmo da família Derby, ela pensou. E eles eram parentes distantes. Imaginou que seu marido tivesse recorrido a eles. Não a seu pai. Mas, por ter encontrado a carta após a morte do marido, não poderia questiona-lo. E, como ninguém havia reclamado pela casa ou pelo dinheiro, imaginou que tudo estivesse resolvido. - O que você quer? – ela perguntou. - Apenas conversar com meu neto – ele responde – Seu marido fez uma oferta irrecusável. E eu vim reclama-la. - O que quer dizer? – ela perguntou. - Não me faça ficar o dia inteiro em pé, Flora – ele retruca irritado – Se quer mesmo saber, me deixe passar. Ela não queria deixa-lo entrar. No momento que ele colocasse os pés ali, estaria perdida. Não queria dar esse direito a ele, não iria se curvar. - Não, o senhor fica ai fora – ela disse – Minha casa não está aberta para o senhor. - Tem certeza, Flora? – ele perguntou, com um tom malicioso – Tem certeza mesmo? Pois, saiba que essa casa pertence a mim. Uma parte das dividas do seu marido, era para pagar a hipoteca. E eu paguei o restante, para ele. E no momento que ele não quitou sua divida, eu tenho direito sobre ela. E sobre você. Flora estremece. Seu pai a fitava com ódio. E sentia dentro de si que sua batalha estava perdida. - E por que não veio reclamar isso antes? – ela perguntou. Não fazia sentido ele aparecer depois de tanto tempo. - Por que estou velho – ele responde – E vou morrer em breve, querida. Quero levar seu filho, para que possa continuar a linhagem dos Severn. - Não, de maneira alguma – ela se n**a – O senhor não pode fazer isso. - Posso sim – ele disse – Agora, abra esse portão! – ele troveja. - Mikael não está em casa – ela disse tentando se impor – E não vai entrar aqui. Não vai. Você não tem provas de que pagou a hipoteca. Não tem prova de nada! Severn se irrita e tira do sobretudo um papel. Era uma promissória e ele mostra a Flora. Estava assinada por Martim. Ela não acreditava que seu marido havia sido tão t**o em deixar aquela prova para seu pai cobra-los no futuro. Ela rasga a promissória e ele ri. - Isso é só uma cópia, querida – ele diz – Eu tenho a verdadeira guardada. Não há como contestar. Ou você me entrega Mikael, ou eu tomo a casa. Por que Martim?, Flora pensou em desespero. Por que fez isso? - Você tem uma semana – ele avisa – Ah, olá Emily. Eu disse que voltaria, não disse. Bem, como sua mãe é ingrata e não me deixar entrar. E eu não poderei tomar chá com você. Até breve! Ele acena e parte, com a ajuda do lacaio, que estava aguardando do lado da carruagem. Emily havia escutado pouco a conversa, pois chegado assim que ela se encerrava. Somente sabia que seu avô queria Mikael. Mas, por quê? Quando ela havia visitado ele, após a morte do seu pai, ele negou ajuda e os enxotou. Por que agora queria reconhece-los? - Mãe, o que está havendo? – ela pergunta. Flora respira fundo. - Filha, vamos para dentro – ela pede, puxando Emily pelo cotovelo. Emily acompanhou, mas ainda não iria desistir fácil de interroga-la. Elas entram na cozinha e Flora pega água de uma jarra e coloca em uma chaleira. Acende o carvão, dentro do fogão, com uma pederneira e coloca a chaleira para ferver. Abriu um armário de teto e pegou uma caixinha com e**a cidreira e colocou dentro do bule. Esperou ferver a água e colocou o chá para infusão. Precisava se acalmar para ter aquela conversa com sua filha e nada melhor que um chá para fazer isso. - Mãe, a senhora vai me contar? – perguntou Emily, vendo sua mãe servindo duas xicaras de chá. Emily deixou a sua sobre a mesa. Não queria tomar nada. - Filha, sente-se – ela pede – E tome o chá. Vamos falar sobre isso, mas quero estar mais calma. Emily se senta na cadeira e tenta tomar o chá, mas não conseguia. Flora bebericou o seu, e pensava em como falar a sua filha sobre tudo. Sobre seu passado e sobre seu pai. - Filha, seu avô veio nos visitar por um motivo e que não será bom para nossa família – ela começa. Emily assente – Ele quer levar Mikael com ele, para ser seu herdeiro. - Isso eu pude ouvir. Mas, ele não pode obrigar Mikael a fazer isso. A não ser que... - Ele pode – interrompe Flora – E tem meios legais para isso. - Como assim? – Emily estava nervosa. Não poderia ser ele o remetente da carta – Mãe, por que a senhora nunca falou para nós do nosso avô? – ela queria entender, pois apenas sabia sobre seu título, não sabia seu nome ou sobrenome. Flora era muito reservada quanto ao passado. - Filha, quando eu vim morar com seu pai – ela explica – Eu resolvi esquecer-se do meu passado. Da minha família, de tudo. Seu avô...ele era c***l. Um homem doente por poder e queria que eu me casasse com um duque, ou um conde. E tentou forjar meu casamento com um em especial. Era meu primo. Charles Harris – ela diz. - Espera, Charles Harris? Ele é pai de Adam – Emily constatou pasma. - Eu sei...me desculpe nunca ter lhe falado sobre isso...Pois foram momentos que queria esquecer e nunca mais lembrar – ela diz, olhando distante. - Era por isso que a