Parte XII

2683 Words
- Senhorita Emily, nos encontramos novamente – ele diz, em tom cordial – E soube por William que está noiva.  Aliás, é uma grande coincidência você conhecer meu amigo e estar noiva do meu irmão. Emily engoliu seco. - Ah, sim, que coincidência – ela murmura – Eu não sabia que Adam tinha um irmão. Harris deu de ombros. - Detalhes, meros detalhes – ele diz, entrando na sala. Sua presença era imponente, mesmo andando devagar e com certa dificuldade. Estava amparado por uma bengala – Adam sempre foi muito ciumento comigo. Ele sempre teve inveja, na verdade. Então, é normal que não fale sobre mim. Ele se sentou em uma poltrona e respirou fundo. Parecia estar com dor, pelo seu semblante. Isso chamou a atenção de Emily. - O se...milorde está bem? – perguntou ela. Ele levantou a cabeça, olhando-a surpreso. - Se preocupa comigo, senhorita Emily? – ele pergunta, sentindo regozijado em vê-la assim – E agora estamos mais formais que antes? Milorde? Não, por favor, chame-me pelo meu nome, se desejar. Menos milorde. - E qual seria seu nome? – ela perguntou – Já que o senhor não se apresentou como filho de um lorde, nem ao menos disse que era irmão do meu noivo quando nos conhecemos. - Eu menti um pouco sobre minha identidade. Eu sou conhecido por muitos por Tristan Harris, devido ao meu trabalho com a música. E também, soube a pouco tempo que é noiva de Adam. Felicidades, aliás – ele diz, em tom irônico – Pode me chamar de Perseu e esse é meu nome verdadeiro. Se desejar, é claro. - Eu prefiro manter as formalidades, milorde – ela diz, se sentindo desconfortável. Caminha até a porta, para manter distância dele. - Não tenha medo, Emily – ele diz, observando a tensão dela – Eu não mordo – provocou, mordendo os lábios. Ela não o fitou nos olhos, olhando para o chão. Suas bochechas ficaram ruborizadas. - Não gosto da sua i********e comigo, senhor – ela o repreende, forçando levantar os olhos e encara-lo com valentia. Mas, seu coração estava a mil. - Ora, mas não seremos parentes em breve? Eu não vejo problema – ele diz, se recostando mais na poltrona e cruzando as pernas – E não deveria ter medo de mim, Emily, isso me magoa. Sente-se no sofá, logo meus pais e meu querido irmão irão chegar. Não quer mostrar que me teme na frente deles, quer? Ela mordeu a bochecha, contendo a raiva. Apesar de ter medo dele, aquilo a deixou furiosa. Ela andou até o sofá, batendo os pés com força contra o assoalho e se sentou no sofá novamente, de frente para ele. Colocou as mãos sobre o colo, segurando o regaço da saia, tentando controlar sua raiva. - O senhor é odioso – ela diz, com voz mais baixa – Por que é assim? Em um momento me desperta a compaixão e no outro meu desprezo. Perseu riu do comentário dela. - Eu sou odioso? É a primeira vez que escuto isso – ele diz, parecendo surpreso – Eu apenas estou tentando ser gentil com a senhorita. Acho que estamos começando errado nossa relação. Queira me perdoar. Ela suspira, irritada. Sabia que ele não estava lhe levando a sério. - O senhor deveria se envergonhar – ela diz – Desde o começo foi muito presunçoso. E ainda por cima, se envolver com mulheres casadas. Isso não é certo. - E o que é certo, Emily? – ele provoca. Seus olhos azuis penetrantes a encaram – Seria o que é certo para nossa sociedade? Ou o que a bíblia diz? Eu não sigo isso, Emily. Não sigo essa moral que com certeza você deve conhecer. Eu apenas estava desfrutando da companhia de uma dama que foi forçada a casar cedo demais e com um homem velho e decrépito. Eu proporcionei a ela o que ele não poderia. E o que ela nem desejava dele. Apenas isso. E o que ele fez? Matou-a. E tentou isso comigo. E o covarde nem ao menos veio pessoalmente ou me desafiou a um duelo. Apenas mandou nos m***r, por terceiros. E