Isabelly Narrando
Semanas depois
A semana já tava estranha o suficiente.
Depois daquela conversa no carro com o sombra, minha cabeça não parava.
Não era só o que ele falou, mas o jeito. O olhar.
Aquela calma que ele tem quando fala coisa séria, como se estivesse só
comentando qualquer bobagem... mas a gente sente o peso.
Aquilo ficou em mim.
E eu tava tentando esquecer.
De verdade.
Pelos meus pais, pela minha paz, pelo medo real de me envolver com
alguém que carrega um mundo que não é o meu.
Mas aí... ele manda flores.
No fim da tarde, minha mãe me chama da sala.
Mãe - Isabelly, tem entrega aqui pra você.
Achei que fosse alguma coisa da papelaria, pedido de fornecedor, sei lá.
Mas quando chego, é o entregador com um buquê enorme nas mãos.
Rosas vermelhas. Daquelas que parecem de novela.
Mãe - Que isso? - minha mãe perguntou na hora. - Tem cartão?
Tinha.
Abri com as mãos tremendo.
Te ver uma vez só não dá mais do teu cheiro eu ainda tô preso. R
Dobrei o cartão rápido e enfiei no bolso. Senti meu rosto esquentar na
hora.
Mãe - Quem mandou isso, menina?
Isabelly - Um cliente... da papelaria. Ele é meio exagerado - falei, tentando
soar natural.
Minha mãe estreitou os olhos.
Mãe - Tipo de cliente manda flores vermelhas pra funcionária? E ainda com
bilhetinho?
Fiquei muda. Fugi pro quarto com o buquê nas mãos.
Fechei a porta, e sentei na cama, encarando aquelas flores por longos segundos.
Por que ele fez isso?
A gente só ficou umas duas vezes e isso nem parece o tipo dele fazer esse tipo de coisa. Ou parece?
Suspirei fundo. Peguei o celular e mandei uma mensagem:
Mensagem on
Isabelly: Tu é doido de mandar flores aqui em casa. Minha mãe já tá me
interrogando
Sombra: É só flores. Cê achou bonita
Isabelly: São lindas. Mas não posso ficar recebendo isso
Sombra: Pode sim. E vai
Mensagem off
Joguei o celular no colchão e tentei focar em outras coisas.
Mas foi impossível.
No dia seguinte, tava na papelaria organizando o caixa e cada cliente que
entrava, eu me perguntava se ia ser ele.
Ficava olhando pela porta, tentando não parecer ansiosa.
E isso foi me cansando. Me irritando.
Até que no meio da tarde, eu me olhei no espelho do banheiro da loja e
falei:
Isabelly - Chega, Isabelly. Tá se perdendo nisso aí.
Tentei me convencer de novo de que precisava me afastar.
Respirar.
Voltar pro meu mundo.
Só que quanto mais eu tentava, mais ele encostava.
Era uma mensagem, um bilhetinho na mochila que eu nem vi ele colocar,
uma carona no fim do expediente que eu jurava que ia negar mas
entrava no carro sem nem perceber.
E eu me odiava um pouco por isso.
Mas odiava mais ainda o quanto eu queria que ele não parasse.
(...)
Dias depois
Ultimamente, eu tenho sentido que tô sendo puxada pra dois lados
diferentes.
Nenhum dos dois parece seguro.
Tava voltando do almoço quando ele apareceu de novo.
O Bolado.
Encostado na mureta perto da papelaria, como quem tava ali por acaso,
mas o olhar dele já dizia que tava me esperando.
Bolado - E aí, Isabelly... sumida.
Revirei os olhos por dentro.
Isabelly - Tô sempre por aqui.
Bolado - Pois é. Mas parece que tá fugindo de mim.
Isabelly - Não tô fugindo. Só tô na minha.
Ele deu um sorriso sem graça, mas insistiu.
Bolado - Pô, só queria trocar uma ideia contigo. Te achei maneira. Aquele
dia tu me cortou bonito, mas cê sabe que não precisa ser tão fechada
assim...
Suspirei, tentei manter a calma.
Isabelly - Não é questão de ser fechada. Só não tô interessada, Bolado. Não
gosto de rodeio.
Ele riu, mas dessa vez o riso veio meio torto. Tipo quem começa a se
irritar por não conseguir o que quer.
Bolado - Tá certo... mas se mudar de ideia, tu sabe onde me achar.
Isabelly - Não vou mudar.
Dei meia-volta e entrei na papelaria com o coração acelerado.
O cara é insistente. E eu já sabia que insistência demais naquela
quebrada nunca era à toa.
Mal voltei pro balcão e vi, pelo vidro da porta, o sombra do outro lado da
rua.
Ele tava escorado num carro, conversando com o Joãozinho. Mas não
tirava o olho.
Do Bolado.
De mim.
Fiquei uns segundos olhando sem que ele percebesse.
A expressão dele não mudou, mas eu já conhecia aquele olhar: duro,
firme, silencioso... mas lotado de aviso.
De noite, quando cheguei em casa, meu celular vibrou.
Mensagem dele.
mensagem on
Sombra: Sábado vou andar de lancha. Você vai comigo.
Li e reli umas três vezes.
Era direto, sem rodeio.
Como tudo que vinha dele.
Pensei em negar. Pensei mesmo. Mas já era tarde.
Meu dedo tinha apertado "responder" sem minha cabeça aprovar.
Isabelly: Quem mais vai?
Sombra: Torresmo e duas amigas da prima dele e o vt
mensagem off
Fiquei olhando pra tela, mordendo o lábio.
Não respondi.
Mas dentro de mim, eu já tava imaginando o vento batendo no rosto, ele
de óculos escuros dirigindo a lancha, o barulho da água, o clima...
Tô no meio de um jogo que eu não pedi pra jogar.
Mas agora que entrei, parece que não consigo mais sair.