📘 Almas de Fera
Capítulo 78 – Dentro da Escuridão
A grande f***a n***a abriu‑se devagar, como uma boca imensa e viva que se estendia sem fim para baixo, engolindo a luz e tudo o que ali estivesse. Zaira caiu sem sentir nada debaixo de si — nem vento, nem chão, nem peso — apenas um vazio absoluto que parecia sugar‑lhe a própria essência.
O mundo que conhecia desapareceu de repente: som, cor, calor, o tempo a passar… tudo foi tragado por aquela escuridão profunda e eterna.
— Kael… — tentou chamar, mas a sua voz desfez‑se logo ao sair, perdida no nada como se nunca tivesse sido dita.
Depois… só restou o silêncio. Um silêncio pesado, denso, que apertava o peito.
🌑 O Vazio Sem Fim
Zaira abriu os olhos devagar. Não havia céu acima, nem chão debaixo dos pés, nem paredes em volta — apenas um espaço infinito e suspenso, feito de sombras e luz muito ténue, como se estivesse dentro de algo que existia antes mesmo de o mundo ter sido formado. Tudo ali parecia antigo, imóvel e cheio de segredos esquecidos.
A sua pequena forma de raposa tremia inteira, sentindo uma energia poderosa a tocar‑lhe o pelo e a alma.
— Onde… estou afinal? Que lugar é este…? — perguntou baixinho, sem esperar resposta.
Mas uma presença imensa e profunda respondeu‑lhe de imediato. Não com palavras, mas com uma sensação forte: algo que estava ali sempre, que a conhecia melhor do que ela própria, que lhe era estranho e familiar ao mesmo tempo. Uma pressão suave mas inabalável que a envolvia toda.
Zaira virou‑se devagar, com o coração a bater‑lhe forte nas costelas. E viu.
Uma sombra colossal, maior que qualquer montanha, mais antiga que o templo que acabara de deixar, mais velha que todas as lendas contadas até hoje. Era Vharok, mas não como o dragão que todos viam — ali ele era diferente: imenso, fragmentado, feito de muitas formas sobrepostas, como se existisse ao mesmo tempo em todos os tempos que já viveu.
— Finalmente… — a sua voz ecoou por todo o espaço, vindo de todos os lados, profunda e calma. — Aqui estamos nós, no princípio de tudo o que nos une.
Zaira deu um passo para trás instintivamente, eriçando o pelo todo.
— Que é isto?! Onde nos trouxeste?! — gritou ela, tentando soar destemida apesar do medo.
Vharok aproximou‑se — não caminhando, mas crescendo e aparecendo mais claramente a cada palavra que dizia.
— Este lugar… é onde tudo começou. O sítio exato onde o grande selo foi criado, há eras sem conta. O coração da magia que te formou.
Ao ouvir aquela palavra, Zaira sentiu um aperto forte e doloroso no peito.
— Selo… — repetiu, e de repente memórias escondidas começaram a bater‑lhe na mente, a querer sair. Desta vez não eram apenas flashes rápidos e confusos: eram ecos distantes, vozes antigas a dar ordens, luzes brilhantes, e uma dor antiga que ela não sabia que carregava.
Levou as patas à cabeça, fechando os olhos com força.
— Pára… por favor, pára com isto… não quero ver mais nada!
Vharok inclinou‑se sobre ela, enorme e terno ao mesmo tempo.
— Tu foste feita mesmo aqui, com este poder. Moldada com cuidado e propósito… para conter aquilo que nenhum exército, nenhuma a**a, nenhum reino jamais conseguiria destruir.
O próprio vazio tremeu suavemente quando ele falou, como se as suas palavras fossem leis antigas.
Zaira lutou contra aquela ideia com toda a força que tinha, fazendo brilhar uma luz dourada intensa à sua volta.
— Eu não sou isso! Não sou uma prisão, nem uma ferramenta! Sou Zaira!
A luz explodiu forte, mas o espaço infinito absorveu‑a lentamente, como se a estivesse a provar, a medir a sua força verdadeira.
Vharok observou tudo com calma e até uma ponta de satisfação.
