Parte XIII

2064 Words
Após o jantar na casa dos Derby, Emily se sentia estranha. A forma como Perseu era incisivo e tentava aborda-la de todas as maneiras, mesmo que de forma indireta a deixou confusa e desconfortável. Adam estava mais irritadiço também. Sempre que eles se encontravam, os dois tinham uma pequena discussão. Ele sentia ciúmes de sua noiva, mesmo ela não tendo feito nada que fosse errado. E ela se sentia incomodada, pois sentia a insegurança de Adam. Perseu havia plantado a semente da discórdia. Ele não havia conseguido controlar seu ímpeto de provocar seu irmão naquele jantar e ao mesmo tempo provocar Emily. Ela lhe chamava a atenção de uma maneira que nenhuma mulher havia feito, durante anos de sua vida. Sabia ter feito errado, mas era algo incontrolável. Era movido pelo desejo de tê-la, desde o primeiro instante que a vira tocar naquele baile promovido por seus pais. E William estava receoso de trabalhar com Perseu. Mesmo seu amigo sendo gentil e implorando para que ele fosse trabalhar ao seu lado, William sentia que algo estava errado. E até mesmo levou Mikael para conhecer Perseu. Mikael aceitou a oferta de trabalho vinda dele, mas também não se sentia bem na presença do homem. Parecia que algo r**m estava prestes a acontecer e ele não sabia definir o que seria. E havia chegado o momento dos ensaios no teatro de Perseu. Ele havia comprado um teatro falido e reformado. Por seu nome ser antigo e ter tradição em Londres, logo os aristocratas tiveram interesse em conhecer as peças, óperas e concertos que seriam exibidos no local. Ele batizou o local como sendo: Théatre du Derby's.  E isso era devido a origem francês de sua mãe e em homenagem a família. Era a única coisa que presava em sua vida. E mesmo relutante Emily aceitou o trabalho. Ela pensou que nada poderia dar errado e como Perseu nunca veio lhe fazer qualquer visita, talvez ela estivesse errada quanto ao julgamento do seu caráter. Mikael tentou dissuadi-la, dizendo que não seria necessário ela trabalhar, pois iria se casar em breve, mas com o apoio de lady Derby, ela acabou aceitando. - Será maravilhoso, querida - lady Derby diz, enquanto tomava chá na casa de Emily - E Mikael, deixe que sua irmã tome as decisões dela. Apesar de estar próximo seu casamento com Adam, Emily precisa ser independente. Mikael suspirou. Ele não queria ofender a dama, mas não conseguia explicar a sensação de desastre ao deixar sua irmã trabalhar para Perseu. - Eu entendo, é claro - ele diz, colocando um torrão de açúcar em seu chá - Minha irmã precisa de independência, de fato. Eu nunca concordei com uma mulher ter que depender de um homem para se sustentar ou ser forçada ao casamento. E é esplêndido que ela se casará por amor. Contudo, minha irmã apenas trabalhou em orquestras e concertos somente para ganhar o dinheiro que precisávamos para manter nossa casa. Com o salário que lorde Harris irá pagar pelo meu trabalho, não há necessidade de ela se preocupe mais com isso - ele se virou para a Emily, bebericando seu chá - Minha irmã, você disse há muito tempo que gostaria de lecionar música e agora esse é o momento. Com os contatos de lady Derby, tenho certeza que irá conseguir alunos. - Bem...eu gostaria de verdade de lecionar - ela diz, balançada. - Oh, seria de fato algo muito bom - comentou lady Derby - E com certeza eu irei apoiar isso. Mas, veja, Mikael, não seria ainda melhor se sua irmã tivesse notoriedade? Ao invés de ser uma simples professora de música, ela poderia sonhar alto. Alçar voos maiores. Fazer uma carreira na música. Bem, pense no que acha melhor, Emily querida. Terá meu apoio incondicional. E Emily não sabia o que fazer. De um lado, Mikael parecia não querer ela no teatro e do outro, sua sogra parecia ávida em vê-la ser uma estrela. E Adam não apenas queria ela longe de Perseu, o mais longe possível. E ele deixava isso claro em suas conversas. Contudo, ela cedeu as pressões da sogra, apenas para agrada-la. E enquanto isso, dias depois, Adam soube da notícia, o que inflamou sua