cap 09 você é sempre assim

1098 Words
Isabelly Narrando Depois daquele momento no canto com o Sombra, eu respirei fundo, coloquei o sorriso no rosto e voltei pro meio da festa. A música seguia alta, a fumaça da churrasqueira misturada com os aromas de perfume e bebida enchia o ar, e eu fui me aproximando da mesa onde a Alessandra tava. Ela tava praticamente sentada no colo do Joãozinho, rindo, trocando beijo, como se o mundo ao redor não existisse. Do outro lado, o Torresmo tava trocando ideia com dois parceiros, mas sempre de olho na movimentação. Quando me viu chegando, levantou a cabeça e fez aquele gesto com o queixo. Torresmo - Sumiu hein, faixa. – falou, rindo com os olhos meio apertados. Isabelly - Só fui tomar um ar. – respondi, sentando do lado dele. Fiquei ali um tempo, rindo das palhaçadas deles, escutando as histórias que nem sempre faziam sentido, mas todo mundo ria. Às vezes eu pegava o olhar do Sombra lá do outro lado do quintal. Ele disfarçava, mas eu sabia que reparava. Eu também reparava. O tempo foi passando, o som foi abaixando, e o churrasco começou a dar aquele clima de fim. A Alessandra se despediu com um beijo no rosto do Torresmo e quando ela passou por mim, falou baixinho. Alessandra - Amiga, já tô indo com o João. Se cuida, viu? Qualquer coisa me liga. Eu assenti, meio no automático. Agora só restava eu. O Torresmo já tava envolvido em outro papo, cercado, sumido na confusão. Procurei com o olhar, andei um pouco, mas nada. Sem saber como sair dali, decidi descer pra rua. Já era tarde e eu precisava encontrar um mototáxi ou alguém pra me salvar daquela furada. Foi então que ouvi a voz grave vindo de trás: Sombra - Vai embora sozinha? Virei devagar. Sombra tava encostado no carro dele, cigarro aceso na boca, mãos no bolso da bermuda e aquele olhar tranquilo, mas direto. Ele não sorria muito, mas quando sorria, era com os olhos. Isabelly - Tô tentando achar alguém pra me dar carona. O Torresmo sumiu. Ele deu um passo pra frente, apagou o cigarro no chão e me encarou. Sombra - Bora, eu te levo. Isabelly - Tá suave, não quero te atrapalhar aqui. Sombra - Se eu não quisesse, nem tinha oferecido. Vamo. Pensei por uns segundos. Era burrice aceitar? Talvez. Mas tinha algo nele que, mesmo perigoso, me dava uma estranha sensação de segurança. E o pior: eu queria. Isabelly - Fechou então. Entrei no carro e ele ligou o som baixo, deixando o silêncio tomar conta. A rua ia passando devagar e, de repente, parecia que o tempo tinha desacelerado junto com a gente. Sombra - Tu é diferente. – ele falou, do nada. Virei o rosto pra ele. Isabelly - Diferente como? Sombra - Não sei ainda. Mas tô tentando descobrir. Meu coração deu um pulo. E pela primeira vez, eu quis que a viagem demorasse. Mas a atração tá ali, forte, inegável. O carro seguia cortando as ruas escuras da quebrada, só o som do motor e a batida baixa vindo do rádio. Eu olhava pela janela fingindo distração, mas cada segundo ali com o Sombra parecia durar mais do que devia. Aquela calma dele me deixava nervosa. Era o tipo de homem que não precisava falar alto pra ser ouvido, que não precisava fazer esforço pra ser notado. E ali, comigo, ele tava diferente... parecia menos fechado. Mas ainda assim, difícil de decifrar. De repente ele diminuiu a velocidade, encostou o carro numa rua mais vazia, e desligou o som. Eu virei o rosto, confusa. Isabelly - Cansou de dirigir? – perguntei, meio rindo, tentando não parecer abalada. Ele apoiou o braço no volante e me olhou como se tivesse analisando cada detalhe meu. Sombra - Não gosto de deixar as coisas passarem sem tentar entender. – falou calmo. Isabelly - Como assim? Sombra - Você. – ele disse direto, sem rodeios. – Tu apareceu ali do nada e desde a hora que chegou mexeu com o ambiente. Comigo. E o mais doido é que nem foi forçando, só chegou... do teu jeito. Meu coração acelerou, mas eu mantive o olhar firme. Ele me deixava sem chão, mas eu não ia demonstrar. Isabelly - Eu só vim acompanhar a Alessandra. Nem sabia que ia encontrar... você. Sombra - Mas encontrou. – ele disse, e o jeito que ele falou fez parecer que aquilo tinha sido o suficiente pra noite inteira dele valer a pena. Isabelly - Tu fala como se já tivesse certeza de alguma coisa. – falei, encarando ele. Sombra - Não tenho. Mas tô curioso pra ter . E eu sempre vou atrás da minha curiosidade. – ele virou o rosto pro para-brisa, depois voltou a me encarar. – Tu tem namorado, Isabelly? Engoli seco. Porque para ser verdadeira eu sou virgem. Não por falta de oportunidade, porque isso nunca faltou, mas nenhum dos homens que eu sai desperto em mim essa vontade. A maioria deles só me olhavam com luxúria e isso fazia eu ficar com medo de perder e me arrepender. Isabelly - Nunca foi minha prioridade. – disse, sincera. – Gosto de ficar na minha. Evito dor de cabeça. Ele deu um leve sorriso de canto. Aquele sorriso que não era de zoeira, era de quem tava satisfeito com a resposta. Sombra - Bom saber. O silêncio voltou por alguns segundos, mas dessa vez ele não pesava. Tinha tensão, sim. Mas era daquela que arrepia a pele. Do nada, ele se inclinou um pouco, o rosto mais próximo do meu, e falou num tom mais baixo: Sombra - Se eu te chamar pra dar um rolê comigo qualquer dia... tu vai? Eu segurei o sorriso, olhei nos olhos dele e respondi: Isabelly - Talvez. Depende do lugar... e da intenção. Ele riu baixo, encostando de leve na direção de novo. Sombra - A intenção... você vai descobrir. Sem mais palavras, ele ligou o carro de novo e seguiu pela rua. E ali, no silêncio de novo, eu percebi que tinha entrado num jogo que talvez eu não tivesse como sair ilesa. Mas parte de mim... já queria jogar. Chegando em casa ele parou um pouco antes. Isabelly - Valeu pela carona. – falei olhando pra ele me arrumando para sair. Sombra - Por nada. A gente se tromba por aí. – falou destravando a porta do carro. Então eu desço do carro e entro em casa que está vazia; pelo horário, meus pais estão na igreja. Eu subo, tomo banho e deito pra assistir um pouco de série.
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