Isabelly Narrando
Acordei antes do despertador.
Não sei se foi ansiedade ou culpa. Talvez os dois.
Fiquei um tempo deitada, olhando pro teto, pensando se eu realmente
devia ir.
Era só um passeio, né? Uma lancha, umas pessoas, música, sol.
Mas não era só isso.
Era com ele.
E tudo que envolvia ele, deixava de ser simples.
Levantei devagar, tomando cuidado pra não acordar minha mãe. Fui pro
banheiro com a toalha e um maiô. Me olhei no espelho.
O rosto meio inchado, a cara de quem tava tentando parecer tranquila.
Mas por dentro... tudo era bagunça.
Terminei o banho e coloquei um maiô branco sem alças, por cima do
maiô coloquei um vestido soltinho de amarra no pescoço rosa. Cabelo
solto, óculos de sol na bolsa.
Nada chamativo. Mas também nada simples demais.
Só o suficiente pra ele notar.
Saí do quarto e fui pra cozinha como quem não tem compromisso.
Minha mãe já tava lá, mexendo no café.
Mãe - Vai sair? - ela perguntou sem olhar.
Isabelly - Uhum. Vou encontrar a Alessandra. - Mentira. A Alessandra nem ia.
Mãe - Onde?
Isabelly - Praia. - Ela virou o rosto devagar. Me olhou dos pés à cabeça.
Mãe - Tá arrumada demais pra só ir encontrar tua prima. - Senti um frio na barriga.
Isabelly - É só um vestido leve, mãe... tá calor.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou, sem levantar o
tom:
Mãe - Esses dias você anda diferente, sabia? - Engoli seco.
Isabelly - Como assim?
Mãe - Fica no celular mais do que antes, vive saindo em horário esquisito,
e agora... aparece buquê aqui em casa.
Mãe - Quem é o rapaz, Isabelly?
Isabelly - Não tem rapaz, mãe.
Isabelly - Juro. Foi só um presente bobo de um cliente da loja.
Ela não respondeu. Só me olhou daquele jeito que mãe olha quando sabe
que a filha tá mentindo, mas ainda não tem prova.
Mãe - Só espero que você esteja se cuidando.
Mãe - O mundo lá fora não é mole, Isabelly. Tem muito homem que se
aproxima parecendo boa coisa e depois só traz dor.
Isabelly - Eu sei, mãe. Eu tô atenta.
Peguei a bolsa, respirei fundo e saí.
Mas a verdade é que eu tava longe de estar atenta.
Ou talvez estivesse até demais... e mesmo assim, indo.
Indo com medo, indo com dúvida, mas indo com vontade.
Porque por mais que o certo gritasse na minha cabeça,
o que o sombra fazia comigo... falava mais alto.
E naquele sábado, o vento ia bater no rosto,
mas o calor vinha de dentro.
(...)
Fiquei esperando a mensagem dele como quem espera o resultado de
uma prova.
8:42 da manhã o celular vibrou:
Mensagem on
Sombra: Tô na esquina. Vem tranquila
Mensagem off
Tranquila?
Saí de casa com o coração batendo na garganta. Minha mãe tava na sala,
e eu passei com um sorriso forçado e uma desculpa pronta.
Isabelly - A Alessandra já tá me esperando, mãe. Depois eu te mando
mensagem.
Ela só assentiu com a cabeça, desconfiada. Nem respondeu.
Tive que manter o passo firme até dobrar a esquina e ver o carro parado.
O sombra tava lá, encostado no carro, de camiseta branca, bermuda jeans,
chinelo e aquele jeito dele que parece que domina tudo sem fazer esforço.
Sombra - Entrou no carro como quem tá fugindo - ele disse, rindo leve.
Isabelly - Tô mesmo.
Sombra - Relaxa. Hoje o dia é pra esquecer tudo.
Ele acelerou e fomos descendo. No caminho, quase não falamos. Mas o
silêncio entre a gente nunca foi estranho.
Era como se nem precisasse de palavras.
Ele colocava uma música ou outra, mexia no celular no sinal, e de vez em
quando soltava um comentário.
Chegamos no píer. A lancha já tava lá, com o torresmo e o vt arrumando umas
caixas de isopor. Duas meninas que eu não conhecia riam alto do outro
lado. Mas quando a gente chegou, todo mundo olhou diferente.
Tipo quem entendeu que, mesmo sem anúncio, eu era a convidada dele.
Subimos na lancha e o sombra foi logo me mostrando o espaço.
Sombra - Aqui é onde vai bater o sol, aqui dá pra deitar, ali tem sombra se
quiser, e ali dentro tem água e toalha.
Isabelly - Cê vem muito aqui?
Sombra - De vez em quando. Quando preciso sumir.
O motor ligou. A lancha começou a cortar a água.
O vento bagunçando meu cabelo, a brisa salgada batendo no rosto.
Fechei os olhos por uns segundos, tentando guardar aquele momento.
Sombra - Tá gostando? - ele perguntou, olhando pra mim.
Isabelly - Mais do que devia.
Ele sorriu com aquele canto da boca que eu já conhecia.
Sombra - Eu gosto quando tu relaxa - diz me abraçando.
(...)
O dia foi passando entre mergulhos, músicas altas, risadas dos outros, e
os olhares entre a gente.
Não tinha beijo. Não tinha toque fora do comum.
Mas tinha tensão.
E presença.
Lá pelas quatro da tarde, ele se sentou do meu lado na parte da frente,
onde só tinha eu.
Sombra - Tá cansada?
Isabelly - Um pouco.
Sombra - Vem cá. - Ele abriu o braço e eu encostei devagar. O ombro dele tava quente do sol. Fiquei ali, sem saber por quanto tempo, ouvindo a água batendo e o
barulho do motor.
Isabelly - Por que tu me chamou hoje? - perguntei, sem olhar pra ele.
Sombra - Porque eu quis te ver fora da quebrada.
Sombra - Quis te mostrar que nem tudo precisa ser no escondido. - Fiquei em silêncio.
Sombra - Mas também não tô te pedindo nada. Nem explicação, nem
promessa. Só quero que tu curta. Só isso.
Isabelly - Mas vai continuar mandando flores pra minha casa?
Sombra - Se tu deixar. - Sorri. Ainda de olhos fechados.
E ali, naquele silêncio, com o sol indo embora devagar,
eu pensei:
"Se não é pra ser nada... por que parece tudo?"