cap 26 o mundo nunca esquece

719 Words
Isabelly Narrando Acordei com o braço dele jogado em cima da minha cintura e a respiração lenta no meu pescoço. Por um segundo, nem lembrei de onde tava. Mas aí veio o cheiro do quarto, o barulho da rua lá fora e o corpo dele grudado no meu. Lembrei de tudo. A noite, a lancha, a menina dando em cima, a conversa no fim, o convite pra dormir aqui. E, principalmente, como tudo isso me parecia natural demais. Tipo um lugar que eu nem sabia que queria, mas que agora não queria sair. Virei devagar. Ele ainda dormia. Cabelo bagunçado, boca entreaberta, uma tatuagem escondida pela coberta. Fiquei observando por alguns segundos, sem mexer um músculo. Até que ele abriu os olhos devagar, com um sorrisinho no canto da boca. Sombra - Tá me encarando por quê? Isabelly - Porque tu dorme que nem um bebê - falei, tentando disfarçar. Sombra - Tu também. Ele esticou o braço e me puxou de leve pra mais perto. Sombra - Fica mais um pouco. Isabelly - Só se tiver café. Sombra - Aí tu quer demais - ele riu. - Mas vamo lá vê o que eu consigo fazer. - ele disse e levantamos e fizemos nossa higiene e depois fomos pra cozinha. Ele mexia no ovo na frigideira enquanto eu picava o pão e colocava suco nos copos. Isabelly - Tu sabe fazer almoço ou só vive de café e miojo? Sombra - Sei mais do que tu pensa. Só não cozinho pra qualquer uma. Isabelly - Ah, entendi. Então eu sou uma exceção? - Ele me olhou de canto, aquele sorrisinho misterioso que ele solta quando quer dizer sem dizer. Sombra - Tu sabe que é. Comemos rindo, dividindo o garfo, falando de nada importante. Pela primeira vez, o mundo lá fora parecia calado. Nenhum perigo. Nenhuma cobrança. Nenhuma diferença. Mas o mundo não cala por muito tempo e o meu celular vibrou e mostrou o nome da minha Mãe na tela. Suspirei antes de atender. Ligação on Isabelly - Oi, mãe. Mãe - Onde você tá? Isabelly - Tô com a Alessandra, ué. Mãe - Alessandra tá aqui em casa, Isabelly. Veio deixar um negócio da sua tia. Mãe - Vem pra casa agora. A gente precisa conversar. - O coração gelou. Isabelly - Já tô indo. Ligação off Isabelly - preciso ir pra casa me leva por favor Sombra - aconteceu alguma coisa? - fala me olhando preocupado Isabelly - minha mãe - não preciso falar mais nada que ele já entende e me levou até em casa. (...) Entrei devagar. Minha mãe tava sentada no sofá, braços cruzados, cara fechada. Mãe - senta aqui. - Obedeci, com o coração disparado. Mãe - Hoje cedo, a Dona Irene da outra rua veio falar comigo. Disse que viu você entrando num carro caro aqui na esquina. Um carrão preto. Mãe - E que "essas coisas nunca são de gente do bem". - Engoli seco e não consegui dizer nada. Mãe - Me fala, Isabelly. Quem é esse cara? Mãe - Porque você anda diferente. Tentar esconder, mentir. E agora tá entrando em carro que nem parece dessa realidade. Isabelly - É só um amigo. Mãe - Que amigo, Isabelly? Que tipo de amigo manda flores em casa, busca na esquina e que você esconde da própria mãe? - A dor veio no peito. Porque ela tinha razão. Não na parte de quem ele é mas no quanto eu tava escondendo. Isabelly - Mãe.. Mãe - Eu não quero você envolvida com homem errado. Você sabe muito bem o que a gente passou com seu tio, com aquele vizinho que sumiu por causa de gente de morro. Mãe - Eu não vou aceitar isso aqui dentro de casa. Mãe - Tá me ouvindo? - Assenti. Baixo. Sem coragem de levantar o olhar. Mãe - Se for isso mesmo, se tu tiver andando com bandido... eu não vou permitir, e muito menos debaixo do meu teto. Mãe - Não vou mesmo. - Fui pro quarto com a cabeça explodindo. Fechei a porta, sentei na cama e desabei. Porque agora não era só sentimento. Era peso. Era cobrança. Era realidade. E por mais que o sombra fosse tudo o que me fazia esquecer do mundo.. O mundo nunca esquece da gente.
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