vão prendê-lo por isso? Não, aposto que não, pois ele está protegido pela lei, devido ao fato de ser muito rico e um maldito aristocrata. E que ironia, eu também sou – enfatizou, com sarcasmo. Emily permanece quieta, diante da declaração dele. Não sabia como rebater aquele argumento, pois havia algumas coisas que Harris tinha certa razão. Contudo, ela não concordava com o adultério, isso nunca. - Devo concordar quanto a impunidade dos seus pares, quando cometem crimes – ela disse – Mas, sobre o adultério, não concordo com isso, mas é apenas a minha opinião. E o senhor denunciou o lorde Ashbourne? Deveria tentar fazer isso, já que é de uma família tradicional. Perseu riu do comentário dela. - É muita ingenuidade achar que uma simples denuncia irá prendê-lo, Emily – ele diz, com ironia – Eu não tenho provas, minha querida, qualquer prova, mas tenho certeza de que é ele. E há muito disso nos casamentos: adultério, Emily. As pessoas casam achando que vão encontrar a felicidade, ou são obrigadas a isso, mas nenhum dos conjugues é feliz de verdade. Eu não me considero culpado, eu dei aquilo que lady Ashbourne desejava: prazer, apenas isso. Se Ashbourne quis me m***r por isso o problema é inteiramente dele. - O senhor é muito cínico – ela constatou – E seu comportamento errático que lhe trouxe essa desgraça. Acho muito bem feito! Ele gargalha e sente um pouco de dor pelo esforço, fazendo uma careta. - Oh, sinto muito – ela diz, se sentindo m*l – Eu não queria que sentisse dor. Ele fica surpreso ao ouvir a candura em sua voz. - Não se preocupe comigo, Emily – ele diz, dando de ombros – Como você mesma disse, eu mereço isso. São as consequências de se envolver com uma mulher casada. Acho que dessa vez irei me aposentar. Emily acaba rindo da sua afirmação. E um primeiro momento teve medo dele, mas percebeu que ele seria inofensivo, apesar do seu modo cínico e libertino. - O senhor deveria realmente se afastar delas, isso poderá lhe trazer mais problemas. Deve ter sido muito difícil ter ficado encamado todo esse tempo. E aposto que lorde Ashbourne está muito furioso por não conseguir tê-lo matado. Perseu a fitou com interesse e se sentiu envolvido por ouvir sua risada melodiosa. - Eu tenho meus meios para me proteger, Emily, fique descansada – ele diz, fitando-a com intensidade – E me sinto lisonjeado por sua preocupação. - Eu não... – ela tentou dizer, mas alguém entrou na sala. - Emily – diz Adam, um pouco tenso – Que bom que está aqui. Peço desculpas por ter demorado tanto. Emily se levantou, feliz por ver seu noivo. Se sentia estranha, ao mesmo tempo, como se tivesse feito algo errado ao conversar com seu cunhado. Adam sorriu para ela, feliz por vê-la e ao mesmo tempo preocupado por seu irmão estar na sala. - Adam, Adam. Como nunca fui apresentado a essa dama, tão interessante – diz Perseu, em tom irônico – Eu realmente estou feliz por ver que fará um ótimo casamento. - Perseu – diz Adam entre dentes, irritado – Gostaria que respeitasse Emily. Ela é minha noiva e merece ser tratada como tal – ele enfatizou, puxando Emily pela cintura. - Tsc, tsc...mas é ciumento esse meu irmão – zomba Perseu – Eu não vou lhe roubar a noiva. Não se preocupe. Emily se sentia desconfortável pela conversa dos dois. Pareciam trocar farpas em cada palavra, gesto e olhar. Ela sentiu a mão possessiva de Adam segurando sua cintura, como nunca havia sentindo antes. - Filho – diz lady Derby, entrando na sala – Que surpresa vê-lo aqui. Está se sentindo bem? Perseu se levantou, ao ver sua mãe. Sentia um profundo respeito por ela. - Minha mãe, não suportava mais de saudades e ficar naquela cama me era difícil. Obrigado por ter me visitado – ele diz, ameno, sem olhar para Adam e Emily. - Oh, querido, deveria ter ficado. Não pode se