Cassia
Como disse a mamãe, meu pai não me impediu de tomar o café da manhã que ela me preparou. Não a elogiou como costumava fazer quando estavam casados, mas pelo menos não fez cara de nojo.
— Acho que ele gostou. Mamãe ri enquanto me ajuda a me arrumar. — Não disse, mas aqueles olhos não mentem.
— Isso não vai te trazer problemas com o Íker? Perguntei preocupada. — É que...
— Isso não importa. Ela sorri, desconfortável. — Sabe que a minha prioridade sempre serão Liliana e você. Não gostou muito, mas respeita.
— Ele é um bom homem. Tomara que algum dia eu encontre alguém que me ame tanto quanto ele te ama.
— Você vai conseguir, talvez até melhor. Ela sorri, acariciando a minha bochecha com ternura. — Chegará um homem que te amará tanto que preferirá perder tudo a perder você.
"Tomara que esse alguém fosse o Christopher", penso com tristeza.
— Sei o que você pensa, mas nem sempre o que a gente espera acontece. Ela continua. — Eu queria que seu pai me amasse de certa forma, mas não foi assim e não funcionou. Embora o certo sempre chegue, aquele que te ama como você merece.
— É melhor eu começar a me arrumar. Digo para mudar de assunto. — O casamento é às doze e eu já quero que este martírio termine.
— Eu também. Jamais pensei que o casamento de uma das minhas filhas me daria tanta tristeza. Cássia, pela última vez, me diga que...
— Não, não há escapatória, só esperar dois anos. Interrompi ela. — Depois economizarei o suficiente e iremos embora.
— Mas...
— Mamãe, por favor. Imploro. — Não insista, eu tenho que me casar com Christopher, não há outra saída.
— E se, no fundo, você quiser se casar? Ela levanta uma sobrancelha. — Essa sua insistência...
— Você sabe que o amo, mas daria tudo para não me casar com ele. Murmuro com voz trêmula. — Não consigo ser feliz sabendo que ele ama Liliana e que contará cada segundo para se divorciar.
— Meu amor, não faça isso. Ela insiste. — Esse casamento será um inf*erno.
— Fique tranquila, vai valer a pena. Talvez eu me divorcie em um ano. Com o jeito que Christopher tem, com certeza ele consegue.
— Pois tomara. Concorda. — Está bem, não insisto mais. Está claro que não vou te convencer.
— Não, você não fará isso. Venha, quero te mostrar meu vestido.
A reação da minha mãe ao meu vestido não me decepciona, até supera as minhas expectativas.
— Você fez um ótimo trabalho. Ela diz com entusiasmo. — Não sabia que você costurava tão bem, filha. Você melhorou muito.
— De verdade? Eu sinto que ainda falta algo, como...
— Não, não, de verdade está perfeito. Ela me garante. — Você ficará linda, mesmo que não seja o vestido que você sonhava. Ainda guardo o que você desenhou.
— O quê? Rio, incrédula. — Sério?
— Sim, meu amor. Sempre guardo todas as coisas que você e a sua irmã me deram.
— Mamãe...
— Agora sim, vá tomar banho para que eu possa arrumá-la depois. Também tenho que secar o seu cabelo.
— Promete-me que estarás aqui quando eu sair. Digo, sobrecarregada. — Tenho medo que...
— Fique tranquila, claro que estarei aqui quando você sair. Não vou me dar ao luxo de ser expulsa pelo seu pai no meu primeiro dia.
Nós duas caímos na risada.
— E, além disso, jamais faria nada para te deixar sozinha. Fique calma, meu amor, você não precisa se preocupar.
— Está bem, mamãe.
Dou um beijo na bochecha dela e pego as minhas coisas para tomar um banho, que faço rápido por medo de que ela não esteja quando eu sair.
— Eu te disse que estaria aqui. Ela ri ao me ver sair quase encharcada. — Você não confia em mim?
— Em você confio sempre.
— Então, mãos à obra.
Mamãe me obriga a secar bem o cabelo e, a partir daí, começamos com a minha preparação.
