Episódio 2

1171 Words
Cassia Embora meu pai se incomode que eu não use os motoristas da empresa, decido pegar o ônibus. Nenhum deles tem permissão para me levar para ver a minha mãe, já que o papai não pode vê-la nem pintada. Ainda assim, ele continua obcecado. Não se casou novamente e garante que não acredita mais no amor, embora eu saiba que, no fundo, ele conserva a esperança absurda de que a mamãe se divorcie e volte para ele. Isso não poderia acontecer nem num milhão de anos. Coloco os fones de ouvido e me acomodo no assento. Não choro mais, embora os meus olhos ainda estejam irritados. Às vezes eu queria ser mais como a mamãe e não sofrer pelo que me fazem nesta família que deveria me proteger, mas meu cérebro simplesmente não coopera. A única pessoa no mundo que não me trai é a mamãe. Só espero que ela nunca se canse de mim. Ao chegar em casa, bato na porta timidamente, esperando ter má sorte e não encontrá-la. No entanto, quando o meu padrasto abre, o aroma do jantar que ela está preparando me envolve. — Cass! Exclama Iker com um sorriso. — Que surpresa! — A Cássia está aqui? Pergunta a mamãe. Um sorriso enorme se desenha no meu rosto ao ouvir como ela deixa tudo para vir me ver. Fiz bem em vir, embora depois me espere um sermão de pelo menos meia hora. — Minha preciosa! Saúda-me a mamãe com alegria, beijando as minhas duas bochechas. — Que bom que você veio me visitar. Entre, você precisa comer alguma coisa. Seu pai te explora tanto que me dá vontade de matá-lo com as minhas próprias mãos. Onde está a minha gordinha? Você está na pele e no osso! — Não estou com fome. Respondo desanimada, e ela franze a testa. — Comigo você não vai sair com essa desculpa. Resmunga, tentando soar brincalhão, mas ao ver a minha expressão recupera a seriedade. — O que acontece, minha menina? O que te fizeram agora? Esse tom carinhoso me quebra completamente. Iker, sem saber o que fazer, sai de casa para nos deixar sozinhas, e então posso chorar copiosamente no colo da mamãe enquanto conto tudo o que vai acontecer. — Não, você não pode se casar. Ela diz, angustiada. — Desde quando você está noiva? — Há três dias. — E por que você não me disse nada?! Ela reclama. — Falarei com seu pai, não me... — Não, você tem uma ordem de restrição. Lembro a ela. — Você não pode se aproximar nem do meu pai, nem da minha irmã. — Aqueles dois são um... Por que você tem que se casar com Christopher, se quem ele quer é sua irmã? Por certo, muito questionável. Ele é um homem feito e direito, e Liliana é apenas uma menina, embora seja maior de idade. Por que seu pai...? — O avô de Christopher morreu há algumas semanas. Ele é o único neto dele, mas, aparentemente, aquele homem era obcecado com as boas aparências, então agora ele tem que se casar para poder herdar. O prazo vence em um mês e, se não o fizer, ele perderá. Liliana não pode se casar até daqui a dois anos. A agência a tem presa. — Mas ele já é rico, para que querer mais? — A fortuna dos Sepúlveda ascende a bilhões em ativos, mamãe. Explico a ela. — Perder isso só porque, sim, é uma loucura. Christopher trabalhou a vida toda por isso. — Pois eu rejeitaria todo o dinheiro do mundo para estar com a pessoa que amo. Resmunga. — Enfim, por isso deixei seu pai. Ele jamais teria renunciado a nada por mim. — Fico feliz que você tenha conseguido escapar do seu destino. — E você também pode. Responde. — Sei que esta casa não é tão grande quanto a do seu pai, mas aqui você sempre terá muito amor. — Eu sei, mas isso é inevitável. Suspirei, pensando em todas as ameaças do meu pai. — Ele vai me fechar as portas em todos os lugares, e eu não posso me dar ao luxo disso. — Filha, mas... — É um fato, mãe. Interrompo-a. — Não posso evitar, tenho que me casar com ele. Dentro de dois anos me devolverão a liberdade, eles se casarão e eu... — E você terá o coração tão despedaçado que não poderei suportar. Diz ela com os olhos cheios de lágrimas. — Você não merece acabar assim. — São só dois anos. O que são dois anos diante do resto da minha vida? Tento sorrir, mas os lábios tremem e volto a chorar. — Dois anos que podem te destruir para sempre. Ela murmura. — Filha... Enquanto soluço, penso em quanto desejo contar a verdade para ela. Se meu pai não me ameaçasse com destruir a minha vida se eu saísse de casa, eu teria fugido há muito tempo, longe da dor de ver o homem que amo desejar e amar a minha irmã. — Pelo menos jure que nunca vai implorar amor ao seu marido. Ela me pede, pegando nas minhas mãos. — Por favor, prometa-me. — Juro por Deus, mãe. Respondo sem pensar. — Christopher não me ama. E, embora eu o ame, não guardo a menor esperança no meu coração de que ele me corresponda. Mamãe não fica totalmente tranquila com as minhas palavras, mas pelo menos me deixa ir depois do almoço. Iker não pergunta nada. Ao notar a minha tristeza, ele me entrega o picolé que comprou na loja enquanto esperava que eu falasse com a mamãe. <<<<<<< — Não vou te decepcionar, mamãe. Sussurrei ao estar em frente à loja de vestidos de noiva. Nunca implorarei pelo amor de nenhum homem, por mais que eu o deseje. Entro na loja, pronta para falar com a costureira, que ao me ver me observa com evidente desconforto. — Aconteceu alguma coisa? Perguntei nervosa. — Só vim para que tomem minhas medidas. Não vou pedir nada complicado, só... — O que acontece é que acabei de receber uma ligação do seu pai, senhorita. Interrompe-me, corando e evitando olhar nos meus olhos. — Não podemos fazer um vestido para você. — Por que não? Franzo a testa. — Está tudo pronto para a cerimônia e... espere, vou ligar para o meu pai. — Não precisa ligar para ele, pediram para eu explicar o motivo. — E qual é essa razão? — Sua irmã disse que não queria fazê-la passar por uma cerimônia constrangedora e desnecessária, então você não se casará com um vestido. Informa-me, e sinto o meu coração quebrar ainda mais. — Será ela quem virá tirar as medidas para o vestido do seu casamento simbólico. ‍​‌‌​​‌‌‌​​‌​‌‌​‌​​​‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​​‌​‌‌‍
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