cólera. - Mãe, como pode? - ele pergunta, irritadiço, entrando na sala de estar dela, na mansão dos Derby - Eu pedi expressamente que Emily ficasse longe de Perseu. Lady Derby estava inabalável, sentada em seu divã de cor rosa. Ela largou seu tricô no assento vago e arqueou as sobrancelhas. - Querido, modere seu tom - ela o repreende – E não sei o motivo desse desentendimento com seu irmão, Adam. Não consigo compreender esse ciúme. Perseu apenas está oferecendo um trabalho aos irmãos Leblanc. E eu não poderia deixar minha nora definhar e desperdiçar seu talento nato para música. Pode ver como ela toca divinamente e merece ser reconhecida. Adam suspirou, apertando os punhos com força. Cruzou os braços atrás das costas, tentando esconder sua desaprovação. - Mãe, é claro que Emily tem um talento nato – ele disse, tentando falar com racionalidade – E eu aprovou e muito que ela tenha seu reconhecimento. Mas, por que no teatro de Perseu? Por que, mãe? Não poderia ser outro lugar? - Pelo motivo de que ela vai estar no teatro da família, não em qualquer teatro, Adam – explicou lady Derby -  Além disso, ela nunca terá seu reconhecimento em outro lugar. E pare com esse desentendimento t**o com seu irmão. E ele nunca iria ver nada em Emily, ela é sua noiva e Perseu nunca faria algo errado ou impróprio. Eu o criei do mesmo modo que criei você. São dois cavaleiros respeitáveis. Não havia como discutir com sua mãe, quando ela impunha sua opinião e lógica. Adam saiu da casa dela mais irritado do que nunca. E aquele dia seria o ensaio de Emily, no teatro. Ele queria estar perto, para assistir, contudo, teria que dar aulas aquela tarde. Precisava de algum modo comparecer aos ensaios dela, pensou consigo mesmo. E no outro lado da cidade, Emily, Richard, William, Amélia e Mikael desembarcaram da carruagem de aluguel ao lado do Théatre du Derby's. Eles subiram as escadas da frente e Emily pode contemplar a fachada majestosa daquele local. Era um teatro estilo clássico, com aparência de acrópoles da Grécia Antiga, devido às quatro colunas de mármore na parte da frente, mas algo mais moderno e decorado com estatuas de santos. Eles adentraram o recinto e estavam fascinados pelo local. Encontraram o anfiteatro e perceberam a grandeza daquele lugar, revestido em dourado e vermelho. As poltronas, os tapetes e as cortinas eram vermelhos, demonstrando a grandiosidade daquele lugar. Sabia-se que rei Jorge V iria assistir a ópera que seria exibida naquele teatro e isso deixava os musicistas temerosos. Eles comporiam a orquestra da ópera Aida, de Antonio Ghislanzoni e Giuseppe Verdi. Era um evento de grande magnitude e eles estavam receosos. Perseu fitou o grupo com profissionalismo e não dirigiu sua atenção a Emily. Estava se controlando para não demonstrar qualquer sentimento. Não queria assusta-la e colocar tudo a perder. Ao conversar com Perseu, Emily se sentiu segura, pois ele não demonstrou nada, a não ser respeito. Talvez sua insegurança estivesse equivocada e o jeito ácido e cínico de Perseu fosse sua característica marcante. Pelo menos, enquanto ensaiava, ele era respeitoso. Seu cunhado apenas acompanhou os ensaios daquela tarde, junto com o maestro designado. Havia vários músicos e não havia somente Amélia e Emily de mulheres compondo as fileiras da orquestra, o que as deixavam aliviadas. Após o ensaio terminar, Emily caminhou pelos corredores do teatro, ao lado de Amélia. Elas observaram os camarotes, a arquitetura do local e estavam fascinadas. - Nossa carreira irá começar nesse lugar – comentou Amélia, se sentindo extasiada – Imagine como seremos vistas, Emy? Somos mulheres e tocamos muito bem. E ainda temos apoio de uma família tradicional. Iremos crescer na música. Emily não estava interessada na fama. Ela amava a música, pela música. Apenas isso. - Eu acredito que seremos famosas, sim, Amélia – concordou Emily – Contudo, isso não é o mais importante. A música é o que move nossa alma e é com isso que devemos nos preocupar. - Eu aplaudo seu pensamento, senhorita Emily – diz Perseu, atrás