Cassia
Embora esperasse alguma reação, nunca imaginei que Christopher fosse me olhar de soslaio a cada poucos segundos durante a cerimônia. Ainda não superei o seu “Quem é essa?” com aquela cara de incredulidade que, a partir de agora, será minha favorita.
Quando chega a hora de assinar, toda a minha diversão se esvai. Eu assino sem hesitar, mas Christopher leva alguns minutos para fazê-lo. É mais do que óbvio que ele está pensando em Liliana e sente que este casamento é uma amarra que o impede de viver seu amor livremente.
Espero em silêncio, sentindo o meu coração se partir cada vez mais. Não só dói por mim, mas por ele.
— Senhor Sepúlveda, você deve assinar. Indica o juiz. — Você não vai...?
Christopher finalmente reúne coragem e assina a certidão de casamento. O juiz nos observa muito confuso, mas nos declara legalmente marido e mulher.
Nervosa, viro-me para vê-lo e ver o que vai acontecer, já que as pessoas esperam um beijo, algo que mostre que não temos uma arma apontada para nossa cabeça para nos casarmos.
— Dois anos. Murmura Christopher, aproximando-se.
Fecho os olhos assim que a suas mãos tocam o meu rosto. Este não será meu primeiro beijo, mas meu coração acelera como se fosse. No entanto, os lábios de Christopher nunca alcançam os meus, mas sim a minha testa.
Confusa, só vejo como ele se afasta rapidamente após aquele breve beijo. Ao nosso redor, alguns murmuram e outros até riem.
— Não se preocupe, eu o mato, deixo você viúva e você fica com tudo. Diz Lourdes, minha sogra, segurando os meus ombros.
— O quê?
— Fique tranquila, confie em mim.
Ela também sai correndo pelo corredor, como se não se importasse com o que as pessoas falam. Meu sogro me lança um olhar envergonhado antes de sair discretamente atrás da sua esposa.
— Quero ir embora. Sussurro para minha mãe, com a voz trêmula. — Por favor.
— Filha...
— O casamento deles não passava de um acordo, é lógico que ele reagisse assim. Comenta meu pai. — Vamos voltar para casa.
— Não vou ficar aqui? Pergunto com certo alívio. — É que pensei que...
— Você quer ficar aqui para dar explicações aos convidados? Ele bufa.
— Acho que seu pai está certo. Minha mãe me sussurra. — Vamos para casa, meu amor. Vou preparar o que você quiser, está bem? Eu te amo, não se sinta m*al por isso.
Por mais que a minha mãe tente me consolar, não consigo evitar chorar dentro do carro. Embora eu saiba que ele não me ama, achei que pelo menos fingiria ter carinho por mim na frente dos convidados e não deixaria tão óbvio que sou apenas um instrumento para alcançar os seus objetivos.
— Ele é um idio*ta que não sabe o que quer, não merece as suas lágrimas. Diz a minha mãe, sentada ao meu lado.
— Lembro que você está falando m*al da Liliana. Intervém meu pai, sem se mostrar comovido com o meu sofrimento. — Não entendo por que você está chorando, Cassia.
— Porque me sinto humilhada. Admito. — Sei que este casamento não é real, mas Christopher poderia ter dissimulado um pouco, não me deixando ridíc*ula diante dos convidados. Ele deveria pensar que estou fazendo um favor a ele.
Não sei se meu pai reflete sobre essas palavras, mas, felizmente, ele fica em silêncio pelo resto do caminho e permite que a minha mãe fique perto de mim.
Na intim*idade do meu quarto, choro desconsoladamente nos seus braços, sentindo-me a pessoa mais infeliz do mundo.
Embora queira n*egar, sei que, no fundo, esperava agradá-lo, que ele mudasse de ideia e percebesse que posso ser tão especial quanto Liliana.
— Sou uma to*la por desejar isso. Sussurro, assim que os meus soluços diminuem um pouco. — E sinto que sou a pior das irmãs porque sei que Liliana nunca faria algo assim comigo. Ela é caprichosa e tudo mais, mas nunca se interessou por um garoto com quem eu tivesse tido algo.
