CAPÍTULO 41

1018 Words
Dante O silêncio da madrugada é tão espesso que parece um tecido que posso rasgar com as mãos. Mas, mesmo assim, eu o escuto o som dela. O passo leve de Lara cruzando o corredor, a respiração dela acelerada, e aquele tremor quase imperceptível que só reconhece quem aprendeu a ler o medo e o desejo no mesmo corpo. Ela ainda está abalada com o que descobrimos hoje. Eu também estou. Mas o que me engole não é o medo. É a certeza cada vez mais brutal de que estou perdendo o controle onde ela está envolvida. E eu nunca perco o controle. Bato duas vezes na porta do quarto onde ela está hospedada. Não espero permissão. Entro. Lara levanta os olhos, surpresa , mas não realmente. Ela sabe que eu viria. Ela está sentada na borda da cama, os cabelos soltos escorrendo pelas costas, a luz amarela do abajur desenhando curvas que eu tento, inútilmente, ignorar. Ela aperta entre os dedos a carta que encontramos mais cedo a carta que sugere que tudo começou antes do que imaginávamos, que alguém próximo dela sabotou sua família de propósito. E que essa pessoa está viva. — Você não consegue dormir — digo, mais como uma constatação do que uma pergunta. — Você também não — ela retruca, firme, mesmo com a voz embargada. Fecho a porta atrás de mim. Ela engole seco. — Dante — ela começa, mas para. Eu me aproximo devagar. Ela aperta a carta, como se fosse um escudo. — O que você descobriu? — pergunta ela, finalmente. Eu poderia mentir, Poderia aliviar. Mas Lara não combina com meias verdades. — Fiz a varredura dos arquivos do pai dela. — Respiro fundo. — Há algo pior do que imaginávamos. As mensagens codificadas que ele tentou enviar antes de morrer, elas não eram avisos Ela arregala os olhos. — Eram despedidas, Lara. Despedidas calculadas. O rosto dela empalidece. — Ele sabia que estavam atrás dele — continuo. — E sabia que quem estava envolvido estava dentro do círculo de confiança dele. Ela fecha os olhos, Uma lágrima escapa. E alguma coisa dentro de mim quebra, violenta. Me aproximo um passo, Dois. Ela tenta limpar o rosto, mas minha mão alcança a dela antes. — Não faça isso — digo, abaixando a voz. — Não esconda isso de mim. Ela abre os olhos. Eles brilham de dor e raiva. — Eu odeio sentir que tudo que vivi foi uma mentira — ela sussurra. — Odeio achar que não conheci meu próprio pai. Odeio não saber no que acreditar. Eu a encosto contra mim, sem pensar. Ela não recua. O corpo dela treme, mas não é só de tristeza é daquela mistura perigosa que sempre existe entre nós, vulnerabilidade e desejo, medo e força, dor e atração. — Lara… — sussurro contra o cabelo dela. — Você não está sozinha nessa. Enquanto eu estiver aqui, ninguém toca em você. Ninguém te manipula, Ninguém mente para você. Ela levanta o rosto, devagar, como se estivesse calculando se pode ou não confiar. E então olha direto nos meus olhos. — Então me diz tudo — ela exige, firme. — Tudo o que você sabe, Agora. A determinação dela me atravessa. Eu solto um suspiro pesado. — A carta que encontramos hoje — digo — não foi escrita pela sua mãe. O choque dela é imediato. — O quê? — A caligrafia é semelhante, mas não idêntica. Encontrei rastros digitais de uma pessoa tentando ocultar a origem. Dou um passo para trás e tiro do bolso o envelope que escondi dela por algumas horas tempo suficiente para cruzar informações. — Essa carta — digo — foi escrita por alguém vivo, que queria que você acreditasse que sua mãe estava envolvida. Ela leva a mão à boca. — Então. — Sim — respondo. — A pessoa que a escreveu está te observando de perto. Próximo, Próximo demais de ti. — Quem? — a voz dela falha. — Ainda não tenho certeza. Ela se afasta um passo, Outro. O pânico ameaça subir, mas eu não deixo. Seguro o pulso dela e a puxo para perto, não com violência, mas com precisão. — Lara — digo, firme. — Isso é exatamente o que essa pessoa quer, te desestabilizar, Não vou deixar. Ela respira fundo, tentando conter o tremor. Depois, num gesto inesperado, coloca a mão no meu peito. — Então fica — pede ela, baixinho. — Só por hoje. Enquanto eu tento entender tudo isso. Sinto o pedido como uma fisgada. Eu poderia recusar. Eu deveria recusar. Mas eu não consigo. Aproximo meu rosto do dela, sentindo a respiração quente contra minha boca. Ela fecha os olhos, é vulnerável, aberta, perigosa. Minha voz sai como um sussurro rouco: — Sou seu, Lara pelo tempo que você quiser. Ela abre os olhos e a tensão entre nós explode. Em um impulso, ela me beija. Não é um beijo suave ou hesitante. É um beijo cheio de dor, raiva e necessidade. Eu respondo com a mesma intensidade, segurando o rosto dela, aprofundando o contato, sentindo o gosto amargo de lágrimas que ela não conseguiu prender. O mundo desaba. O perigo existe. A ameaça está mais próxima do que nunca. Mas, por um instante, somos só nós dois. Lara e eu. Caos e desejo. Verdade e mentira. Sombras e fogo. Quando finalmente nos afastamos, ambos ofegantes, apoio minha testa na dela. — Amanhã — digo, ainda sem fôlego — nós vamos atrás dessa pessoa. Minha voz é uma promessa. — E quando encontrarmos eu juro que não vou deixar te machucarem de novo. O olhar dela fica mais firme. Mais forte. Mais decidido. — Vamos descobrir juntos — responde ela. — Porque eu confio em você, Dante. Mesmo que isso me assuste. Fecho os olhos. Porque isso, isso me queima mais do que qualquer ameaça. Ela confia em mim. E eu faria qualquer coisa para não quebrar essa confiança. Ainda que, no fundo, eu saiba que estou começando a quebrar uma promessa minha, não me envolve. Mas é tarde demais. Eu já estou envolvido demais para voltar atrás.
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