delas. As duas estavam dentro de um camarote, observando o palco e os músicos que levavam seus instrumentos para os bastidores. Emily se sobressaltou ao sentir a presença de Perseu. Amélia sorriu feliz por vê-lo. - Lorde Harris – ela diz – É fantástico milorde ter nos convidado para compor a orquestra. Sentimo-nos honradas. - Eu que agradeço por terem aceitado minha oferta – Perseu diz, com um sorriso nos lábios – Estou mais que feliz por mudar o pensamento de uma geração quanto a ter mulheres trabalhando em orquestras, na ópera e no teatro. - Sim, milorde é muito diferente dos seus pares – concordou Amélia – Eu estou honrada por fazer parte disso. - E senhorita Emily, está feliz por fazer parte disso? – perguntou Perseu, perscrutando o olhar dela. Emily ruborizou, mas não desviou o olhar. - Sim, muitíssimo, milorde – ela, responde, assentindo. - E seu pensamento sobre a música me fascina senhorita – ele comenta – Apesar de a senhorita Amélia falar sobre o reconhecimento do trabalho, que acho muito válido, a senhorita tem uma singeleza de pensamento que é muito louvável. Música pela música. Isso é fascinante, realmente. Muitos compositores não pensam assim. Compõe para coroa, para ter notoriedade. E até compreendo, pois vivem disso. Mas, para mim, que sou músico e não preciso viver disso, poder compor aquilo que desejo e imagino é muito melhor. É mais gratificante, pois fazemos com a alma, não pelo reconhecimento. - E eu devo concordar com milorde – diz Emily – Eu realmente acho terrível ter de compor apenas para impressionar nossos governantes. Poder compor apenas pelo prazer disso, é algo maravilhoso. E poder executar uma música, pelo prazer de estar fazendo isso é muito mais gratificante. Amélia olhava de Perseu para Emily, achando curiosa a sincronia de pensamentos deles. Não quis comentar nada, pois via o olhar ardente que Perseu dirigia a Emily, que parecia envolvida e ao mesmo tempo contente por expor suas ideias. Ela não julgaria sua amiga, de qualquer maneira. Perseu tinha um magnetismo e mistério que qualquer dama ficaria envolvida e cativada. E eles trocaram impressões sobre a música e apenas foram interrompidos por Mikael, que adentrou o camarote, aliviado por encontrar Amélia ao lado de sua irmã. - Devemos ir Emily e senhorita Amélia – ele comunicou – Agradeço por mais uma vez ter nos oferecido esse trabalhado, lorde Harris. - Eu que agradeço, senhor Mikael, eu que agradeço – diz Perseu. Eles saíram do teatro, acompanhados por Perseu, que não perdia uma oportunidade de trocar palavras com Emily. A mesma se sentia envolvida de uma maneira estranha que não conseguia repeli-lo. Mikael somente respirou com alivio quando adentram a carruagem. Richard e William haviam partido fazia pouco tempo em outra e era dever de Mikael deixar Amélia em casa. A carruagem parou em uma das mansões de Mayfair e Mikael ajudou Amélia descer do veículo. - Senhorita, preciso pedir um grande favor – ele diz – Eu preciso que permaneça sempre junta a Emily. Poderia fazer isso por mim? Amélia acha estranha aquele pedido, mas apenas assente. - É claro, senhor – ela diz – E qual seria o motivo para isso? Mikael engole seco. Não queria expor suas dúvidas quanto a Perseu, mas iria falar-lhe sem expor o cavaleiro. - Senhorita Amélia, é somente cuidado de um irmão – ele responde, tentando sorrir – Eu me preocupo muito com Emily. E há muitos cavaleiros na orquestra e temo não poder estar por perto. Entende o que quero dizer? Amélia assente, contudo sente que Mikael está mentindo. - Claro, entendo perfeitamente – ela diz. Ele beija a mão dela, com um pouco mais de demora. - Eu agradeço, senhorita Amélia – ele diz. E para Amélia, parecia realmente fita-la nos olhos - Até outro dia. Eles se despendem. Mikael, mais tranquilo, adentra a carruagem e parte com sua irmã. Amélia adentra sua residência ainda pensando nas palavras de Mikael. Sabe que há algo errado e está tentada a descobrir exatamente qual seria natureza do pedido dele.
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