Isabelly Narrando
Naquela noite, eu não consegui dormir direito.
Fiquei rolando na cama, com a cabeça girando entre o olhar da minha mãe, a cobrança, o medo e... o rosto dele.
As palavras dela bateram forte.
"Eu não vou aceitar você envolvida com homem errado."
"Se tu tiver andando com bandido, não pisa mais aqui com isso."
E aí tudo o que eu tinha vivido com o sombra as risadas, os silêncios bons, o cuidado escondido virou uma mistura confusa de culpa e saudade.
No dia seguinte, decidi que não ia responder ele.
Pelo menos por um tempo.
Pelo menos até conseguir me entender.
Quando acordei, tinha duas mensagens dele
Mensagem on
Sombra: Tá tudo certo aí?
Sombra: Se quiser conversar, tô aqui. - Olhei. Encostei o celular na cama e deixei lá e não respondi.
(...)
Durante o dia, tentei me ocupar. Cheguei cedo na papelaria, me afundei nos pedidos, nas reposições, nos clientes.
Falei pouco, sorri menos ainda.
Até a Alessandra percebeu.
Alessandra - Que cara é essa?
Isabelly - Tô cansada. - Ela não acreditou, mas também não forçou. Só ficou me olhando de canto, como quem já entendeu demais.
E eu fiquei ali, tentando fingir normalidade.
Mas tudo parecia diferente.
A rua. O horário. O celular no bolso sem vibrar.
A ausência dele do outro lado da calçada.
Eu tentava repetir pra mim mesma:
"É melhor assim."
"É o certo."
"Você precisa se proteger."
Mas a verdade é que o silêncio dele doía mais do que eu imaginava.
No fim do expediente, olhei o celular de novo. Nenhuma nova mensagem.
Dele, nada.
E aí eu me perguntei:
Será que ele entendeu meu recado?
Ou será que tá só me deixando no meu canto até eu voltar?
Apertei o celular contra o peito, fechei os olhos e respirei fundo.
Eu tava tentando ser forte.
Tava tentando pensar com a cabeça, não com o coração.
Mas...
Se afastar não é esquecer.
E só se machucar calada.
(...)
Rodrigo Narrando
Ela sumiu. Simples assim.
Do nada.
Sem aviso, sem "tô indo", sem desculpa esfarrapada.
E o pior? Eu senti na hora.
Primeiro, achei que era só coisa do dia. Que ela tava ocupada, cansada.
Que ia responder depois.
Mandei mensagem.
"Tá tudo certo aí?"
Mais tarde, outra:
"Se quiser conversar, tô aqui."
Silêncio.
E aí veio aquela sensação que eu odeio de impotência.
Porque eu sou acostumado com controle.
Com saber onde pisa.
Com comandar, resolver, decidir.
Mas quando se trata dela... É outra coisa.
Desde que ela apareceu, bagunçou tudo.
Do jeito mais calmo, mais simples.
Sem forçar nada.
Só sendo ela.
E por isso mesmo, esse silêncio dela me inquieta tanto.
Porque não é só saudade.
É aquela dúvida:
"Será que eu exagerei?"
"Será que ela se assustou?"
"Será que alguém falou demais?"
No fundo, eu sei o que pode ter acontecido.
A quebrada tem olho pra todo canto e boca também
Uma flor entregue na casa errada, uma carona vista por vizinho, uma foto na hora errada...
É tudo que precisa pra nós complicar.
E eu não sou bobo.
Sei que ela tem uma mãe rígida. Uma vida certa. Um caminho limpo.
E eu? Eu sou o oposto disso tudo.
As vezes eu tento me convencer que é melhor assim.
Melhor ela sumir.
Melhor ela se preservar.
Melhor ela sair fora antes que se afunde nesse mundo que não tem volta.
Mas aí... Eu lembro do jeito que ela ria.
Do cheiro que ela deixava no meu travesseiro.
Do silêncio bom que só rolava quando ela tava perto.
E aí eu me pergunto:
Se é melhor assim, por que essa p***a tá doendo tanto?
Não sou de correr atrás.
Mas também não sou de fingir que não tô sentindo.
Então vou dar o tempo dela.
Deixa ela respirar.
Deixa ela pensar.
Mas se eu descobrir que alguém meteu o nariz onde não foi chamado, e inventou história ou fez ela se afastar por medo... eu mesmo vou resolver.
Porque sumir sem dizer nada... beleza.
Mas ela levou parte de mim junto.
E isso, nem o tempo resolve fácil.