Isabelly Narrando
O som já batia forte nos fundos da casa, o cheiro de carne assando se misturava com o perfume barato e o suor da galera que já tava há horas no corre da festa.
Assim que passamos pelo Sombra ali na entrada, meu coração deu aquela oscilada. Ele não falou muita coisa, mas só o jeito que ele me olhou já me desmontou por dentro. Foi firme, sem graça forçada. E isso... me pegou.
Torresmo - Olha quem colou! – Torresmo falou abrindo os braços quando viu a gente.
Torresmo - Demoraram, pô! Já pensei que não vinha mais.
Alessandra - Culpa é toda da Isabelly, fica enrolando não queria vir – Alessandra falou, me dedurando rindo.
Torresmo - Ela não é nem doida de negar convite meu – ele disse e me abraçou de lado, com carinho.
Sorri, sem graça. Sempre tive um carinho diferente pelo Torresmo. Era aquele amigo que, mesmo no meio de toda a confusão da vida, ainda conseguia manter uma leveza nas coisas.
Torresmo - Quer beber o que? Já tem de tudo aqui, até refri – ele perguntou.
Isabelly - Me dá uma Coca que eu ainda nem almocei direito – respondi, rindo.
Ele riu, pegou e me entregou. Ficamos por ali conversando um tempo, mas meu olhar voltava e meia batia no fundo da casa... onde o Sombra tinha sumido. Até que ele reapareceu, sem camisa, tatuagem tomando o peito todo, aquele cigarro pregado no canto da boca. Ele vinha andando devagar, como quem não tem pressa pra nada, e parou perto da varanda, conversando com uns caras mais velhos.
Fingi que nem reparei. Mas por dentro...
Foi aí que o Torresmo falou:
Torresmo - Ô Isabelly... quer bater um beck? Tá suave, se tu quiser, ó... – ele falou meio baixo, tirando um fininho do bolso.
Isabelly - Só se me arrumar um isqueiro. – disse com a sobrancelha levantada.
Antes mesmo do Torresmo responder, ouvi a voz firme e mais próxima do que imaginei:
Sombra - Toma aqui. – era o Sombra, me estendendo o isqueiro, com os olhos em mim.
Agradeci com a cabeça. E antes que a Alessandra abrisse a boca, já fui saindo de fininho, procurando um cantinho mais reservado. Encontrei um bequinho do lado da área de serviço, onde tinha só umas cadeiras empilhadas e o som batia mais fraco. Me sentei no degrau, acendi o beck, e dei aquela primeira tragada com calma.
O clima ali era outro. O coração já tava dando sinal. E foi nesse sossego que eu ouvi passos.
Olhei pro lado.
Era ele.
Ele encostou na parede, do meu lado, os olhos ainda mais atentos agora que estávamos só nós dois.
Sombra - Não é muito teu lugar aqui, né? – ele falou, sem me olhar direto, mas com a voz baixa, como se tivesse medo de espantar alguma coisa que a gente ainda nem tinha nomeado.
Isabelly - E você acha que é o seu? – devolvi, sem medo.
Ele deu um meio sorriso. Se aproximou devagar e se sentou do meu lado, sem pedir licença. Ficamos em silêncio por alguns segundos. O cheiro do churrasco ainda vinha de longe, a música agora era um funk mais melódico, e o clima... era outro.
Sombra - Você é sempre assim? – ele perguntou.
Isabelly - Assim como?
Sombra - Difícil de ler.
Isabelly - E você é sempre tão direto? – retruquei, puxando mais uma fumaça do baseado.
Ele riu, baixinho. Me olhou.
Sombra - Com quem vale a pena, eu sou.
Foi aí que a tensão ficou palpável. Olhos nos olhos. O tempo parecia ter dado uma freada. Meu peito dava sinais de que algo tava mudando e eu nem sabia o quê. Até que alguém apareceu.
Xx - Ô Sombra! Cola aqui rapidão, viado! O bagulho do gás lá, cê tem que ver. – era um dos caras da casa, suado, copo na mão, já meio alto.
Ele olhou pra mim com uma expressão de contrariedade, como quem não queria sair dali.
Sombra - Já volto. – falou curto.
Isabelly - Vai lá. – respondi, fingindo que não me afetou. Mas assim que ele virou as costas, soltei o ar que tava segurando fazia tempo.
E ali, sozinha com a fumaça, percebi: alguma coisa tinha começado entre mim e o Sombra. Eu só ainda não sabia onde ia dar.