Emily não estava cansada, se sentia elétrica. Espreguiçou-se e sentou em frente à penteadeira, arrumando seus longos cabelos em uma trança e escovou sua franja. Retirou sua camisola e colocou um vestido de passeio, na cor amarela e usou seu colar de perolas. Viu o colar de perolas negras da sua mãe sobre a mesa da penteadeira e saiu do quarto, sem colocar os sapatos. Sua mãe não estava em seu quarto e ela abriu a gaveta da penteadeira dela e puxou o estojo de veludo verde, colocando a joia dentro. Sua mão esbarrou em um pedaço de papel e movida pela curiosidade, puxou-o. Era uma carta, com o brasão de uma família que ela não conhecia. Era o mesmo brasão que viu na carruagem de Adam. Ela abriu, pois o selo já havia sido quebrado. A carta estava um pouco amassada, como se tivesse sido manuseada várias vezes.
Caro senhor Martim,
O senhor sabe que me deve muito dinheiro e faz dois anos que não conseguimos chegar a um acordo quanto ao pagamento desta divida. Estou sendo obrigado a tomar medidas cabíveis quanto a isso. Não gostaria de ter que recorrer a meios inescrupulosos, é claro.
Contudo, não gostaria de envolver a justiça nesse caso. Acredito que podemos resolver isso de maneira amistosa, não acha? Eu, em minha visão, acho muito melhor nos entendermos de maneira amigável. Sabe o que quero e você tem aquilo que desejo. Então, se me der, eu soldarei suas dividas. Caso negativo, sabe o que o futuro lhe reserva.
Assinado,
Stanley.
- Stanley? – ela murmurou – Quem diabos é Stanley?
- Filha? – chamou Flora da porta do quarto.
Emily se sobressalta, sentindo a pulsação do seu coração na garganta. Ela escondeu a carta no bolso do vestido e se virou, sorrindo para sua mãe. É claro que não conseguia disfarçar nada.
- O que está fazendo? – perguntou Flora, adentrando o recinto.
Ela perscrutou o olhar da filha, desconfiada.
- Nada, mãe, eu somente vim deixar seu colar – Emily se justifica.
Flora assente, mas não parece inclinada a acreditar, contudo, havia assuntos mais urgentes para ela a discutir naquela manhã.
- Filha, Mikael me contou o que aconteceu no baile – diz ela, um pouco mais séria do que o costume – Eu soube que Adam oficializou o pedido de casamento.
Emily assente, feliz por se recordar de Adam.
- Sim, mãe. Isso não é maravilhoso? – perguntou Emily entusiasmada.
Flora estava com o semblante cansado, mas não transpareceu nada. Isso deixou Emily confusa.
- Mãe, o que houve? – pergunta Emily – Parece que a senhora não esta feliz por mim.
- Claro que estou, querida. Estou muito feliz – Flora diz, em tom forçado – Mas, não é muito cedo para um casamento apressado?
Emily fica pasma pelo que Flora perguntou.
- Mãe, não será nada apressado – ela explica, um pouco magoada – Teremos um noivado respeitável. Tudo será conforme as regras sociais. E nos amamos, mamãe. Que m*l há nisso?
Flora engole seco.
- Filha, filha querida, é maravilhoso amar... – ela diz, sem convicção, se aproximando da janela, olhando a o jardim e o portão da frente. Parecia buscar algo ou alguém – E nunca lhe tiraria isso, meu bem. Mas, não é melhor conhecer seu noivo? Adam entrou em nossa casa faz apenas um mês. E se você não gostar dele?
Emily se sentia indignada. Não era uma moça que se apaixonava atoa e tinha os pensamentos claros e dominava seu próprio gênio.
- Mãe, eu sei o que estou fazendo – ela diz, se aproximando de Flora. Também fitava a janela, ansiosa por ver Adam chegar – E Adam é o homem que despertou meu coração para amar. Ele é gentil, cavaleiro, inteligente. Nunca me depreciou e não parece que irá me controlar. Se a senhora quer que eu espere para me casar, farei isso. Mas, nada me demovera da ideia de me casar com ele.
Flora se resigna.
