Rodrigo Narrando
Tava lá na sala da boca, sentado de boa, fumando meu cigarro.
De boa o c*****o. Tava com a cabeça a mil, desde ontem.
Fiquei pensando naquela frase que eu soltei sem pensar:
“só não me faz de o****o, que aí sim cê vai ter problema."
Falei no impulso. Só que o bagulho não saiu da mente.
Desde quando eu falo essas p***a?
Desde quando eu deixo alguém encostar assim?
Essa mina tá me deixando estranho, mano. Tá me fazendo pensar.
E eu odeio pensar.
Enquanto isso, os dois malas do torresmo e do Joãozinho tavam jogando dominó no canto, rindo alto de alguma besteira. E eu quieto. Só fumando.
Aí o torresmo veio com gracinha.
Torresmo - Tá com cara de quem dormiu apaixonado, hein, patrão...
Fiz que nem ouvi. Só dei uma risadinha de canto e continuei na minha.
Aí o Joãozinho meteu o louco:
Joãozinho - Deve ser a sua irmã piu a Isabelly
Quando ele falou o nome dela por cima, minha mente já acendeu igual isqueiro.
Mas segurei. Só mandei:
Sombra - Vai se f***r, menor. Joga logo essa p***a aí.
Eles começaram a rir mais ainda. Essas p***a adora me ver assim... acham que é romance. Nem imaginam que é guerra interna.
Aí do nada, o Joãozinho solta:
Joãozinho - Papo reto agora... o Bolado andou falando da Isabelly esses dias aí.
Fiquei mudo. Só levantei o olhar. Ele não viu, mas minha mão fechou devagar.
Sombra - Falou o quê?
Joãozinho - Ah, que ela era bonitinha... que se vacilar ele ia tentar trocar uma ideia com ela. Aquelas merda que ele sempre fala.
Eu dei uma risada falsa. Seca.
Mas por dentro já tava fervendo.
Bolado falando da Isabelly?
Quer dizer que o cara tá de olho na minha mina?
Respirei fundo. Falei só:
Sombra - Ele que tente. - Torresmo começou a rir.
Torresmo - Ihhh, chefe pegou sentimento.
E o Joãozinho veio:
Joãozinho - Tu tá com ela mesmo? Tá na responsa? - Eu olhei pros dois, sério. E falei firme:
Sombra - Não é responsa de ninguém, mas quem encostar... vai ouvir só o tiro na cara. - falei e eles ficaram na deles. O clima deu aquela murchada.
Levantei, fui até a janela. Peguei outro cigarro, nem queria, mas precisava ocupar a mão.
E dentro de mim já tava claro:
Eu posso até não assumir nada.
Posso até dizer que é só curtição, que ela é nova, que eu tô só vivendo...
Mas a real é que eu não quero ninguém em cima dela.
Essa p***a é ciúmes? É.
Foda-se.
Não gosto de gracinha como que é meu.
E mesmo que eu não tenha falado em voz alta..
Eu sei.
Ela já é minha.
(...)
Isabelly Narrando
Fechei a papelaria já cansada. A cabeça girando desde cedo e não era só por causa do trabalho. Era ele. O sombra. Desde o domingo que eu não conseguia parar de pensar em tudo o que aconteceu. Eu ficava lembrando do tom de voz dele, do olhar firme. E aí meu peito dava aquela bagunçada toda.
Joguei a mochila no ombro e fui indo, andando devagar. A rua já tava mais vazia, fim de tarde batendo com aquele ventinho gostoso. Peguei o celular, vi que ele não tinha mandado nada ainda. Também não mandei. Mas minha vontade era.
Foi aí que escutei uma voz atrás de mim.
Bolado - Fala aí, princesa.. vai sozinha até em casa?
Virei devagar. Era o Bolado.
Ele tava de bermuda larga, corrente no pescoço, boné virado e aquele sorrisinho de canto que já denunciava que vinha gracinha.
Isabelly - Oi - falei só isso, educada, mas fria. Continuei andando, mas ele veio do lado.
Bolado - Tu trabalha naquela papelaria ali, né? Já vi tu saindo algumas vezes.
Isabelly - Uhum.
Bolado - Qual teu nome?
Isabelly - Isabelly.
Bolado - Bonito. Combina contigo. - Ele sorriu. - Eu sou o Bolado. Mas tu pode me chamar de outra coisa se quiser...
Olhei pra ele e dei um risinho fraco. Não era arrogância, era mais desconforto mesmo. Ele parecia simpático, mas tinha alguma coisa no olhar dele que me deixava alerta. Malícia demais. Aquele tipo que acha que só porque sorriu, ganhou.
Isabelly - Valeu, Bolado. Eu tô indo.
Bolado - Calma aí, pô. Não posso nem trocar uma ideia contigo?
Isabelly - Pode, mas agora não. Tô cansada, só quero ir pra casa.
Ele parou, me olhou de cima a baixo.
Bolado - Tá suave... só achei que a gente podia se conhecer melhor. Tu é mó bonitinha.
Isabelly - Obrigada. Mas não tô procurando nada não - falei firme, sem ser grossa.
Ele riu, meio debochado.
Bolado - Tá difícil ser simpático hoje em dia, hein?
Isabelly - Ser simpático é uma coisa, passar do limite é outra.
Ele me olhou mais sério agora. Aquela cara de «não esperava essa resposta".
Bolado - Tá certo então, Isabelly. Foi m*l qualquer coisa. Até mais.
Isabelly - Até.
Virei e continuei andando. Coração acelerado, não de medo, mas de raiva.
Fiquei pensando se ele sabia que eu tava ficando com o sombra. Ou pior: se o sombra sabia que ele tava dando ideia em mim.
Se souber, vai dar merda.
Mas o que me deixava mais inquieta era o fato de eu ter gostado da sensação de defender meu espaço.
Não era sobre medo. Era sobre respeito.
E o sombra... ah, ele podia até não ser meu de verdade, mas eu já me sentia dele.