senhora não queria que eu me casasse com Adam? – perguntou Emily. - Não exatamente, querida. Havia uma carta, uma carta que seu pai escondeu de mim. Descobri em seus livros de contabilidade – ela explica – Essa carta estava assinada com um sobrenome que pertence a minha família. Stanley. Contudo, Charles tem o mesmo sobrenome. Charles Stanley Harris. Eu acreditei que ele estivesse por trás disso. Que quisesse reclamar a divida e apenas quisesse me humilhar...mas, era meu próprio pai – ela diz, em tom melancólico – E na época, não terminamos a coisas muito bem, sabe. Ele era jovem, imaturo e ficou ofendido por eu ter recusado me casar com ele. Meu pai queria me deserdar, mas só não fez isso, porque precisava de mim. Como não tinha filhos homens, ninguém poderia herdar o título, a não ser meu primo. E meu pai queria manter tudo na família. Eu fugi, Emily...eu não queria aquela vida. Não queria estar perto do meu pai. Ele...- ela engoliu seco – Ele trazia mulheres estranhas para nossa casa...fazia coisas, por Deus...era h******l – Emily segurou a mão tremula de sua mãe – Não sei como minha mãe suportou se casar com ele, pois se ele fazia isso na minha presença, era provável que fazia isso com ela...E ela morreu quando era tão pequena. Eu não tinha mais ninguém no mundo – ela respira fundo, contendo as lágrimas ao se lembrar do passado - E nem sempre Charles estava por perto. Ele era bom e sempre me tratava bem. Por esse motivo, por meu pai ser libertino e distratar as mulheres que iam até nossa mansão, ele ficou furioso quando eu me recusei a casar com ele. Ele gostava de mim. Apenas rompi o noivado por não ama-lo...eu não queria me casar sem isso, Emily. E já havia conhecido Martim. Ele já era advogado na época e meu pai pagava por seus serviços. Muitas vezes nos víamos e logo me apaixonei por ele. E seu pai, bem, ele negava o que sentia, mas eu sabia que havia algo. E quando eu lhe contei meus problemas e como meu pai era, ele me ficou furioso. E me pediu em casamento. Disse que iria me levar embora. Como eu já o amava, aceitei. Ele tentou fazer tudo corretamente, mas meu pai já havia firmado o compromisso com meu primo. E naquele dia, Charles se mostrou alguém rancoroso. Disse que nunca iria me perdoar por romper o noivado, por escolher se casar com um simples advogado – Emily escutava o relato e não conseguia acreditar que seu sogro era assim. Ele sempre a tratou bem – Mas, eu sei hoje que ele estava furioso, pois me amava também, Emily. Ele não queria me perder. Contudo, eu não poderia lhe dar o que ele desejava. E quando meu pai se recusou a aceitar meu casamento com Martim, nós fugimos. Eu só tinha dezoito anos. E seis anos depois, você nasceu. E depois, dois anos, nasceu seu irmão. E nós ficamos refugiados no interior da Inglaterra, pois tinha medo que meu pai reclamasse Mikael para ele. Para que ele pudesse levar a linhagem Severn. Lembra como era bom viver em Yorkshire? – Emily assente. As charnecas, os urzais e aquela paisagem eram lembranças boas para ela, que vivia no meio da natureza – Seu pai, então conseguiu negócios melhores em Londres, pois em Yorkshire não era possível viver como ele gostaria que vivêssemos. E a situação financeira não era das melhores. E aqui ele conseguiu abrir seu escritório, contudo, se endividou para pagar essa casa. Havia clientes, sempre teve. E dinheiro nunca nos faltou, até que...bem, até que Mikael começou a perder a visão. Seu pai tentou de tudo para ajudar, pagou os melhores médicos e isso nos trouxe mais dividas. m*l conseguíamos manter a casa. E bem, não sei como, mas seu pai conseguiu resolver tudo. Mas, na verdade, ele recorreu a meu pai. E agora ele é dono dessa casa, filha. É a nossa única herança. Se eu não entregar Mikael, podemos ir para a rua. Emily engoliu seco. Ficou emocionada por ouvir a história de sua mãe.  Levantou-se e abraço ela, acariciando seus cabelos loiros. - Mãe, eu vou pedir ajuda a Adam – ela diz. - Não filha, por favor – ela pede – Não faça isso. Não quero que ele se preocupe conosco. Preciso dar um jeito de achar aquela promissória. Eu não sei...não quero entregar meu filho. Depois daquela conversa, Emily refletiu muito. Precisava arranjar um jeito de que seu avô não se apoderasse de Mikael. Ele não precisava viver com Severn, era isso que ela pensava. Mikael não nascerá para assumir essas responsabilidades e era bom de coração. Não poderia ficar perto de um homem como Severn. Isso nunca. E os dias se passavam. Flora e Emily não contaram nada a Mikael, que não fazia a mais remota ideia do que poderia estar havendo. Adam havia parado de tentar visitar Emily, o que a deixou preocupada. Mas, também, não queria recorrer a ele. Pensou em Perseu. Mas, seria ainda pior pedir a ele. Ela estava indecisa. E faltavam dois dias para seu avô voltar e ela precisa do dinheiro. E sem que sua mãe, ou irmão soubesse, embarcou na carruagem e foi até o teatro de Perseu.
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