- Muito bem, espero que seja muito feliz querida, apenas isso – ela diz, segurando a mão da filha. Emily sentiu a mão de sua mão gelada – E afinal, já tem vinte e dois anos...sabe o que está fazendo.
Emily não compreende sua mãe. Em um momento, ela desejava que se casasse e fosse feliz. E no outro, parecia mudar de ideia. Emily pensou consigo mesma que sua mãe devia estar com ciúmes. Ledo engano, pois Flora estava aflita por dentro. Contudo, ela não iria se abrir sobre o passado, com ninguém, muito menos com seus filhos. E parte da manhã passou, se a chegada de Adam. Emily estava nervosa, nem ao menos calçou seus sapatos. Ficou no jardim, cuidando das suas flores, tentando se acalmar. Podava sua roseira, tentando se concentrar no trabalho. Machucou sua mão, ferindo o dedo com os espinhos. Respirou fundo, tentando controlar a dor. Largou a tesoura de poda e não via por onde andava. Esbarrou em um corpo sólido e pensou ser Mikael. Olhou para cima e viu os olhos verdes de Adam a fitando.
- Adam – ela diz, abraçando-o com força – Que saudades eu fiquei.
Ele ri.
- Eu lhe deixei faz algumas horas, minha Emily. Que saudades é esse? – ele perguntou, em tom jocoso.
- Nada, nada não – ela murmura, sentindo o cheiro de cravo que vinha do paletó dele – Eu apenas achei que não viria.
Ele a segura pelos ombros, a afastando do abraço.
- E que espécie de cavaleiro eu seria por fazer algo assim? – ele pergunta, sério – Nunca faria algo dessa espécie, meu anjo.
Ela lhe sorri, mais calma. Esquece do dedo latejando, esquece do que sua mãe disse e se esquece da carta que está em seu bolso. Ele toca seu queixo, beijando ternamente sua testa.
- Eu te amo, minha Emily – ele diz, olhando-a com devoção – E agora, vamos conversar com sua mãe?
Ela assente, sorridente. O casal sai com o braço enganchado e entram pela porta dos fundos da casa, adentrando a cozinha. Flora se assusta ao ver Adam, mas apenas vê o semblante sereno do rapaz e se acalma. Talvez estivesse nervosa atoa. Adam parecia ser tão doce e gentil, pensou consigo mesma. Seria um ótimo genro.
- Senhora Flora – ele diz – Um bom dia.
- Bom dia para você também, senhor Adam – ela diz, sorrindo – E a que devo a visita?
Ele solta o braço de Emily, se aproximando de Flora.
- Vim lhe fazer um pedido muito importante – ele diz, um pouco nervoso.
Suas bochechas estavam coradas. Flora notou que ele parecia desconfortável.
- Emily, querida, poderia nos deixar a sós? – pede Flora.
- Mas, mãe...
- Por favor, querida. Vá com seu irmão na sala.
Ela assente, resignada. Antes de sair, Adam pega a mão de Emily e deposita um beijo. Ela sai da cozinha, se sentindo flutuar. Anda pelo corredor e entra na sala de estar. Mikael estava tocando o violoncelo e para ao ver sentir a presença de alguém na sala. Pelo cheiro de terra, presumiu ser Emily.
- Então, ele chegou? – perguntou ele, colocando o instrumento ao seu lado, no sofá.
- Sim, ele está aqui, Mika – ela diz, entusiasmada e senta no lugar livre ao lado do irmão – Eu achei que ele não viria.
- Tem que confiar mais nele, Emily. Adam parece ser muito correto – Mikael aconselha – E parece que você andou remexendo na terra de novo.
Ela ri.
- Eu sei, eu sei. Nada de entrar em casa com as mãos e os pés sujos – ela diz.
Ele assente.
- Mika – ela pergunta, interrompendo o breve silêncio – Você por acaso saberia dizer se papai tinha alguma divida?
Mikael franze o cenho.
- Não sei, Emy. Por que a pergunta?
Emily tira a carta do bolso.
- Seria por causa de uma carta que encontrei – ela explica e lê a carta – Conhece um tal de Stanley?
Mikael n**a com a cabeça, preocupado.