esforçar tanto – diz lady Derby, em tom maternal. Ela se aproxima dele, beijando sua bochecha. Ele lhe sorri, sincero – E está tão bonito, querido. Eu queria lhe apresentar a noiva de Adam. Emily Leblanc. Ela é linda, não acha? Perseu fita Emily, de cima a abaixo. - É lindíssima, realmente. Estava conversando com ela. Uma ótima escolha, Adam, meus parabéns – ele diz, tentando conter a zombaria em sua voz. Perto de sua mãe, ele não queria demonstrar sua aversão ao irmão gêmeo. - Obrigado – Adam agradece, de modo seco – E vamos jantar, mãe? - É claro, querido. Seu pai já está chegando – ela diz, sorridente e puxa Perseu pela mão. Eles saem primeiro da sala e em seguida Adam e Emily. Ela o puxa pelo braço, fazendo eles irem mais devagar pelo corredor. - Por que nunca me disse que tinha um irmão? – questionou Emily. Adam suspirou. - Eu não me dou muito bem com ele, Emily – responde Adam, parando de caminhar e a fitando, inseguro – Eu temia que ele a conhecesse, na verdade. Ele sempre foi charmoso e envolvente. Fiquei com medo...eu não... Emily apertou sua mão, com carinho. - Está tudo bem, Adam – ela diz, fitando-o com amor – Eu somente quero fazer parte da sua vida. Faz pouco tempo que nos conhecemos e não gostaria de segredos entre nós. Vamos contar tudo um ao outro, sim? Ele assente, um pouco mais aliviado. - Sim, eu prometo ser sincero com você, Emily – ele diz, beijando seus lábios. Ela lhe sorri, retribuindo. - Eu tenho que lhe confessar algo – ela diz, um pouco incerta. Adam a fita, curioso – Eu já conhecia seu irmão, no baile de máscaras. E nos vimos na livraria Flecther. E também com William, no dia em que seu irmão foi baleado. Ela lhe contou tudo, naquele corredor. Adam ficou um pouco ressentido, mas confiava em Emily. Sabia que ela nunca lhe trairia a confiança. - Eu realmente estou surpreso por não saber disso antes – ele diz, ressentido. Emily mordeu os lábios, nervosa – Mas, tudo bem. Eu confio em você. - Eu sinto muito, eu não queria lhe falar nada, para não deixar você preocupado – Na verdade, Emily havia escondido aquilo dele, por medo da reação de Adam. Ele se mostrava ciumento, mas permaneceu controlado, o que ela realmente apreciou – E seu irmão é realmente estranho, mas teremos que lidar com isso, Adam – ela diz, enquanto eles voltam a caminhar. Ela observa os quadros pendurados nas paredes, de pintores famosos, incluindo Rembrandt e Renoir. Além de alguns quadros da família. O chão era atapetado, parecia um tapete caro. Emily se sentia sufocar, pela riqueza daquela casa. Ela era simples, não vivia em meio ao luxo e sentia que não conseguiria lidar com aquilo tudo. Adam percebeu sua insegurança e a enlaçou pela cintura, beijando o topo da sua cabeça. - Fique tranquila, meu amor – ele diz – Será um jantar tranquilo, entre família, eu prometo. Eles adentram a sala de jantar, com uma grande mesa, para trinta convidados. Havia mais quadros espalhados pelas paredes, revestida com papel de parede de flores. Havia um grande espelho horizontal, em cima de uma lareira. Ela podia ver sua expressão pálida, refletida na superfície do espelho. Um lustre majestoso, ligado à energia elétrica estava pendido, no meio da sala. A mesa estava com um balde de champanhe e um de vinho, vários pratos, incluindo faisão, porco, batatas, peixe assado e de sobremesa, suflê de morango. Lorde Derby se levantou e cumprimentou Emily com um beijo na bochecha. Lady Derby a abraçou com carinho e Perseu apenas acenou levemente para ela. Ele estava quieto e não comentou nada durante o jantar, para a alegria de Adam. Todos conversaram amenidades. Perseu era eloquente em seu discurso, conversava tranquilamente com seu pai e sua mãe e as vezes dirigia a palavra a Emily e Adam. Seus olhares eram intensos, dirigidos a