— Bem, querida, não é como se você tivesse gostado de muitos garotos, e, além disso, Liliana era apenas uma criança naquela época.
— O que você quer dizer com isso?
— Que você não é uma irmã ru*im. Você se apaixonou antes de Christopher mostrar interesse por ela.
— De qualquer forma, me sinto m*al por desejar isso, por querer que ele olhe para mim. Sou um monstro, mamãe.
— Não, querida, não diga isso nunca mais, está bem? Vocês duas são garotas incríveis, cada uma à sua maneira. Você precisa aceitar que nem sempre o amor que você sente por alguém será correspondido, é assim que as coisas são.
— E você? Você não correspondia ao amor do papai?
Mamãe faz uma careta. A minha pergunta acertou em cheio.
—Eu o amei com toda a minha alma, mas entendi que ele não era mais feliz, que não poderia me dar o que eu queria e que eu também não poderia obrigá-lo. Ele poderia mudar por um tempo, mas acabaria voltando a ser o mesmo. As pessoas não mudam.
— Você teve medo de descobrir isso?
— Acho que sim. Ela dá de ombros. — Mas chega de falar de mim, nem vamos falar do idio*ta do Christopher. Pense positivo, pense que você vai ficar aqui comigo, que vai ter tempo de sobra para esquecê-lo.
— Você está certa. Concordo. — Se não tenho que viver com ele, então posso me concentrar em mim.
Embora ainda sinta aquele nó terrível na garganta, estou melhor. O que Christopher fez vai doer por um tempo, mas no final vou superar isso. Se não tiver que vê-lo, talvez a dor passe.
No entanto, todos esses planos entusiasmados vão por água abaixo quando a governanta bate à porta e me avisa que vieram me buscar.
— O que você quer? Pergunto a Christopher ao descer, ignorando os meus batimentos cardíacos acelerados e os pensamentos absurdos que me vêm à mente. — Liliana não está aqui.
— Vim buscar você. Ele responde com seriedade.
Assim como eu, ele não está mais vestido de noivo. Nós dois voltamos a ser o que éramos, mas, por alguma razão, isso não parece mais o mesmo. Saber que ele é meu marido e que não posso tê-lo é mais horrível do que eu imaginava.
— Para quê? Já fiz o que você me pediu, o que mais você quer?
— Pedir desculpas por ter ido embora. Ele responde, deixando-me perplexa. — Eu não deveria ter me comportado daquela maneira. Mesmo que nós dois não nos demos bem, foi uma falta de respeito com você.
Abro e fecho a boca várias vezes, procurando as palavras. Eu esperava qualquer coisa, menos isso.
— Tudo bem. Dou de ombros. — Se a sua consciência está pesada, eu te perdoo. Mais alguma coisa? Porque eu já estava indo para a cama.
— Com quem? Ele pergunta, de repente irritado.
— Com meu namorado. Respondo. — Ele está lá em cima, me esperando de tanga.
— Namorado ou namorada? Só as mulheres usam tangas.
— O que você tem a ver com isso? Rosno. — É...
— Casamos há poucas horas e você já está me traindo? Que tipo de...?
— Pare aí. Exijo. — Claro que não tenho ninguém lá em cima, só minha mãe. Não sou como os outros.
— O que você quer dizer?
— Tenho certeza de que você está traindo a Liliana. Murmuro.
— O quê? Dá para perceber?
— Aha! Você está traindo! Exclamo. — Você é um porco. Ainda bem que não vou morar com você.
— Claro que você vai morar comigo. Ele sorri de uma forma que me dá arrepios. — O testamento diz isso claramente.
— Bem, eu não vou...
— Você vai obedecer, quer queira, quer não. Afirma, segurando o meu braço para impedir que eu fuja. — Seremos um casal de verdade perante a sociedade, e isso significa que, se realmente há alguém esperando por você lá em cima, a diversão acabou, porque você não vai mais vê-lo.