Não entendo por que ela insiste em que eu pareça uma deusa, mas não pergunto e me limito a desfrutar da sua companhia, da qual estive muito privada desde que ela saiu de casa.
— Apesar de tudo, fico emocionado que você vá se casar. Ela diz sorrindo. — Teremos prática para quando você se casar de verdade, com a pessoa que escolher.
— Não sei se algum dia vou querer me casar. Respondo, encolhendo os ombros. — Não acho que valha a pena.
— Mas...
— Não vamos falar dessas coisas. Interrompo ela, temendo que o papai ouça e fique furioso. — Por favor, melhor...
— Está bem, você tem razão.
Mamãe não volta a mencionar temas amorosos enquanto me maquia com os cosméticos que trouxe naquele dia da estética. O meu relaxamento chega a tal ponto que esqueço completamente que estou me preparando para o meu próprio casamento.
— Pronto, meu amor, agora só precisamos colocar o vestido em você.
A prova de fogo chega assim que tenho que entrar nele. Os ajustes que fiz, infelizmente, não foram no meu corpo porque eu não podia pedir ajuda.
Para nosso alívio, o vestido desliza como uma luva e serve perfeitamente.
— Agora você tem que se olhar no espelho. Ela diz com entusiasmo. — Você está lindíssima.
Ao me olhar no espelho, quase não me reconheço. Minha mãe sempre opta por maquiagens pouco carregadas e, embora esta não seja a exceção, me vejo bonita demais para ser verdade.
— Sou eu? Pergunto com uma risadinha nervosa. — Sou mesmo eu?
— Sim, querida. É você.
Naquele momento, a porta do quarto se abre com tanta brusquidão que eu nem me assusto mais. É meu pai, que já está vestido com um terno preto que lhe cai muito bem.
— O que dia*bos vocês fizeram? Reclama, percorrendo-me com o olhar. — Onde está o vestido que eu te comprei?
— É este, pai. Aceito sem mais, mas sem olhar nos olhos dele. — É que era horrível.
— Você não vai usar, também...
— Máximo, por favor. Interrompe a minha mãe, colocando-se na frente dele. — Sei que você não gosta disso, mas é o dia do casamento dela.
— Não está se casando por gosto. Ele a lembra, olhando-a com desprezo doloroso. — Não precisa se apresentar assim.
— Decente? Respiro fundo. — Pai, quero ficar bonita no dia do meu casamento, não parecer um saco de lixo do qual se riem. Sei que não estaremos só nós, também haverá testemunhas e outros convidados. Não posso aparecer como uma vagab*unda.
— Você está traindo Liliana.
A suas palavras são mais um tapa na cara, mas decido que essa briga tenho que ganhar a todo custo.
— Não, eu a decepcionaria se tivesse algo com o Christopher, mas não é o caso, papai. Lembro a ele. — Só... quero ser uma noiva como qualquer outra.
— Você não parece normal. Luzes...
— Sim, como um anjinho lindo. Sorri a mamãe. — Mas Cássia não tem culpa de ficar linda com um arranjo tão simples. Mesmo que estivesse usando um saco de batatas...
— Você encheu a cabeça dela com essas ideias. Ri papai com ironia. — Eu sabia que...
— Não vamos mais discutir, fica assim. Sentencia a minha mãe. — Não temos mais tempo, são onze e quarenta.
— Não, a minha filha não se casa assim, ela...
Meu pai se cala ao notar algo estranho no rosto da minha mãe.
— O que aconteceu com os seus lábios? Exige saber.
— Nada. Ela mente antes que eu possa explicar. — Agora...
— Diga-me o que aconteceu. Insiste, cada vez mais furioso.
—Vou te dizer a verdade se você deixar a nossa filha se casar assim. Propõe a mamãe. — A verdade é que é algo delicado.
— Mamãe! Exclamei aterrorizada. — Não...
No final, a estratégia dá resultado. Meu pai faz comentários mordazes que me machucam, mas no final concorda que eu vá assim.
Agora não estou nervosa com o casamento, mas com as coisas terríveis que ele pode estar pensando por causa daquele lábio rachado.