ela. E isso não passou despercebido por Adam, que fervia por dentro. - E pude ver sua execução maravilhoso no baile de minha mãe, Emily – Perseu comenta, olhando para ela. Seu olhar era penetrante – Eu realmente desejo vê-la tocar mais. Comprei um teatro aqui em Londres. E há várias peças sendo exibidas, inclusive óperas. Convidei William para se juntar a mim e ele aceitou. Eu gostaria de saber se quer fazer parte, Emily. Lógico que irei pagar por seus serviços. Aliás deve ser independente do meu irmão. Não acha? As mulheres em nosso século estão a conquistar mais espaço e acho justo ajudá-la a ter o seu. Adam respira fundo, tentando controlar a cólera que o toma. Emily segura à mão dele, por baixo da mesa e a enlaça seus dedos com os dele. - É uma excelente ideia, Perseu – concorda lorde Derby, entusiasmada – Eu acho esplendido. Poderia mostrar mais os dons de Emily, que toca divinamente. O que acha, Adam? Não se importa de sua noiva ser reconhecida por seu talento? Adam sentia-se m*l. Seu pai não via as segundas intenções de Perseu. - Não, seria maravilhoso ver Emily tocar, nos concertos que forem exibidos – ele responde, fracamente.  - E não somente nos concertos, acredito que nas peças, que precisarem de orquestras, também – Perseu diz, fitando Emily – Eu quero que você possa brilhar Emily. Com certeza seu irmão, Mikael, também está convidado. Eu pude conhece-lo junto a William, quando eles me fizeram uma visita. Soube que ele também toca, e seria fabuloso ter a presença de dois irmãos tão talentosos. - Eu preciso pensar – ela diz, olhando para Adam, que estava segurando sua raiva e depois para Perseu, que estava muito satisfeito em provocar seu irmão – Acho que não seria de bom tom uma dama que será casada em pouco tempo tocar – ela queria rir do próprio comentário, pois considerava que as mulheres, mesmo que casadas, deveriam ter sua independência. Todavia, desejava a todo custo se esquivar de Perseu. - Oh, não querida, não se importe com a opinião alheia – lady Derby interfere – Eu apoio veemente essa ideia. Nós não somos uma família que preza pelos costumes, terá nossa p******o, querida. Adam com certeza irá ficar orgulhoso. - E além do mais – Perseu complementa, com olhos azuis brilhando de satisfação – eu convidei a senhorita Amélia para fazer parte disso. Assim, não se sentira sozinha, Emily. - É...eu preciso pensar – ela insiste, se sentindo desconfortável. - É claro, de fato precisa. Mas, pense que será algo esplendido – Perseu insiste em tentar dissuadi-la, inflamando a cólera de Adam. - Minha noiva ira pensar, Perseu. Não a incomode, por favor – cortou Adam – E pai, como está no parlamento? – Adam desviou o assunto - Conseguiram aprovar o projeto para auxiliar East End? Aquela região é muito violenta e pobre. - Ah meu filho, meus colegas não são a favor de ajudar pobres – lorde Derby respondeu, desanimado – Eu confesso que estou desiludido ainda de fazer parte da câmara dos Lordes. Faz anos que venho lutando para auxiliar os cidadãos menos abastados – ele se virou para o filho mais velho – Perseu, não se esqueça de que precisamos nos reunir amanhã na câmara. E a conversa girou em torno desse tema, fazendo com que Emily pudesse respirar aliviada e até mesmo comentar sobre a situação. Enquanto bebericavam vinho e comiam, tudo parecia mais calmo e leve. E a cada comentário de Emily, lorde e lady Derby adoravam a forma que sua nora pensava. Ela era boa, compassiva e pensava nos outros. Para eles, era excelente ter mais uma pessoa na família que pensava diferente. Perseu escutava a conversa e as vezes expunha suas opiniões, mas seu interesse era poder chamar a atenção de Emily e envolve-la em seu projeto. Ele não desistiria facilmente.
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