Parte XI

1696 Words
Alguns dias se passaram após o ocorrido no apartamento de Harris. Emily não parava de pensar no que viu. Principalmente no rosto de Tristan e nos seus traços familiares. Desde o primeiro instante, parecia conhecê-lo de algum lugar. A forma como ele a tratou nas poucas vezes que se viram também lhe era curioso. Ela se sentia conectada com ele depois de vê-lo m*l naquele quarto. Sonhava com ele e ele parecia tentar lhe dizer algo, mas ela nunca entendia suas palavras. Ele desaparecia, como se estivesse envolvido em brumas. E logo seu perseguidor a arrastava para longe, para aquele vale sem vida. Ele parecia se contentar em mostrar aquele lugar, como se fosse sua casa.  Duas semanas se passaram e ela convidou William para um chá. Mikael tinha saído, alegado compromissos e não permaneceu com eles. Ela aproveitou a ausência do irmão para perguntar a seu amigo, discretamente, o que tinha acontecido com Tristan. - Ele está bem - respondeu William, bebericando seu chá - Mas está bastante fraco. O tiro deveria tê-lo matado, Emily. Ele por algum milagre está vivo. - Ele contou quem fez isso? - perguntou ela, curiosa. - Ele acredita que seja o marido da sua amante que foi morta. Lady Ashbourne - respondeu ele - Desculpe a franqueza, Emily. Mas, Harris não é um homem confiável. E também não deveria se preocupar com ele. Ele não merece sua consideração. E não para de perguntar se você, o que me deixa profundamente preocupado...- ele aperta os lábios, arregalando os olhos castanhos e bate a mão na testa - Às vezes eu falo demais... Emily riu. Estava sentado ao lado dele no sofá, próximo à janela da sala de estar, sorvendo seu chá preto com bolachas. - Obrigada por se preocupar comigo, William - ela diz, apertando sua mão. Ele aperta de volta, com um sorriso amistoso. Ele a fita com ternura - Mas apenas estava preocupada, pois vê-lo daquele jeito me deixou horrorizada. - Eu sei, a mim também. E fazia anos que não nos falávamos, Emily - ele comentou – E resolvi visita-lo, por dever cristão, apenas. Ele parece muito abatido e não queria ficar sozinho, também. Parece realmente assustado com alguém, que não consigo compreender. Enfim, ele vai se recuperar. Eu havia lhe dito várias vezes para não se envolver com mulheres casadas. Emily escutava aquilo, mas não parecia se abalar. Sabia da índole dos cavaleiros mais abastados, não seria diferente com Tristan. Ela somente esperava que ele estivesse bem. Seu coração não permitia magoa ou ressentimentos. Depois daquela conversa com William, Emily não parava de pensar na história de Tristan. Apesar de ser um homem de índole duvidosa e libertino, ela queria entende-lo e compreende-lo. Era um dos seus defeitos, quando via alguém em perigo, um animal ferido ou mesmo pessoas complexas, queria ajudar, conhecer e desvendar. Contudo, se manteve em sua própria residência e cuidou apenas do seu casamento com Adam. Sua sogra a visitava quase sempre e conversava com sua mãe, Flora. Elas eram conhecidas das primeiras temporadas que tiveram na juventude e retomar a amizade foi algo importante para Flora, que estava sozinha e afastada da sociedade após se casar com Martim. Lady Derby estava contente, dizendo o quando Emily era bela e doce. O quanto ela seria uma boa esposa para Adam. Nunca a criticava, mesmo vendo que Emily vivia descalça pela casa, sujando de barro o chão, devido a estar sempre nos jardins. Mikael sempre ralhava com a irmã, pois podia sentir o cheiro da terra e sabia o que ela estava fazendo. Apesar de não enxergar, ele gostava de manter o ambiente da casa limpo e harmonioso. Adam visitava sua noiva quase sempre, depois das aulas que ministrava na universidade. Estava contente pela data do casamento estar próxima. Seria dali três meses. Sua mãe ficara horrorizada pela pressa e por fazer Emily casar em pleno inverno, mas Adam estava impaciente, não queria esperar mais nem um segundo para estar perto da sua amada. Não sabia dizer o motivo, mas queria estar mais perto dela, como se fosse algo importante mantê-la bem e a salvo. A salvo do que ele nem ao menos sabia. - Querida, meus pais irão oferecer um jantar na residência deles – diz Adam, enquanto vê Emily plantar uma petúnia em um vaso de barro, no jardim – E gostaria que fosse comigo. Aliás, todos nós queremos. Será um jantar em família, apenas. Emily assente. Gostava dos pais de Adam, eram pessoas diferentes e não tinham problemas com a forma que ela era, ou de que família vinha. Estavam mais preocupados com a felicidade de Adam e em conhecer a nora. - Eu adoraria ir, Adam – ela diz, parando de mexer na terra do vaso – Mas, eu não tenho vestido adequado para ocasião. Adam sabia que ela diria isso e havia pensando em como solucionar aquele problema. - Eu já lhe arranjei um vestido, muito bonito – ele diz – Meus pais não iriam se importar se fosse com