Cassia
— Por que você não me disse nada? Por que di*abos eu vou trabalhar para o Christopher? Reclamo com meu pai quando volto para o escritório. — Não era para eu estar longe dele?
— Você não vai estar realmente perto dele. Terás o teu próprio escritório. Responde-me com expressão neutra, como se falasse de um negócio qualquer. — Não terão que se ver.
— Suponho que você não quer mais me ver por aqui. Sorrio tristemente. — Está bem, eu...
— Terás que vir aqui também. Interrompe-me. — Irás alguns dias para lá e outros para cá.
— Genial, obrigado por me levar em conta, por me consultar tanto. Disparo com sarcasmo. — Concordei em me casar, pai, mas não em que decidam o meu futuro profissional.
— Você tem um futuro profissional? Ele suspira. — Só sabes...
— Sei fazer muitas coisas e acho que você sabe disso de sobra. Interrompo-o, lutando para não chorar. — Por alguma razão você me tem aqui.
— Sim, para que você não se torne uma libertina... igual à sua mãe.
Recuo dois passos. Uma bofetada teria me doído menos.
— Minha mãe não é nenhuma libertina. Defendo-a, mas minha voz treme mais do que eu gostaria.
Odeio a minha menstruação. Ela me deixa muito mais sensível. A única coisa boa é que isso vai me salvar caso Christopher enlouqueça e queira exigir os seus direitos de marido. Não sei por que, mas aquela conversa que tivemos me faz suspeitar que ele é um daqueles homens luxuriosos, incapazes de serem fiéis nem a si mesmos.
Pobrezinha da Liliana...
— Volte ao trabalho, Cassia. Ele me diz de mau-humor. — Não perca tempo.
— Estou perdendo tempo de verdade aqui. Respondo com um sorriso irônico. — Vou trabalhar com o Christopher, mas nem por um segundo volto a pisar nestes escritórios. Aliás, você não precisa mais se preocupar comigo.
Meu pai franze a testa e finalmente tem a decência de olhar para mim.
— Você não pode desistir. Ele responde. — Deixe de dizer bobagens.
— Claro que posso e estou fazendo. Estou cumprindo a minha parte do acordo, então você não pode me ameaçar em não trazer a mamãe.
Sem deixá-lo falar, arranco o crachá dele e jogo-o na mesa. Sei que o que estou fazendo possivelmente vai piorar as coisas entre nós dois, mas já estou cansada.
— Cássia! Ele grita quando eu saio do escritório, com a voz ecoando pelo lugar. — Cássia!
— Não vou te ouvir. Respondo, enquanto recolho as minhas coisas com brusquidão. — Vou fazer esse favor para a Liliana, mas não espere mais nada de mim.
— Sabe que não pode desistir, Cassia. Diz-me zangado. — Quer que eu diga que você é boa? Sim, você é! Mas não por...
— Pai...
As suas feições se suavizam ao notar os meus olhos cheios de lágrimas.
— De novo com o período? Pergunta sem mais nem menos. — Você nunca chora, só quando está em um.
Um soluço escapa de mim enquanto cubro o rosto com as duas mãos.
— Não vamos falar sobre isso, é desconfortável. Rosnou.
— Enfim, vou embora. Não quero mais estar aqui.
— Não, eu disse que não. Ele me diz, pegando nos meus ombros. — Você vai sentar e terminar o trabalho agora mesmo.
— Mas...
— Você fará isso. Você não pode deixar a sua carreira pela metade, o que será de você quando se divorciar?
Embora me custe admitir, ele tem razão. Não posso abandonar os meus estudos, o único sustento que terei quando a porcaria do meu casamento acabar.
— Está bem, suponho que seja verdade, mas só te peço que não machuques a mamãe. Respondo. — Ficarei aqui, obedecerei a todas as suas ordens, mas com ela...
— Isso nós veremos. Ele me interrompe. — Volte ao trabalho.
Quando fico sozinha, passo de chorar a sorrir como uma boba. Eu o conheço bem e sei que essas palavras significam que ele vai me dar ouvidos.
A última vez que ele disse isso, eu tinha seis anos e ele me comprou a casa de bonecas gigante que eu queria.
Só espero que não surjam problemas com o Íker por causa dos meus pedidos.
Naquela noite, ao voltar para casa, não parei de pensar no quão perto estive de me deixar levar e descobrir que gosto têm os seus lábios. Sinceramente, espero que tenham um gosto horrível e que eu realmente tenha mau hálito.
Entre risos pelos meus pensamentos, preparo-me para dormir e faço os últimos ajustes no meu vestido, que mantive escondido para que ninguém o estragasse.
