Dante
O silêncio da madrugada é tão espesso que parece um tecido que posso rasgar com as mãos.
Mas, mesmo assim, eu o escuto o som dela.
O passo leve de Lara cruzando o corredor, a respiração dela acelerada, e aquele tremor quase imperceptível que só reconhece quem aprendeu a ler o medo e o desejo no mesmo corpo.
Ela ainda está abalada com o que descobrimos hoje. Eu também estou.
Mas o que me engole não é o medo.
É a certeza cada vez mais brutal de que estou perdendo o controle onde ela está envolvida.
E eu nunca perco o controle.
Bato duas vezes na porta do quarto onde ela está hospedada. Não espero permissão. Entro.
Lara levanta os olhos, surpresa , mas não realmente. Ela sabe que eu viria.
Ela está sentada na borda da cama, os cabelos soltos escorrendo pelas costas, a luz amarela do abajur desenhando curvas que eu tento, inútilmente, ignorar.
Ela aperta entre os dedos a carta que encontramos mais cedo a carta que sugere que tudo começou antes do que imaginávamos, que alguém próximo dela sabotou sua família de propósito.
E que essa pessoa está viva.
— Você não consegue dormir — digo, mais como uma constatação do que uma pergunta.
— Você também não — ela retruca, firme, mesmo com a voz embargada.
Fecho a porta atrás de mim.
Ela engole seco.
— Dante — ela começa, mas para.
Eu me aproximo devagar.
Ela aperta a carta, como se fosse um escudo.
— O que você descobriu? — pergunta ela, finalmente.
Eu poderia mentir, Poderia aliviar.
Mas Lara não combina com meias verdades.
— Fiz a varredura dos arquivos do pai dela. — Respiro fundo.
— Há algo pior do que imaginávamos.
As mensagens codificadas que ele tentou enviar antes de morrer, elas não eram avisos
Ela arregala os olhos.
— Eram despedidas, Lara. Despedidas calculadas.
O rosto dela empalidece.
— Ele sabia que estavam atrás dele — continuo.
— E sabia que quem estava envolvido estava dentro do círculo de confiança dele.
Ela fecha os olhos, Uma lágrima escapa.
E alguma coisa dentro de mim quebra, violenta.
Me aproximo um passo, Dois.
Ela tenta limpar o rosto, mas minha mão alcança a dela antes.
— Não faça isso — digo, abaixando a voz. — Não esconda isso de mim.
Ela abre os olhos. Eles brilham de dor e raiva.
— Eu odeio sentir que tudo que vivi foi uma mentira — ela sussurra.
— Odeio achar que não conheci meu próprio pai.
Odeio não saber no que acreditar.
Eu a encosto contra mim, sem pensar.
Ela não recua.
O corpo dela treme, mas não é só de tristeza é daquela mistura perigosa que sempre existe entre nós, vulnerabilidade e desejo, medo e força, dor e atração.
— Lara… — sussurro contra o cabelo dela.
— Você não está sozinha nessa.
Enquanto eu estiver aqui, ninguém toca em você. Ninguém te manipula, Ninguém mente para você.
Ela levanta o rosto, devagar, como se estivesse calculando se pode ou não confiar.
E então olha direto nos meus olhos.
— Então me diz tudo — ela exige, firme. — Tudo o que você sabe, Agora.
A determinação dela me atravessa.
Eu solto um suspiro pesado.
— A carta que encontramos hoje — digo — não foi escrita pela sua mãe.
O choque dela é imediato.
— O quê?
— A caligrafia é semelhante, mas não idêntica.
Encontrei rastros digitais de uma pessoa tentando ocultar a origem.
Dou um passo para trás e tiro do bolso o envelope que escondi dela por algumas horas tempo suficiente para cruzar informações.
— Essa carta — digo — foi escrita por alguém vivo, que queria que você acreditasse que sua mãe estava envolvida.
Ela leva a mão à boca.
— Então.
— Sim — respondo.
— A pessoa que a escreveu está te observando de perto. Próximo, Próximo demais de ti.
— Quem? — a voz dela falha.
— Ainda não tenho certeza.
Ela se afasta um passo, Outro.
O pânico ameaça subir, mas eu não deixo.
Seguro o pulso dela e a puxo para perto, não com violência, mas com precisão.
— Lara — digo, firme. — Isso é exatamente o que essa pessoa quer, te desestabilizar, Não vou deixar.
Ela respira fundo, tentando conter o tremor.
Depois, num gesto inesperado, coloca a mão no meu peito.
— Então fica — pede ela, baixinho.
— Só por hoje. Enquanto eu tento entender tudo isso.
Sinto o pedido como uma fisgada.
Eu poderia recusar.
Eu deveria recusar.
Mas eu não consigo.
Aproximo meu rosto do dela, sentindo a respiração quente contra minha boca.
Ela fecha os olhos, é vulnerável, aberta, perigosa.
Minha voz sai como um sussurro rouco:
— Sou seu, Lara pelo tempo que você quiser.
Ela abre os olhos e a tensão entre nós explode.
Em um impulso, ela me beija.
Não é um beijo suave ou hesitante.
É um beijo cheio de dor, raiva e necessidade.
Eu respondo com a mesma intensidade, segurando o rosto dela, aprofundando o contato, sentindo o gosto amargo de lágrimas que ela não conseguiu prender.
O mundo desaba.
O perigo existe.
A ameaça está mais próxima do que nunca.
Mas, por um instante, somos só nós dois.
Lara e eu.
Caos e desejo.
Verdade e mentira.
Sombras e fogo.
Quando finalmente nos afastamos, ambos ofegantes, apoio minha testa na dela.
— Amanhã — digo, ainda sem fôlego
— nós vamos atrás dessa pessoa.
Minha voz é uma promessa.
— E quando encontrarmos eu juro que não vou deixar te machucarem de novo.
O olhar dela fica mais firme.
Mais forte.
Mais decidido.
— Vamos descobrir juntos — responde ela.
— Porque eu confio em você, Dante. Mesmo que isso me assuste.
Fecho os olhos.
Porque isso, isso me queima mais do que qualquer ameaça.
Ela confia em mim.
E eu faria qualquer coisa para não quebrar essa confiança.
Ainda que, no fundo, eu saiba que estou começando a quebrar uma promessa minha, não me envolve.
Mas é tarde demais.
Eu já estou envolvido demais para voltar atrás.