suas roupas, mas eu sabia que você diria algo assim...e veja, eu como noivo devo lhe presentear e mimar. Ele a segura pela cintura, a puxando para si e plantando um beijo em sua bochecha. Ela fica um pouco surpresa, mas permite o contato mais íntimo. - Ah Adam, você pensa em tudo, não é? – ela diz, rindo – Mas, tudo bem. Será um jantar somente nós quatro? Certo? Ele assente e beija a ponta do nariz dela. - Somente nós, minha ninfa – ele diz, beijando seus lábios de leve. Ela retribui, castamente. *** Emily mirou seu reflexo no espelho. O vestido era azul, com caimento até a canela, com uma saia de pregas, rodado, sem espartilho. Era de mangas curtas, bufantes e havia um xale no mesmo tom, que ela colocou por cima dos ombros. Havia muitas damas que usavam aquela moda de vestido mais modernos e Emily sempre via-as desfilando pela Picadilly, sempre elegantes e com os cabelos curtíssimos. Ela se sentia fora do seu próprio tempo, pois nunca havia se preocupado com isso. Seus cabelos eram na altura da cintura, escuro e um pouco ondulados. Ela pensou em corta-los, como a moda pedia, como via em sua sogra e estava prestes a fazer exatamente isso, quando a porta se abriu. - Querida, o que está fazendo com essa tesoura? – perguntou Flora, olhando desconfiada para a filha – Ah, que vestido lindo que Adam lhe presenteou. Está lindíssima. Emily largou a tesoura na penteadeira. - Eu queria deixar os cabelos mais curtos, como está na moda – ela explica, sem graça – Eu sei que parece bobo, mas queria estar à altura de Adam. Flora se aproxima, tocando os cabelos negros da filha. - Querida, você está à altura dele, não se deprecie assim – Flora diz, enquanto modela o cabelo da filha – E seu cabelo é tão bonito, querida. Não precisa parecer com ninguém, somente consigo mesma. Seja o que quiser ser, minha filha. Nunca se desvalorize. Emily escutava aquelas palavras e assentia. Nunca se vira com bons olhos. Não tinha tanta confiança em si mesma, mesmo aparentando ter para o mundo a fora. E seu pai era o único que sabia lidar com isso, quando ele estava vivo. Ele sempre a ensinava a confiar em si mesma e ter força de vontade. Ensinou-lhe tudo que pode, oferecendo uma educação que uma mulher não poderia receber naquele tempo. Ela tinha liberdade para tudo e fazia o que bem entendesse. E com a perda dele, havia perdido o sentido da sua própria vida, não sabia o que fazer ou como seguir. Assim como Flora. Mãe e filha se sentiam vazias e sem um rumo ou um norte seguro. E Adam apareceu como se tivesse sido enviado pelos céus, para lhes dar uma nova direção. Não que Emily quisesse depositar todas suas fichas nele, mas Adam era a segurança que ela precisava, isso ela não poderia negar. E em algum momento teria que se casar, pois viver daquela maneira que vivia, não poderia ser possível. Não tinha uma formação, sempre estudara em casa e ser preceptora não havia dado certo para ela. Sua beleza irritava as mulheres que a contratavam e os homens tinha ideias lascivas em relação a ela. Após estar pronta, Emily desce as escadas, ao lado de sua mãe. Lorde Derby havia lhe enviado a carruagem da família, para que Emily pudesse chegar até a mansão dele. Adam estaria esperando lá, conforme combinado. Ela percebeu um fato curioso. O brasão na porta da carruagem era o mesmo que havia visto na carta que seu pai havia recebido. Tinha certeza disso e iria conferir a carta depois, com mais calma. Emily adentrou a carruagem elegante e logo esqueceu aquele pensamento, pois estava nervosa pelo jantar. Temia fazer tudo errado, ou não saber usar os garfos direito. Havia aprendido a etiqueta, com sua mãe e seu pai, mas quase nunca saiam para jantares elegantes e seria difícil para ela lidar com aquilo, naquela noite. Seria a primeira vez que iria até a casa dos sogros e desejava impressiona-los. A carruagem adentrou os portões da residência do lorde Derby e a porta ao seu lado se abriu. O condutor a ajudou a descer e ela entrou pela porta da frente, daquela vez. Era uma convidada especial. O mordomo, com roupas de libré a guiou até a sala de estar de cor azul. Parecia temática, constatou Emily. Quase tudo era azul naquele cômodo. Até os móveis. Ela se sentou no sofá, aguardando. Escutou os passos de alguém se aproximando pelo corredor e acreditou ser Adam. Ao se virar, deparou-se com Tristan. Seu coração quase saiu pela boca. Ele vestia smoking preto e seus cabelos castanhos e cacheados estava ajeitado de lado, com brilhantina. Usava um bigode fino, ela notou. E seus olhos eram azuis como o mar. Ela ficou assustada com a semelhança que tinha com Adam, a diferença estava nos olhos e no tom do cabelo e o rosto de Tristan era quadrado, diferente de Adam. Ela se sentiu tremula pela presença daquele homem e pensou em se levantar. E fez exatamente isso.
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