Isabelly Narrando
Eu ainda tava no mesmo canto, sentada no degrau, com o baseado já pela metade e a mente mil por hora. Tava tentando não me deixar levar, tentando colocar na cabeça que o Sombra era só mais um. Um daqueles caras bonitos, perigosos, envolventes e enrolados. Mas toda vez que eu fechava o olho, era o olhar dele que voltava.
O tempo passou. Não sei quanto. Mas senti quando ele voltou.
Sombra - Falei que voltava. – ele disse baixo, encostando na parede de novo, com uma garrafinha de cerveja na mão.
Isabelly - Achei que tinha esquecido.
Sombra - E perder o resto dessa conversa? Nem fudendo.
Sorri. Ele se sentou de novo, mas dessa vez mais perto. Perto o bastante pra sentir o cheiro do perfume dele, misturado com cigarro e desodorante. Perto o bastante pra eu sentir meu coração reclamar.
Sombra - Cê tá jogando com fogo, né? – ele falou.
Isabelly - E você nem disfarça que gosta de queimar. – rebatí, firme, mas com aquele friozinho na barriga.
Ele me olhou. E foi naquele olhar que entendi: se ele quisesse, já teria feito alguma coisa. Mas ele tava me estudando. Me lendo. Me analisando de um jeito que nenhum homem tinha feito antes. E isso... me dava medo. E desejo.
Ele chegou um pouco mais perto, apoiando o braço no degrau atrás de mim, me deixando quase encurralada entre ele e a parede.
Sombra - Qual é teu nome mesmo? – ele perguntou, com aquele meio sorriso malandro.
Isabelly - Isabelly.
Sombra - Isabelly... combina contigo. Nome de quem não abaixa a cabeça.
Antes que eu pudesse responder, uma voz interrompe o clima como um balde de água gelada.
Xx - Ô Sombra... vai esquecer da Beatriz, é? Tá carente agora, é? – era um dos caras da roda da frente, claramente incomodado com a presença dele ali comigo.
Sombra virou devagar, sério, sem sair do lugar.
Sombra - Fica na tua, Negrete.
Negrete - Só tô falando, mano. Tu nem dá moral pra mina e agora quer bancar de apaixonado por qualquer novinha do Torresmo? – ele falou rindo alto, como se estivesse numa competição de ego.
Eu respirei fundo, tentei não deixar transparecer o incômodo, mas o clima virou. Sombra se levantou, devagar, e caminhou até o cara.
Sombra - Falei pra tu ficar na tua. – disse, firme, o tom de voz já bem mais duro.
Negrete levantou as mãos em sinal de paz, mas ainda com aquele sorrisinho debochado.
Negrete - Fechou, chefe. Fica com a novinha aí. Não falei mais nada.
Sombra voltou pro meu lado e me olhou.
Sombra - Desculpa. Tem gente que fala demais.
Isabelly - Tô acostumada. – falei, tentando manter a postura.
Ele se abaixou de novo, mas não tão perto dessa vez. Me olhou como se tivesse algo mais pra dizer, mas segurou. Em vez disso, estendeu a mão.
Sombra - Quer voltar lá pro meio? Ou prefere ficar aqui?
Olhei pra ele por um segundo que pareceu uma eternidade.
Isabelly - Se eu for com você, a festa perde a graça. Se eu ficar aqui, talvez eu não queira mais voltar.
Ele sorriu, como se gostasse da resposta. Depois se levantou, pegou minha mão e me puxou de leve.
Sombra - Então fica aqui mais um pouco.
E eu fiquei. Com o coração batendo acelerado, o cheiro dele grudado na minha pele e a certeza de que o Sombra... não era só mais um.