Rodrigo Narrando
Tava lá na sala da boca de novo, só observando, com a cabeça cheia.
Desde aquele dia com a Isabelly, eu não conseguia mais ficar 100% no
corre sem lembrar do cheiro dela, da voz dela, daquela calma que ela
tem.
A porta abriu e o Joãozinho entrou, com aquele sorrisinho que ele
sempre solta quando vem com fofoquinha de responsa. Já senti que
vinha bomba.
Joãozinho - Aí, chefe... fiquei sabendo de um bagulho hoje.
Sombra - Fala logo, menor.
Joãozinho - Um parceiro do Bolado viu ele ontem trocando ideia com a
Isabelly na rua, depois que ela saiu da papelaria.
Fiquei quieto. Só parei de mexer no rádio e virei o rosto devagar.
Sombra - Que ideia?
Joãozinho - Papo de dar em cima mesmo. Disse que ela cortou o cara
rapidinho, mas ele ficou insistindo. Falaram que ele já tinha visto
vocês conversando lá no mirante, então acho que ele quis forçar uma
aproximação.
Sombra - Ele viu o quê no mirante?
Joãozinho - Só vocês trocando ideia, mas acho que na cabeça dele não era só
conversa.
Respirei fundo. Baixei a cabeça, esfreguei a mão no rosto.
Bolado é burro ou tá pedindo pra tomar um tiro?
Sombra - E a Isabelly respondeu o quê?
Joãozinho - Foi fria. Dispensou. Deu uma cortada na moral. Mas o cara
forçou, tá ligado? - Assenti com a cabeça. Fiquei de pé.
Sombra - Ele tá onde?
Joãozinho - Tava lá embaixo agora, na escadaria com os moleque.
Sombra - Suave.
Peguei meu cigarro, botei no canto da boca, e fui. Andando tranquilo,
sem pressa. Mas por dentro... por dentro eu já tava fervendo.
Cheguei e ele tava lá, de papo com dois caras da laje de baixo. Rindo alto,
fazendo pose, como sempre.
Encostei no murinho, como quem só passou por acaso.
Sombra - E aí, Bolado... firmeza?
Ele olhou meio surpreso, mas tentou manter o sorriso.
Bolado - Tranquilão, chefe. Tá suave?
Sombra - Suave.
Fiquei ali, olhando o movimento por uns segundos. Depois virei pra ele,
com aquele tom que parece casual, mas é tudo menos isso.
Sombra - Vi que tu tava trocando umas palavras com a menina da papelaria
esses dias.
Ele travou por meio segundo, mas sorriu de novo.
Bolado - Ah, pô... a Isabelly, né? Vi ela lá na rua, resolvi dar um salve.
Normal.
Sombra - Normal?
Bolado - É... Só uma conversa, pô. Mina simpática. Só tentei ser gente boa.
Fiquei olhando pra ele, sem dizer nada. O silêncio já pesou no ar.
Dei dois passos pra frente, apaguei o cigarro na parede e falei bem
tranquilo, olhando direto no olho:
Sombra - Então deixa eu te dar um papo também. Ser simpático é bom. Agora,
insistente demais começa a soar como desrespeito com quem já tem dono.
Bolado - Não, pô, não foi isso não... só troquei ideia. Nem sabia que...
Sombra - Não precisa saber de nada. Só respeita. - Ele ficou mudo. Riu meio sem graça.
Bolado - Tranquilo, chefe.
Sombra - Tranquilo.
Virei as costas e fui andando, como se nada tivesse acontecido. Mas no
fundo, eu sabia que ele entendeu.
Porque na próxima, não ia ser só papo.
E se ele tava mesmo achando que podia colar pra cima dela, que fique
sabendo logo:
Mesmo sem rótulo, mesmo sem ninguém saber, ela é minha.
(...)
Isabelly Narrando
Mais um dia na papelaria, e eu juro que tentei manter minha cabeça
no lugar. Mas desde que a Alessandra me mandou mensagem dizendo
"tenho uma fofoca boa", eu já sabia que vinha bomba. E ela não demorou
a aparecer.
