cap 22 nem existia

1215 Words
Rodrigo Narrando Tava lá na sala da boca de novo, só observando, com a cabeça cheia. Desde aquele dia com a Isabelly, eu não conseguia mais ficar 100% no corre sem lembrar do cheiro dela, da voz dela, daquela calma que ela tem. A porta abriu e o Joãozinho entrou, com aquele sorrisinho que ele sempre solta quando vem com fofoquinha de responsa. Já senti que vinha bomba. Joãozinho - Aí, chefe... fiquei sabendo de um bagulho hoje. Sombra - Fala logo, menor. Joãozinho - Um parceiro do Bolado viu ele ontem trocando ideia com a Isabelly na rua, depois que ela saiu da papelaria. Fiquei quieto. Só parei de mexer no rádio e virei o rosto devagar. Sombra - Que ideia? Joãozinho - Papo de dar em cima mesmo. Disse que ela cortou o cara rapidinho, mas ele ficou insistindo. Falaram que ele já tinha visto vocês conversando lá no mirante, então acho que ele quis forçar uma aproximação. Sombra - Ele viu o quê no mirante? Joãozinho - Só vocês trocando ideia, mas acho que na cabeça dele não era só conversa. Respirei fundo. Baixei a cabeça, esfreguei a mão no rosto. Bolado é burro ou tá pedindo pra tomar um tiro? Sombra - E a Isabelly respondeu o quê? Joãozinho - Foi fria. Dispensou. Deu uma cortada na moral. Mas o cara forçou, tá ligado? - Assenti com a cabeça. Fiquei de pé. Sombra - Ele tá onde? Joãozinho - Tava lá embaixo agora, na escadaria com os moleque. Sombra - Suave. Peguei meu cigarro, botei no canto da boca, e fui. Andando tranquilo, sem pressa. Mas por dentro... por dentro eu já tava fervendo. Cheguei e ele tava lá, de papo com dois caras da laje de baixo. Rindo alto, fazendo pose, como sempre. Encostei no murinho, como quem só passou por acaso. Sombra - E aí, Bolado... firmeza? Ele olhou meio surpreso, mas tentou manter o sorriso. Bolado - Tranquilão, chefe. Tá suave? Sombra - Suave. Fiquei ali, olhando o movimento por uns segundos. Depois virei pra ele, com aquele tom que parece casual, mas é tudo menos isso. Sombra - Vi que tu tava trocando umas palavras com a menina da papelaria esses dias. Ele travou por meio segundo, mas sorriu de novo. Bolado - Ah, pô... a Isabelly, né? Vi ela lá na rua, resolvi dar um salve. Normal. Sombra - Normal? Bolado - É... Só uma conversa, pô. Mina simpática. Só tentei ser gente boa. Fiquei olhando pra ele, sem dizer nada. O silêncio já pesou no ar. Dei dois passos pra frente, apaguei o cigarro na parede e falei bem tranquilo, olhando direto no olho: Sombra - Então deixa eu te dar um papo também. Ser simpático é bom. Agora, insistente demais começa a soar como desrespeito com quem já tem dono. Bolado - Não, pô, não foi isso não... só troquei ideia. Nem sabia que... Sombra - Não precisa saber de nada. Só respeita. - Ele ficou mudo. Riu meio sem graça. Bolado - Tranquilo, chefe. Sombra - Tranquilo. Virei as costas e fui andando, como se nada tivesse acontecido. Mas no fundo, eu sabia que ele entendeu. Porque na próxima, não ia ser só papo. E se ele tava mesmo achando que podia colar pra cima dela, que fique sabendo logo: Mesmo sem rótulo, mesmo sem ninguém saber, ela é minha. (...) Isabelly Narrando Mais um dia na papelaria, e eu juro que tentei manter minha cabeça no lugar. Mas desde que a Alessandra me mandou mensagem dizendo "tenho uma fofoca boa", eu já sabia que vinha bomba. E ela não demorou a aparecer. Veio no meio da manhã, toda cheia de risadinha. Alessandra - E aí, Isa... tá sabendo não? Isabelly - O quê? Ela se encostou no balcão como quem ia soltar coisa grande. Alessandra - Joãozinho me contou que o sombra foi trocar umas ideia com o Bolado... por tua causa. Minha mão parou no teclado do computador na hora. Isabelly - Oi? Alessandra - É. Parece que o Bolado comentou que te encontrou ontem na rua, tentou puxar papo. Aí o Joãozinho foi contar pro sombra, e o sombra... foi lá dar um “toque" nele. Naquele jeitinho dele que parece calmo, mas não é. Fiquei olhando pra ela em silêncio. A garganta secou. Isabelly - Mas... por que ele faria isso? Eu e ele... a gente só ficou realmente duas vezes se eu não me engano, Alessandra. Alessandra - Sei lá, né. Às vezes o homem tá começando a gostar. E cê sabe como o sombra é... não fala, mas demonstra. Balancei a cabeça, meio confusa. Isabelly - Mas a gente não tem nada. E se alguém ouvir esse tipo de coisa... Alessandra - Relaxa. Ele não falou que cê era dele. Só deixou claro pro Bolado não forçar pra cima de você. Voltei a mexer nas coisas da loja, tentando fingir normalidade. Mas a verdade é que meu coração tava a mil. Porque eu também não entendi o que isso queria dizer. No fim do expediente, já indo fechar, o celular vibrou. Era ele: tô aqui fora. Vou te deixar em casa Só li. Respirei fundo. E fui. Ele tava com a mão no volante, o rosto sério como sempre. Entrei no carro, soltei um "oi" meio tímido. Ele respondeu com um olhar rápido e começou a dirigir. Ficamos uns minutos em silêncio, só o som da rua entrando pelas janelas. Eu respirei fundo. Isabelly - Fiquei sabendo que cê foi trocar ideia com o Bolado. Ele soltou um "hmm" seco, sem tirar os olhos da rua. Sombra - Fui. Isabelly - Por quê? Sombra - Porque eu não gosto de ver cara forçando em cima de mina que eu respeito. - Aquilo me pegou desprevenida. Não era o que eu esperava ouvir. Isabelly - "Mina que tu respeita", sombra? - Ele deu de ombros, ainda dirigindo. Sombra - Ué. Não posso respeitar, não? Isabelly - Pode. Só não entendi se cê fez isso pra me proteger ou se você tá marcando território. Aí ele parou o carro. Virou o rosto devagar, e me olhou sério, daquele jeito que parece que vai falar pouca coisa, mas pesa tudo com o olhar. Sombra - Se fosse marcar território, tu ia saber. Fiquei muda. Sombra - Mas também não sou i****a. Vi o jeito que tu ficou aquele dia comigo. Sei que foi só uma vez, mas não foi qualquer coisa. E se alguém mexer contigo na rua, vai me incomodar, sim. Desviei o olhar. Não sabia se ficava brava, envergonhada ou grata. Isabelly - Eu só não quero problema, sombra. Sombra - Nem eu. Por isso tô te deixando em casa, não fazendo escândalo. Só cuidei do que eu achei desrespeito. - Voltei a encarar ele. Isabelly - Então foi só isso? - Ele sorriu de canto, sem responder. Voltou a dirigir. Sombra - Chegamos. Isabelly - Valeu pela carona. Sombra - Se cuida. Qualquer coisa, me chama. Isabelly - Tá. Saí do carro com um nó no peito. Porque agora eu não sabia mais o que era só cuidado, o que era desejo, e o que era só o sombra sendo sombra. Mas alguma coisa tava diferente. Em mim. Nele. Na gente mesmo que esse "gente" nem exista.
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