Tive que ver mil tutoriais e furar os dedos, mas acho que ficou bem bom. Talvez não seja um vestido de conto de fadas, mas pelo menos não vou mais parecer uma freira.
Já está tudo pronto para amanhã.
— Ninguém vai te tirar das minhas mãos. Murmuro enquanto o guardo na capa para levá-lo ao meu closet.
Esses dias tenho estado paranoica com a ideia de que o papai descubra as modificações do vestido. Felizmente, ele tem estado ocupado e não me conhece o suficiente para descobrir os meus talentos ocultos.
— Eu também posso ser um cérebro. Sorrio enquanto me ajeito na cama.
Durante os primeiros minutos, fico com o olhar fixo no teto, incapaz de apagar o abajur. Amanhã eu realmente me casarei com o homem por quem tenho estado perdidamente apaixonada.
E não só isso, também vou trabalhar com ele em um daqueles projetos que ele tanto anseia realizar. Pergunto-me se será sobre alguma doença rara ou um medicamento fora da linha comum que costumam lidar. Mais de uma vez a minha irmã se queixou com o papai de que a visão de Christopher é muito filantrópica, mas ela sempre teve a prudência de não comentar isso diretamente com ele.
Tenho certeza de que, se Christopher soubesse, ficaria muito decepcionado.
Em algum momento da noite consigo dormir, embora continue pensando em Christopher e naquela atitude tão estranha que ele mostrou.
— Bom dia, minha menina. Sussurra alguém no meu ouvido.
Levanto-me de repente e a minha cabeça bate em algo duro. Imediatamente, mamãe solta um grito, levantando-se da minha cama entre queixas e risos de dor.
— Ai, você rachou o meu lábio. Ela diz rindo. — Você está com os nervos à flor da pele, filha.
— Mãe, desculpa. Suplico, ainda desorientada. — Doeu muito?
— Acho que até me derrubou um dente.
— Ai, não! Exclamei assustada. — Mamãe...
Ela começa a rir alto enquanto abaixa a mão.
— É brincadeira, embora você tenha aberto um pouco o meu lábio.
— Desculpe. Digo, abraçando-a. — Não quis te machucar, só não esperava te ver aqui tão cedo.
— São ordens do seu pai. Suspira ao me soltar. — Ele quer que eu te vigie e que você não faça loucuras.
— Hum... Que estranho, ele supostamente não confia em você. Respondo, franzindo a testa. — É possível ficar senil aos quarenta e dois?
Mamãe nem sequer sorri com a minha piada.
— Não, filha, o que acontece é que ele confia que eu não farei nada. Me explica, acariciando o meu rosto. — Cumprirarei à risca, não me separarei de você. Não veja isso como vigilância, apenas...
— Não, eu nunca pensaria isso. Interrompo. — E farei o que for preciso para que não me separem de você. Por certo, lindo uniforme, embora me indigne que você tenha que usá-lo.
Mamãe cora e acaricia a saia preta do vestido de empregada, que é diferente do das outras. Não é que o delas seja ousado, mas o dela é ainda mais longo.
—É o que me cabe, é a vida que eu escolhi.
— É mesmo a vida que você escolheu, ou a que meu pai escolheu por você? Você tem uma carreira.
— Eu escolhi amar e ser amada. Responde-me em voz baixa. — Toda decisão tem um preço, às vezes mais alto do que você imagina.
— Mamãe...
— Tem certeza que quer se casar, meu amor? Eu poderia libertá-la. Faria qualquer coisa que seu pai me pedisse. Sim, o que quer que fosse.
— Não, mamãe. Ne*go com a cabeça. — A última coisa que quero é que você se sacrifique por mim. Além disso, papai jamais te pediria algo assim. Na verdade, não entendo por que ele aceitou te trazer como empregada se não quer te ver.
— Eu também não sei, mas não importa. O melhor é que você desça para tomar café da manhã; eu mesma cozinhei para você, meu amor.
— De verdade?
—Sim. E não tenha medo que seu pai estrague tudo. Falei com ele e, a partir de agora, tudo será diferente. Eu vou te proteger, sim? Estaremos juntas por muito tempo porque, embora você more na casa dos Sepúlveda, esta continuará sendo sua casa.
— Mamãe! Exclamei feliz antes de abraçá-la novamente.
— Eu te amo, e nunca mais vamos nos separar. Ela me garante. — Venha, agora sim, tomar o café da manhã e se tornar a noiva mais linda de todas.
E como me deixaria uma deusa completa...