Veio no meio da manhã, toda cheia de risadinha.
Alessandra - E aí, Isa... tá sabendo não?
Isabelly - O quê?
Ela se encostou no balcão como quem ia soltar coisa grande.
Alessandra - Joãozinho me contou que o sombra foi trocar umas ideia com o
Bolado... por tua causa.
Minha mão parou no teclado do computador na hora.
Isabelly - Oi?
Alessandra - É. Parece que o Bolado comentou que te encontrou ontem
na rua, tentou puxar papo. Aí o Joãozinho foi contar pro sombra, e o sombra...
foi lá dar um “toque" nele. Naquele jeitinho dele que parece calmo, mas
não é.
Fiquei olhando pra ela em silêncio. A garganta secou.
Isabelly - Mas... por que ele faria isso? Eu e ele... a gente só ficou
realmente duas vezes se eu não me engano, Alessandra.
Alessandra - Sei lá, né. Às vezes o homem tá começando a gostar. E cê
sabe como o sombra é... não fala, mas demonstra.
Balancei a cabeça, meio confusa.
Isabelly - Mas a gente não tem nada. E se alguém ouvir esse tipo de coisa...
Alessandra - Relaxa. Ele não falou que cê era dele. Só deixou claro pro
Bolado não forçar pra cima de você.
Voltei a mexer nas coisas da loja, tentando fingir normalidade. Mas a
verdade é que meu coração tava a mil.
Porque eu também não entendi o que isso queria dizer.
No fim do expediente, já indo fechar, o celular vibrou. Era ele:
tô aqui fora. Vou te deixar em casa
Só li. Respirei fundo. E fui.
Ele tava com a mão no volante, o rosto sério como sempre. Entrei no
carro, soltei um "oi" meio tímido. Ele respondeu com um olhar rápido e
começou a dirigir.
Ficamos uns minutos em silêncio, só o som da rua entrando pelas janelas.
Eu respirei fundo.
Isabelly - Fiquei sabendo que cê foi trocar ideia com o Bolado.
Ele soltou um "hmm" seco, sem tirar os olhos da rua.
Sombra - Fui.
Isabelly - Por quê?
Sombra - Porque eu não gosto de ver cara forçando em cima de mina que eu respeito. - Aquilo me pegou desprevenida. Não era o que eu esperava ouvir.
Isabelly - "Mina que tu respeita", sombra? - Ele deu de ombros, ainda dirigindo.
Sombra - Ué. Não posso respeitar, não?
Isabelly - Pode. Só não entendi se cê fez isso pra me proteger ou se você tá
marcando território.
Aí ele parou o carro. Virou o rosto devagar, e me olhou sério, daquele
jeito que parece que vai falar pouca coisa, mas pesa tudo com o olhar.
Sombra - Se fosse marcar território, tu ia saber.
Fiquei muda.
Sombra - Mas também não sou i****a. Vi o jeito que tu ficou aquele dia
comigo. Sei que foi só uma vez, mas não foi qualquer coisa. E se alguém
mexer contigo na rua, vai me incomodar, sim.
Desviei o olhar. Não sabia se ficava brava, envergonhada ou grata.
Isabelly - Eu só não quero problema, sombra.
Sombra - Nem eu. Por isso tô te deixando em casa, não fazendo escândalo. Só
cuidei do que eu achei desrespeito. - Voltei a encarar ele.
Isabelly - Então foi só isso? - Ele sorriu de canto, sem responder. Voltou a dirigir.
Sombra - Chegamos.
Isabelly - Valeu pela carona.
Sombra - Se cuida. Qualquer coisa, me chama.
Isabelly - Tá.
Saí do carro com um nó no peito.
Porque agora eu não sabia mais o que era só cuidado, o que era desejo, e
o que era só o sombra sendo sombra.
Mas alguma coisa tava diferente.
Em mim.
Nele.
Na gente mesmo que esse "gente" nem exista.