Isabelly Narrando
O sol já tava quase sumindo, e o clima na lancha tava leve, música mais baixa, os risos espaçados.
A galera começou a abrir os refrigerantes e os copinhos de plástico circulavam de mão em mão.
Eu tava sentada num canto da lancha, deitada na toalha que o sombra tinha trazido, só observando.
Já tinha pedido pro sombra tirar uma foto minha e ele tirou e eu postei e estava tranquila.
Até que ela chegou.
A tal da amiga da prima do torresmo.
Morena clara, cheia de pose, e já tinha dado umas olhadas demais pro sombra o dia inteiro.
Mas até ali, ele nem tinha dado moral.
Até ela se aproximar do nada, com um copinho na mão, e se abaixar ao lado dele enquanto ele falava com o Joãozinho.
Valéria - Tu é o sombra, né?
Valéria - Tava te procurando desde que cheguei. - Ele só olhou, sério.
Sombra - Procurando por quê?
Valéria - Curiosidade. Todo mundo fala de você na favela...
Valéria - Mas ao vivo é mais bonito que nos papos.
Ela riu. Daquele jeito forçado.
E aí colocou a mão no ombro dele.
Eu juro que meu corpo esquentou todo.
A vontade era levantar e jogar a fulana na água com roupa e tudo.
Mas eu só fiquei ali, fingindo que não tava ouvindo, olhando pro céu.
Mesmo sentindo o coração acelerar.
Ele se afastou sutilmente, como quem não gostou da abordagem.
Sombra - Fala com o torresmo ali. Foi ele que te convidou - ele respondeu seco.
Ela ainda insistiu:
Valéria - Tá, mas cê vai ficar de m*l humor o dia todo ou vai me dar dois minutos?
Sombra - Nem um. - Aí sim ela se tocou e saiu, meio sem graça.
Mas o estrago já tava feito.
O sangue já tava quente.
E o ciúmes... latejando.
Minutos depois, o torresmo veio andando até mim, de mansinho.
Torresmo - Isa... posso falar contigo rapidinho? - Assenti, sem muita paciência mas não com ele e sim com a garota.
Torresmo - Foi m*l pela mina. Nem sabia que ela ia se passar desse jeito. Só convidei por educação mesmo.
Isabelly - Tá tranquilo irmão – menti.
Torresmo - É que... eu sei que tu e o sombra não são assumidos nem nada, mas dá pra ver no olhar dele que o bagulho contigo é diferente.
Levantei os olhos na hora.
Isabelly - É?
Torresmo - É. Ele nem deu moral. Só cortou.
Torresmo - O sombra é de poucas. Se ele não quisesse mais ninguém perto, ele não ia nem trazer tu aqui.
Fiquei quieta.
Mas aquilo me desmontou por dentro.
O torresmo não precisava dizer mais nada.
Mais tarde, a galera começou a se organizar pra voltar.
O vt e o torresmo levaram as meninas pra uma van, e eu fiquei por ali ajudando o sombra a juntar as coisas da lancha.
Foi a primeira vez no dia que ficamos só nós dois.
Ele me olhou, meio de canto.
Sombra - Ficou bolada com o bagulho da mina?
Isabelly - Claro que não - falei mentindo, com o sorriso mais falso do mundo.
Ele chegou mais perto, largando as toalhas dentro da bolsa.
Sombra - Porque se tu quiser, eu deixo claro agora que não curto esse tipo de graça.
Isabelly - Tu já deixou.
Sombra - Mas tu ficou mexida. - Suspirei. Olhei pro chão.
Isabelly - Não sei o que eu fiquei.
Isabelly - Só sei que não é legal ver outra pessoa te tocando. Mesmo que nós não tenha nada. - Ele deu dois passos. Parou na minha frente.
Sombra - Mas a gente tem, a gente só não botou nome. - Fiquei em silêncio.
Sombra - Cê quer ir embora comigo?
Isabelly - Quero. - Ele sorriu pequeno. Estendeu a mão.
Sombra - Então vamo.
(...)
Chegamos e o clima tava totalmente diferente de quando viemos da outra vez.
Ele não tava corrido, não tava armado, nem com fone, nem com pressa.
Ele só abriu a porta, colocou as chaves no canto e me olhou como quem tava feliz por eu estar ali de novo.
Sombra - Se quiser toma um banho, tem toalha no armário de sempre.
Isabelly - Tá bom. - Fui tomar banho e a água quente, o vapor, o cheiro do sabonete que já era o mesmo da última vez.
Tudo me dizia que eu já tava voltando pra um lugar que me acostumei fácil demais.
Saí do banho e ele tava na sala, de bermuda e sem camisa, mexendo no celular.
O braço todo tatuado, a cara de sono, o cabelo bagunçado.
Sombra - Quer comer alguma coisa?
Isabelly - Não. Só quero deitar.
Sombra - Então vem.
Me joguei no sofá, ele puxou a coberta, e ficou deitado do meu lado.
Silêncio por uns segundos.
Sombra - Tu podia dormir aqui direto - ele soltou do nada.
Isabelly - E tu podia parar de falar essas coisas que mexem comigo. - Ele riu. Passou a mão no meu braço, de leve.
Sombra - Não tô falando por falar, Isabelly.
Sombra - É que contigo é diferente.
Sombra - Até quando tu tenta fugir... tu volta.
Fechei os olhos e ele tinha razão pois eu voltei mesmo.
Mesmo sem promessa.
Mesmo com medo.
Mesmo sabendo que talvez esse caminho não seja o mais fácil.
Mas de alguma forma... é o único que eu quero seguir.