Christopher
Embora eu entenda que este casamento a afeta, não consigo acreditar que ela não tenha a delicadeza de me atender as ligações. Como ela não consegue entender que eu preciso ouvir a voz dela?
— Talvez ela esteja te traindo com o fotógrafo dela. Brinca Lauro, dando-me umas palmadinhas no ombro que me incomodam. — Ou com o porteiro de...
— Você só sabe dizer bobagens. Interrompo-o, grunhindo. — Liliana está focada na carreira dela, mas se ela decidir me trair, perderia tudo. Ela não é idi*ota, sabe perfeitamente o que lhe convém.
— Dizem que as mulheres são mais discretas do que nós. Acrescenta com um sorriso. — Se ela não percebeu os chifres que você está colocando nela, por que você perceberia os que ela está colocando em você?
— O quê? Como assim discretas? O que elas fazem?
— Você por acaso tem onde anotar?
Sem pensar duas vezes, assinto e pego a agenda na gaveta. Não percebo o quão absurdo isso é até que já escrevi dez pontos.
— Acho que você está louco, Lauro. Bufo. — Como vão se esconder nas reuniões com as amigas? Por que elas mentiriam? Ela nem amigas tem.
— O quê? Liliana tem amigas sim. Ele diz, franzindo a testa. — Ou de quem você está falando? Ai, não, não me diga que você conseguiu uma amante que...
— Nada, esqueça isso. Resmunguei enquanto fechava a agenda. — O juiz não demora a chegar. Receba-o, por favor, é para isso que eu te pago.
Meu amigo aperta os lábios para não rir.
— De novo esfregando na minha cara que eu sou apenas seu empregado?
— Já, para de…!
— Ah, ah, era brincadeira. Interrompe-me entre risos. — Isso do casamento já está te fazendo bastante m*al. Coitadinha daquela mulher que tem que te aguentar. E coitadinho de mim.
Sem me deixar responder o que ele merece, ele vai embora. Desde que o velho morreu e já podemos admitir abertamente que somos melhores amigos, Lauro ficou mais descarado do que nunca. Ainda assim, sei que é de confiança, a única pessoa a quem senti vontade de contar o que se passa na minha cabeça.
— M*aldita seja, Cássia. Resmungo, revisando novamente a agenda, especificamente o ponto dois: as senhoras da beleza. Essa tal Silvia não será sua fachada para suas nojeiras.
— Filho, é hora, o juiz chegou. Diz a minha mãe, ao entrar no escritório. — Ai, meu Deus, essa gravata. Quando será o dia em que você aprenderá a colocá-la? Cassia vai pensar que está se casando com um...
— Não me importa o que aquela louca pensa. Interrompo ela. — Ela é...
— Ela será sua esposa e, como tal, você vai respeitá-la. Ela rosna. — Se você não fizer isso, juro que vou estourar a sua cabeça.
— Agora você está do lado dela?
— Quer que eu te diga a verdade? Ela sorri. — Sim, eu gosto mais dela, o que fazer? Liliana é uma menininha mimada que não tem nenhum interesse na sua vida, apenas na dela.
— Mas se você sempre a trata...
— Então o quê? Quer que eu use o rosto dela como saco de pancadas? Porque, sim, eu gostaria.
— Mãe! Exclamou furioso. — Ela é...
— Sim, sim, ahã, seu amor verdadeiro e tal. Ela bufa. — Se fosse realmente assim, você não estaria dormindo com cada mulher que cruza o seu caminho. Por certo, a funcionária encontrou um pacote de preservativos debaixo da cama, e outra deixou certas marcas no seu pescoço há duas semanas.
— Você notou? Pergunto com a testa franzida.
— Ai, querido. Os homens são muito óbvios para cometer adultério. Deveriam aprender com as mulheres. Ela ri.
— Você...?
— Não me falte com o respeito. Adverte-me com tom ameaçador. — Eu só quero o seu pai. Mas se eu o enganasse, você jamais saberia.
Essas palavras continuam ecoando em cada canto do meu cérebro enquanto desço as escadas para encontrar os convidados. Não são muitos, mas são suficientes para que a notícia se espalhe.
— Eu disse a vocês que era uma cerimônia ínti*ma. Reclamei para meu pai no jardim. — Você não tinha pedido para a mamãe...?
— Sinto muito, mas não posso detê-la. Ele me explica. — Isso poderia ter me custado o meu casamento.
— Mas...
— Quando você se casar, vai me entender.
— Estou me casando e…
— Bom, então você vai me entender. Ele sorri.
Sem dar ouvidos ao que ele me diz, cumprimento os outros convidados por pura obrigação e depois me dirijo ao juiz, que já está pronto.
— Me avisaram que a sua noiva já chegou. Ele me anuncia. — Meus parabéns, senhor Sepúlveda.
— Obrigado, suponho.
"Só espero que ela não venha de cabelo solto", penso nervoso.
Poderei falhar com Liliana com todas as mulheres que existirem, mas não com aquela ruiva descarriada.
Ao longe, Lauro me olha de boca aberta e levanta os polegares. Não há marcha nupcial, apenas uma música suave, que a minha mãe pediu por sentimentalismo e para que este trâmite não passasse despercebido.
"Devia ter deixado ela vir assinar e pronto", penso com fastio antes de me virar para o corredor por onde vem a minha futura e detestável esposa.
Máximo está vindo para cá com a mesma expressão de aborrecimento de sempre. Do braço vem com uma mulher extraordinariamente linda que me recuso a aceitar como a mesma que escolhi para me casar.
Não, Cássia não tem aquelas curvas requintadas nem se*ios voluptuosos que o vestido marca perfeitamente, também não fica bem com o cabelo preso e nem tem olhos cheios de cílios grossos e longos.
Muito menos tem lábios carnudos, um verdadeiro convite para o melhor se*xo oral da vida.
— Quem é essa? Espeto sem pensar, mas felizmente faço isso em voz baixa e ninguém ouve.
Máximo franze a testa.
— Sou eu, Christopher. Responde Cassia, tentando não rir. — Embora você não acredite, eu sou sua cunhada.