— És mais forte do que eu esperava… a magia criou‑te bem. Mas ainda estás incompleta — faltas‑te saber quem realmente és.
Zaira respirava com dificuldade, sentindo‑se pequena mas não vencida.
— E não me pertenço a ti! Nunca fui tua!
Ele ficou em silêncio por um longo momento, depois respondeu devagar:
— Nunca disse que eras minha posse. Mas… foste minha criação. Dei‑te forma, guardei‑te, escondi‑te… tudo para que cumprisses o teu papel.
O espaço distorceu‑se à volta deles, e por um instante Zaira viu uma visão nítida: ela própria, ainda mais pequena, dentro de um círculo de runas brilhantes e antigas. E uma voz muito distante dizia claramente:
“Se um dia o dragão despertar, ela será o único limite que o poderá segurar.”
Os olhos de Zaira arregalaram‑se de espanto e terror.
— Não… n******e ser…
Vharok aproximou‑se ainda mais, a voz baixa e grave como uma verdade eterna.
— Eu não te procurei nem ataquei por acaso, Zaira. Fui atraído por ti, desde o primeiro momento em que o teu coração bateu. Porque é assim que funciona: o selo chama sempre aquilo que foi feito para aprisionar. Somos duas partes da mesma coisa, unidas desde antes de existirmos.
O chão que não existia pareceu tremer debaixo dela. E lá no fundo do seu ser, algo muito antigo e adormecido começou a mexer‑se, a responder à presença dele — como uma corrente pesada que há milénios estava fechada e agora sentia o outro lado.
— Pára… por favor… — sussurrou ela, assustada com o que sentia dentro de si mesma.
⚡ No Mundo Real
Lá fora, nas ruínas do templo, Kael estava de joelhos mesmo à beira da f***a escura, com os braços estendidos para ela. A sua luz dourada e poderosa jorrava continuamente, batendo na escuridão e sendo devolvida com uma força contrária, fazendo o ar estalar e as pedras voarem à volta.
— ZAIRA!! OUVES‑ME? ESTOU AQUI, VOU‑TE BUSCAR!! — gritou ele até ficar rouco.
Selene, apoiada nos braços de Arion, chorava sem conseguir parar, os olhos pregados naquela ferida aberta na terra. Elyra, de pé um pouco mais atrás, com as mãos erguidas e a testar a magia do lugar, empalideceu de medo.
— Se isto continuar assim… se a energia dele bater demais no núcleo… o que resta do selo vai desabar por completo! E ninguém sabe o que virá depois! — avisou ela, trémula.
Kael ergueu a cabeça de repente, os olhos vermelhos e brilhantes de determinação absoluta.
— Não me importa o que venha… eu vou buscá‑la. Custe o que custar.
E pôs‑se de pé, deu um passo firme e avançou direto para a escuridão.
🌑 De Volta ao Vazio
E então, no meio daquele silêncio sem tempo, Zaira ouviu. Um som fraco ao princípio, depois cada vez mais nítido — uma voz que atravessara mundos e barreiras antigas só para chegar até ela.
— Zaira!!
Os seus olhos abriram‑se muito, cheios de esperança e reconhecimento.
— Kael… — sussurrou, e o nome dele brilhou dentro dela como uma chama quente.
Vharok virou lentamente a cabeça para o lado, como se ouvesse também aquela força distante.
— Interessante… muito interessante… o teu leão não aceita perder. Resiste mesmo contra tudo o que existe.
Zaira cerrou os dentes, endireitou‑se toda e, pela primeira vez desde que ali chegara, não recuou um milímetro sequer. Olhou diretamente para a sombra imensa diante de si.
— E eu não vou ficar aqui fechada como uma coisa antiga! Vou voltar para ele!
A luz dourada que tinha dentro de si aumentou de intensidade, tornando‑se brilhante e forte, desafiando a própria escuridão eterna. O vazio reagiu, ondulando à volta dela… mas algo mais começou a despertar também — algo que estava escondido na sua essência, mais forte que o selo, mais forte que a magia antiga: o seu próprio poder, o da raposa livre e amada.
E essa força antiga, adormecida há tanto tempo, começou finalmente a abrir os olhos.
Continua...