cap 25 sem promessa mas com medo

906 Words
Isabelly Narrando O sol já tava quase sumindo, e o clima na lancha tava leve, música mais baixa, os risos espaçados. A galera começou a abrir os refrigerantes e os copinhos de plástico circulavam de mão em mão. Eu tava sentada num canto da lancha, deitada na toalha que o sombra tinha trazido, só observando. Já tinha pedido pro sombra tirar uma foto minha e ele tirou e eu postei e estava tranquila. Até que ela chegou. A tal da amiga da prima do torresmo. Morena clara, cheia de pose, e já tinha dado umas olhadas demais pro sombra o dia inteiro. Mas até ali, ele nem tinha dado moral. Até ela se aproximar do nada, com um copinho na mão, e se abaixar ao lado dele enquanto ele falava com o Joãozinho. Valéria - Tu é o sombra, né? Valéria - Tava te procurando desde que cheguei. - Ele só olhou, sério. Sombra - Procurando por quê? Valéria - Curiosidade. Todo mundo fala de você na favela... Valéria - Mas ao vivo é mais bonito que nos papos. Ela riu. Daquele jeito forçado. E aí colocou a mão no ombro dele. Eu juro que meu corpo esquentou todo. A vontade era levantar e jogar a fulana na água com roupa e tudo. Mas eu só fiquei ali, fingindo que não tava ouvindo, olhando pro céu. Mesmo sentindo o coração acelerar. Ele se afastou sutilmente, como quem não gostou da abordagem. Sombra - Fala com o torresmo ali. Foi ele que te convidou - ele respondeu seco. Ela ainda insistiu: Valéria - Tá, mas cê vai ficar de m*l humor o dia todo ou vai me dar dois minutos? Sombra - Nem um. - Aí sim ela se tocou e saiu, meio sem graça. Mas o estrago já tava feito. O sangue já tava quente. E o ciúmes... latejando. Minutos depois, o torresmo veio andando até mim, de mansinho. Torresmo - Isa... posso falar contigo rapidinho? - Assenti, sem muita paciência mas não com ele e sim com a garota. Torresmo - Foi m*l pela mina. Nem sabia que ela ia se passar desse jeito. Só convidei por educação mesmo. Isabelly - Tá tranquilo irmão – menti. Torresmo - É que... eu sei que tu e o sombra não são assumidos nem nada, mas dá pra ver no olhar dele que o bagulho contigo é diferente. Levantei os olhos na hora. Isabelly - É? Torresmo - É. Ele nem deu moral. Só cortou. Torresmo - O sombra é de poucas. Se ele não quisesse mais ninguém perto, ele não ia nem trazer tu aqui. Fiquei quieta. Mas aquilo me desmontou por dentro. O torresmo não precisava dizer mais nada. Mais tarde, a galera começou a se organizar pra voltar. O vt e o torresmo levaram as meninas pra uma van, e eu fiquei por ali ajudando o sombra a juntar as coisas da lancha. Foi a primeira vez no dia que ficamos só nós dois. Ele me olhou, meio de canto. Sombra - Ficou bolada com o bagulho da mina? Isabelly - Claro que não - falei mentindo, com o sorriso mais falso do mundo. Ele chegou mais perto, largando as toalhas dentro da bolsa. Sombra - Porque se tu quiser, eu deixo claro agora que não curto esse tipo de graça. Isabelly - Tu já deixou. Sombra - Mas tu ficou mexida. - Suspirei. Olhei pro chão. Isabelly - Não sei o que eu fiquei. Isabelly - Só sei que não é legal ver outra pessoa te tocando. Mesmo que nós não tenha nada. - Ele deu dois passos. Parou na minha frente. Sombra - Mas a gente tem, a gente só não botou nome. - Fiquei em silêncio. Sombra - Cê quer ir embora comigo? Isabelly - Quero. - Ele sorriu pequeno. Estendeu a mão. Sombra - Então vamo. (...) Chegamos e o clima tava totalmente diferente de quando viemos da outra vez. Ele não tava corrido, não tava armado, nem com fone, nem com pressa. Ele só abriu a porta, colocou as chaves no canto e me olhou como quem tava feliz por eu estar ali de novo. Sombra - Se quiser toma um banho, tem toalha no armário de sempre. Isabelly - Tá bom. - Fui tomar banho e a água quente, o vapor, o cheiro do sabonete que já era o mesmo da última vez. Tudo me dizia que eu já tava voltando pra um lugar que me acostumei fácil demais. Saí do banho e ele tava na sala, de bermuda e sem camisa, mexendo no celular. O braço todo tatuado, a cara de sono, o cabelo bagunçado. Sombra - Quer comer alguma coisa? Isabelly - Não. Só quero deitar. Sombra - Então vem. Me joguei no sofá, ele puxou a coberta, e ficou deitado do meu lado. Silêncio por uns segundos. Sombra - Tu podia dormir aqui direto - ele soltou do nada. Isabelly - E tu podia parar de falar essas coisas que mexem comigo. - Ele riu. Passou a mão no meu braço, de leve. Sombra - Não tô falando por falar, Isabelly. Sombra - É que contigo é diferente. Sombra - Até quando tu tenta fugir... tu volta. Fechei os olhos e ele tinha razão pois eu voltei mesmo. Mesmo sem promessa. Mesmo com medo. Mesmo sabendo que talvez esse caminho não seja o mais fácil. Mas de alguma forma... é o único que eu quero seguir.
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