- Eu não sei. Tem algum selo na carta? – perguntou.
- Sim, há um selo feito com cera vermelha. O desenho é o brasão da família – ela diz – Mas eu não conheço sobre as famílias aristocráticas nem seus brasões.
- Deve ter algo sobre isso na biblioteca do papai – Mikael diz, pensativo – Vamos tentar procurar.
Eles partem para a biblioteca, que não era tão grande. Havia quatro prateleiras, embutidas na parede, de cor mogno e um tapete cobria o chão. Uma escrivaninha decorava o local, em frente à janela. Era o local onde Martim trabalhava e atendia seus clientes. Emily procura as estantes algum livro sobre brasões e famílias aristocráticas na Inglaterra. Ela encontrou um e colocou em cima da escrivaninha. Folheio até encontrar o brasão. Era da família Stanley e relacionado com os condes Derby.
- Derby? Estranho, papai nunca disse que tinha dividas com conde Derby – comentou Mikael – Na verdade, ele nunca deixou transparecer ter qualquer problema financeiro.
Emily se sentia perdida e confusa.
- Talvez, quem sabe, antes de morrer, papai tenha quitado a divida – ela diz, esperançosa.
- É o que espero, Emily, é o que espero – Mikael sussurra.
E após isso, Mikael e Emily se dirigiram a cozinha e encontraram Flora e Adam cochichando. Eles ficaram surpresos ao vê-los. Emily queria perguntar e entender do que falavam, mas não teve tempo, pois Flora a abraçou e disse que seria um grande casamento. Depois, serviu o café para todos, não deixando Emily conversar com seu noivo. Falava sobre o vestido de casamento, a organização da festa, os convidados, as flores que comporiam o altar. Em que igreja se casaria. Emily se sentia tonta por tudo aquilo.
- Com qual dinheiro pensa que iremos fazer isso, mãe? – perguntou ela.
- Eu mesmo cuidarei disso, Emily – Adam diz, apertando a mão dela.
Emily se sentiu desconfortável com aquilo.
- Mas, eu deveria ter um dote – ela diz, ressentida – Eu não tenho isso, Adam. Não quero que gaste nada. Podemos nos casar sem nada disso.
- Como? Querida é seu casamento. Será um dia inesquecível – Flora diz, magoada.
- Eu penso que Emily deveria ter aquilo que deseja, mãe – Mikael diz, comendo seu arenque.
- Você é homem e não tem que opinar – sua mãe diz, sobressaltada – E Emily, querida, aceite esse presente do seu noivo. Adam somente quer lhe fazer feliz.
Emily suspirou e procurou o olhar de Adam. Ele deu de ombros, tentando conter um sorriso.
- Eu farei tudo para vê-la feliz, minha querida – ele diz, sorrindo.
- Vai fazer tudo para ver sua sogra feliz. Eu entendi – ela diz, irônica.
- Emily, tenha modos – ralhou Flora.
Mikael engasgou com o peixe, ao tentar conter uma risada. Logo todos estavam rindo e o clima era leve. Emily se esqueceu de perguntar ao seu noivo de onde viria o dinheiro e de qual família ele vinha. Nunca conversaram sobre isso e logo que ele se despediu, à tarde, ela havia se lembrado. Ela nunca foi de se preocupar com status e com formalidades tolas. Mas, naquele momento, queria entender mais sobre seu noivo enigmático.
- Mikael – ela chamou, dentro da casa – Venha aqui.
Mikael desceu as escadas, abotoando a camisa.
- O que foi? Para que gritar? – ele diz.
- Vai me dizer qual é família de Adam – exigiu.
Ele deu de ombros.
- E você não perguntou para Adam? - perguntou Mikael.
Emily bate o bate contra o assoalho. Sentia-se impaciente.
- Não, eu não tive tempo - ela responde - Mas você poderia dizer.
Mikael n**a.
- O noivo é seu e vocês devem falar sobre isso. Não sou eu que deve lhe dizer - ele diz.
Emily não consegue protestar, pois Flora chama na cozinha. Mikael aproveita que sua irmã havia rumado para cozinha, pega seu chapéu no suporte ao lado da porta e sai de casa.